Novo presidente chileno, que toma posse a 11 de março, escolheu
Fernando Rabat para a Justiça e Direitos Humanos, para desagrado das famílias
das vítimas da ditadura. Fernando Barros fica na Defesa.
Muitos
independentes no governo de Kast, que toma posse a 11 de março.
Escrito por Susana Salvador
Entre os muitos técnicos e
independentes que o chileno José Antonio Kast nomeou para o seu governo, que
toma posse a 11 de março, há dois nomes que chamaram a atenção: Fernando Rabat
e Fernando Barros. Os dois foram advogados do ex-ditador Augusto Pinochet,
sendo que o primeiro vai assumir a pasta da Justiça e Direitos Humanos, o que
já gerou críticas da parte das associações de famílias de desaparecidos e
vítimas. O segundo será ministro da Defesa.
"Este
gabinete não nasceu de quotas, cálculos ou pressões. Nasceu de uma profunda
convicção e de uma vocação partilhada: colocar sempre o Chile em primeiro
lugar", disse o ultraconservador de 59 anos, que derrotou a candidata de
esquerda Jeanette Jara na segunda volta das presidenciais chilenas, a 14 de
dezembro.
"O Chile precisa de bom-senso, sentido de
urgência e, acima de tudo, de união nacional. Todos somos chamados a algo que
vai muito para além das disputas políticas",
acrescentou, na apresentação do executivo.
O seu governo terá
ex-ministros da direita e da esquerda, mas a maioria dos escolhidos são
técnicos e independentes.
Entre os
independentes houve contudo dois que geraram polémica: Fernando Rabat e
Fernando Barros. Em comum têm não só o primeiro nome, mas o facto de terem sido
advogados de Pinochet, que esteve à frente dos destinos do Chile após o golpe
de 1973 e até 1990.
Fernando Rabat -
Justiça
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| Fernando Rabat e Kast |
Fernando Rabat, de 53 anos, estreia-se no governo
depois de deixar o escritório privado onde trabalha há décadas -- e no qual foi
sócio do falecido Pablo Rodríguez Grez, que fundou o Pátria e Liberdade
(movimento de extrema-direita que cometeu atentados contra Salvador Allende).
Formado na Faculdade de Direito da Universidade dos
Andes e especialista em direito civil, sendo professor na Universidade do
Desenvolvimento, Rabat
integrou ainda jovem a equipa que defendeu Pinochet.
Esteve envolvido no Caso Riggs (referente
às contas bancárias secretas nos EUA, para onde terá desviado mais de 21
milhões de dólares em fundos públicos) e no caso da Operação Colombo (desenvolvida
pela polícia secreta DINA para encobrir o desaparecimento de 119 opositores).
Pinochet morreu em 2006, sem ter sido condenado.
A nomeação de Rabat foi criticada pela Associação
de Familiares de Detidos e Desaparecidos, que indicou que "constitui uma ofensa direta à
memória das vítimas da ditadura e das suas famílias". Esta
nomeação "reafirma
um historial de apologia da ditadura e um compromisso com a impunidade", acrescentaram.
Kast é o primeiro presidente da era democrática a
ter apoiado o regime militar, embora tenha evitado abordar o assunto durante a
sua terceira tentativa de chegar ao palácio La Moneda.
A possibilidade de, durante o seu mandato, poder
conceder indultos a quem violou os direitos humanos, cortar verbas para a
manutenção de monumentos às vítimas e interromper a busca de desaparecidos está
entre as preocupações da futura oposição.
Fernando Barros - Defesa
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| Fernando Barros |
O presidente escolheu outro advogado, um dos
maiores especialistas em direito tributário, para a pasta da Defesa. Fernando Barros, de 68 anos, é
apelidado pelo jornal chileno La Tercera como "o
escudeiro" de Pinochet, tendo defendido o antigo ditador no seu processo
em Londres por crimes contra a humanidade,
incluindo acusações de genocídio e tortura.
Barros, que estudou Direito na Universidade do
Chile e se especializou em direito tributário em Harvard e na London School of Economics,
e a sua mulher estavam em 1998 num ano sabático na Europa, quando o advogado
acabou por transformar-se no porta-voz de Pinochet, depois de este ser detido
na capital britânica a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón. Como parte da operação de relações
públicas, conseguiu que Margaret Thatcher fosse visitar o antigo ditador na
casa onde cumpria prisão domiciliária.
Após 17 meses de batalhas jurídicas, Pinochet seria
libertado por razões de saúde em 2000, regressando ao Chile. A relação de
Barros com Pinochet (e a sua amizade com o seu filho Marco António Pinochet)
levaram-no também a participar na defesa do caso Briggs, em 2005.
Apesar de ser independente, o católico conservador
e pai de 13 filhos esteve sempre ligado à direita tradicional, tendo trabalhado durante mais de três
décadas com o ex-presidente Sebastián Piñera, assumindo
a parte jurídica dos seus vários negócios. Além de advogado, já se sentou nos
conselhos de administração de várias empresas. Atualmente estava na sociedade
de investimentos Odisea, que administra o património da família Piñera.
Outros ministros
A maioria dos escolhidos pode ser independente (16
em 24), o que causou críticas entre os diferentes partidos que o apoiaram, mas
há também políticos experientes no executivo de Kast. E nem todos da
direita. Entre
os 24, há 13 homens e 11 mulheres.
"Não lhes pedi lealdade pessoal ou com um
partido político. Pedi-lhes lealdade com o Chile", afirmou o presidente
eleito.
O novo ministro do Interior será Claudio Alvarado,
militante da União Democrática Independente (direita tradicional), que já foi
autarca, deputado e senador. Esteve nos dois mandatos de Piñera, e Kast tinha-o
já escolhido para supervisionar a transição de poder do governo de Gabriel
Boric.
O chefe da diplomacia será Francisco Pérez Mackema, que
militou no Renovação Nacional (direita) e foi diretor-geral da Quiñenco,
empresa associada à família mais rica do Chile. Neste cargo, estabeleceu
ligações no setor do comércio internacional e junto com governos estrangeiros,
segundo o El
País.
O Ministério das Finanças ficará nas mãos do
economista e consultor Jorge Quiroz, que
vai ter supremacia dentro de toda a equipa económica. Foi o coordenador
económico da campanha de Kast, tendo ganhado fama por criticar as medidas
económicas do presidente Boric.
Para a pasta da Segurança, Kast foi buscar outra
advogada, atual procuradora regional de Taracapá, Trinidad Steinert. Ganhou
destaque pelos processos contra os membros do Tren de Aragua, a organização
criminosa transnacional de origem venezuelana, assim como pela investigação aos
casos de narcotráfico entre as Forças Armadas.
Uma das figuras da extinta Concertação, a coligação
de centro-esquerda que governo o Chile depois da queda do regime de Pinochet e
até 2010, será ministro
da Agricultura. Jaime Campos era militante
do Partido Radical (que foi dissolvida por não conseguir os mínimos nas
legislativas de novembro). Já esteve à frente da pasta da Agricultura no
governo de Ricardo Lagos (entre 2000 e 2006), tendo uma década depois sido ministro
da Justiça e Direitos Humanos de Michelle Bachelet.
Outra representante do centro-esquerda é a até
agora senadora Ximena
Rincón, que será ministra da Energia.
Foi ministra do Trabalho de Bachelet, sendo ex-militante do Partido Democrata
Cristão, do qual se afastou para fundar o Democratas (centro, opositor ao
governo de Boric).
[Fotos: EPA/ADRIANA THOMASA
- fonte: www.dn.pt]
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