sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A defesa da revolução do povo curdo representa a solidariedade internacional contra a guerra

Os ataques contra os curdos foram levados a cabo com o conhecimento dos representantes europeus que se encontravam em Damasco naquele momento. Com estes encontros, está a ser levada a cabo um branqueamento total de Al-Golani.

Confrontos na linha de frente de Al-Hasakah e Ain Al-Arab (Kobane)

Escrito por Julia Romera

Há mais de duas semanas, o exército sírio, em colaboração com milícias islâmicas financiadas pelo Estado turco, intensificou os ataques com armas pesadas contra a população civil curda do nordeste da Síria. A ofensiva começou nos bairros de Sheikh Maqsoud, Ashrafieh e Beni Zeyd, em Alepo, que sofreram os primeiros ataques a 6 de janeiro. Estes bairros fazem parte da Administração Autónoma do Nordeste da Síria (AADNES) e são protegidos pelas Asayish, as forças de defesa internas. 

As Asayish contam com um sistema de organização que inclui mulheres e jovens como peças-chave da sociedade e assenta nos valores da democracia, da liberdade e da coexistência entre povos. Numa conferência de imprensa no dia 20 de janeiro, Îliah Ehmed, copresidente do Conselho Executivo da AADNES, avaliou o papel negativo da Turquia nas negociações entre o Governo de transição sírio e a AADNES. Ehmed destacou o planeamento militar exaustivo e perfeito dos ataques desde o primeiro dia, o que leva a confirmar a orquestração por parte do Estado turco. 

Ultimato e ataque  

Os ataques ocorreram durante as negociações entre as Forças Democráticas Sírias (FDS), uma aliança militar entre milícias curdas, árabes, assírias, arménias, turcomanas e circassianas, e o governo de transição sírio de Damasco. Até ao ataque, estava a ser avaliada a integração das FDS nas estruturas do Estado sírio — seguindo os acordos de 10 de março e 1 de abril de 2025. Sipan Hemo, membro do Comando Geral das FDS, declarou que, na reunião com o ministro da Defesa, Abu Kasra, chefe da inteligência síria e da Coligação Internacional contra o Estado Islâmico, as negociações estavam quase concluídas, até que o Governo de transição ordenou que fossem suspensas e adiadas para 7 ou 8 de janeiro. Pouco depois, atacaram os dois bairros de maioria curda em Alepo.  

De 7 a 9 de janeiro, o governo do presidente sírio Ahmed al Shaara, anteriormente conhecido como Al-Golani, instou os habitantes dos bairros de maioria curda em Aleppo a partirem, sob a ameaça de serem considerados alvos militares legítimos se não o fizessem. Isso significou o deslocamento de centenas de milhares de pessoas para a cidade de Afrin e o desaparecimento e detenção de quase mil pessoas; todos esses números de acordo com dados oficiais da AADNES. No entanto, também houve milhares de pessoas que decidiram ficar, segundo informou o Conselho Popular local. A resistência das mulheres tem sido notável desde o início. Elas deram força à decisão de resistir e lutar nos bairros e apontaram diretamente as potências internacionais como responsáveis pelos massacres nos seus bairros.   

Milhares de pessoas marcharam de Rojava até Aleppo para levar moral à resistência. “Como povo, não temos medo do cerco, dos bombardeamentos ou dos massacres. A nossa resistência é a melhor prova dessa determinação. Somos um povo que demonstra uma resistência inédita na proteção da nossa honra, da nossa pátria e da nossa própria existência. Aqui, diante dos tanques e das armas dos invasores, os nossos combatentes estão a fazer grandes sacrifícios, defendendo os seus bairros com a vida”, afirma Nasimo Kinjo, uma mulher que se juntou a um comboio a caminho de Alepo.  

A responsabilidade da Europa   

Estes novos ataques foram levados a cabo com o conhecimento dos representantes europeus que se encontravam em Damasco naquele momento. Nos últimos dias, Ursula Von Der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu, encontraram-se com o presidente sírio Ahmed al Shaara. Na reunião, a presidente da Comissão Europeia prometeu 620 milhões de euros ao governo, apesar do massacre de milhares de civis, para a reconstrução de uma nova Síria.  

Este encontro está em linha com as reuniões do ano passado entre o Governo de transição sírio e presidentes e ministros europeus como Macron, Meloni e Pedro Sánchez. Com estes encontros, está a ser levada a cabo um branqueamento total de Al-Golani, que culmina com o seu convite para a Casa Branca por parte de Trump e com a sua retirada das listas de terroristas internacionais.   

Entrámos numa fase em que os Estados ocidentais legitimam abertamente o governo sírio no cenário geopolítico global, ao mesmo tempo que ignoram as suas responsabilidades nos massacres. Para mencionar apenas um dos muitos, o que ocorreu na primavera passada contra a população alauita em Latakia, Tartus e Maha, onde 2000 civis foram mortos em 21 dias. O silêncio da comunidade internacional é compreensível após esta reunião; a desinformação e a manipulação fazem parte da guerra atual contra o povo curdo.   

Uma operação de liquidação do povo curdo   

Os ataques contra a população curda nestes bairros de Alepo foram conscientemente planeados para atacar a AADNES e as suas forças de defesa. Em Alepo, as FDS retiraram-se há alguns meses como parte do acordo de 1 de abril, pelo que as forças de segurança interna em Alepo, as Asayish, eram as que controlavam os bairros. Enquanto as FDS cumpriram a sua parte do acordo retirando-se, o exército sírio, com o apoio da Turquia, destacou mais de 40 000 combatentes extremistas, tanques e veículos de guerra modernos. No entanto, o Governo de transição sírio começou há meses a pressionar através do corte de eletricidade, água e combustível, impedindo a chegada de alimentos e bloqueando o acesso rodoviário desde julho. Tudo isto faz parte de uma operação de liquidação. 

A 11 de janeiro, foi declarado um cessar-fogo entre as forças curdas e o exército de Al-Golani, o que permitiu a evacuação dos feridos e mortos para zonas controladas pela AADNES. Apesar disso, os ataques persistem e é evidente que fazem parte de uma guerra organizada: desde 12 de janeiro, as milícias financiadas pelo Governo de transição sírio e pelo Estado turco estão a bombardear, enviando drones e artilharia pesada para as áreas ao redor da barragem de Tishreen, a cidade e região de Raqqa, Deir Hafer, Heseke e a cidade e aldeias próximas da cidade de Kobanê, coração da revolução. É importante notar que Deir Hafer está localizada numa área que pertence à AADNES.  

Além disso, as prisões de Raqqa e Shaddadi foram atacadas para libertar milhares de prisioneiros do Estado Islâmico com o objetivo de incorporá-los novamente às suas fileiras. Shaddadi está, atualmente, controlada pelo Governo de transição sírio e Raqqa resiste cercada pelo inimigo. Isto não seria possível sem a cumplicidade entre o governo de transição sírio, diferentes grupos islâmicos e a Turquia, que parecem ter o apoio político dos Estados Unidos, do Reino Unido e da União Europeia.  

Após a escalada dos ataques e a falta de compromisso para chegar a um acordo, há apenas dois dias, em 19 de janeiro, as FDS decidiram encerrar as negociações e as relações diplomáticas com Damasco. Toda a população é chamada pelas FDS a defender com armas o território sob o controlo da AADNES.   

Torturas, sequestros de civis e desinformação 

A mentalidade por trás desta guerra é a mesma do Estado Islâmico: torturas, sequestros de civis e violência sexual estão a ser usados como arma de guerra primária. Em relação ao ataque e à violação dos direitos das mulheres, foram recebidos vídeos de violência contra civis, decapitações e violações. As instituições internacionais têm de assumir a responsabilidade de impedir que o Estado Islâmico cometa mais massacres. Não se trata de uma guerra feita apenas para conquistar um território, mas para ferir a memória coletiva, humilhar as identidades das minorias étnicas e religiosas e neutralizar permanentemente a vontade de resistência do povo curdo. O método que a Turquia está a utilizar é o da “violência por procuração” para esconder a responsabilidade direta do seu Estado. No entanto, as armas e os símbolos utilizados pelas milícias extremistas evidenciam que o Estado turco é o principal impulsionador desta guerra. Foram fotografados mercenários perto de corpos de civis de Aleppo fazendo o símbolo dos Lobos Cinzentos, uma organização paramilitar ultranacionalista fascista turca. Sipan Hemo expõe claramente de onde vem o financiamento: “Todos os drones que circulam sobre Sheikh Maqsood e os tanques que bombardeiam os cantões pertencem ao exército turco. No entanto, isso não foi divulgado publicamente”. Ele acrescenta, além disso, que a declaração de cessar-fogo nos bairros foi resultado da pressão exercida pela resistência.   

Grande parte desta guerra está a acontecer nos meios de comunicação: há uma enorme onda de desinformação, mentiras e distorções nos meios digitais. É necessário quebrar o silêncio perante a multiplicação dos ataques, tanto no Médio Oriente como no Ocidente. Temos de continuar a falar de uma Síria democrática e do direito de todos os grupos étnicos e sociais a coexistirem em igualdade. Devemos defender as práticas democráticas de coexistência dos povos que existem há anos em Rojava. É fundamental sustentar, contra qualquer tentativa genocida, a necessidade de cada grupo poder viver em paz e com estabilidade, com a sua própria identidade e vontade política. A Administração Autónoma Democrática do Nordeste da Síria é um modelo neste sentido, que pode ser um exemplo para todo o país. Queremos terminar recordando com coragem, força e memória as comandantes Ziyad Heleb e Deniz: elas deram a vida durante os primeiros dias de ataques na defesa dos bairros de Alepo. No caso de Deniz, depois de ser assassinada, os mercenários extremistas atiraram o seu corpo de um edifício ao grito de “Allahu akbar”. O assassinato destas companheiras, a sua coragem e determinação em defender a população levou milhares de pessoas a saírem às ruas em diferentes regiões, como Kobane e Aleppo. 

“Resistir não significa apenas pegar em armas. Dependendo do momento, a resistência também é conduzida com inteligência e sabedoria estratégica, e as FDS têm essas capacidades. Nas áreas da administração autónoma, cumpriremos essa responsabilidade até o fim”, assegura Sipan Hemo. A resistência é a autodefesa organizada, que não se faz apenas na dimensão militar, mas assenta na vontade de resistir por parte do povo. O apelo do povo curdo é um apelo que nos convida a declarar com coragem a vontade de autodeterminação e de defesa da Revolução Confederal dos povos.  


Julia Romera é membro da Defend Kurdistan Catalunya, um conjunto de movimentos de solidariedade e ativismo na Catalunha que apoiam a causa curda. 


[Foto: SOHR - fonte: El Salto - reproduzido em www.esquerda.net]


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