quinta-feira, 11 de abril de 2019

O e-book gratuito que reúne narrativas orais de indígenas

Primeiro volume, lançado em 2019, reúne entrevistas conduzidas por projeto acadêmico com foco em povos de Roraima

 Koko Bernaldina, da etnia macuxi, ouvida pelo projeto Panton Pia'



Escrito por Juliana Domingos de Lima 

    Disponível on-line no site do projeto Panton Pia’, o livro “Panton Pia’: Narrativa Oral Indígena – registro na Terra Indígena São Marcos”, lançado em 2019, traz doze entrevistas com indígenas da região do Alto São Marcos, no município de Pacaraima, em Roraima, das etnias macuxi, taurepang e wapixana.

    Os três povos fazem parte do circum-Roraima, culturas que vivem ou viveram no entorno do Monte Roraima, na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, e que compartilham narrativas e crenças.

    O projeto coordenado pelo pesquisador e professor da Universidade Federal de Roraima, Devair Antônio Fiorotti, teve início há mais de uma década e vem, desde então, registrando e analisando narrativas orais de povos indígenas de Roraima.

    O Panton Pia’ é financiado desde 2007 pelo CNPq, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Já foram realizadas mais de 40 entrevistas, que resultaram em milhares de páginas de material.

    Além do propósito da divulgação científica, o projeto pretende divulgar as “artes verbais dos povos” indígenas com os quais dialoga e valorizar a cultura indígena.
 
“Os entrevistados do Alto São Marcos são indivíduos marcados por um processo de desvalorização da própria cultura. Com a chegada dos brancos, principalmente da Igreja, sua língua foi chamada de “gíria”, com toda carga pejorativa possível”.
Devair Antônio Fiorottina apresentação do livro
     
    Segundo a apresentação do livro, há quatro volumes já prontos: três de narrativas e um de cantos (eremukon) tradicionais. Na língua indígena macuxi, “panton” significa história e “pia’ ”, junto, perto – junto, perto da história.
 
    As histórias contadas no primeiro volume

    As entrevistas tocam em temas do cotidiano indígena em Roraima: a questão da terra, a presença não branca, a presença das igrejas, a alimentação e a saúde indígenas, a relação com o Estado, a representação política, as crenças e as transformações e violências ocorridas nas comunidades. 

    Uma das figuras comuns entre os povos ouvidos é Makunaima, que deu origem ao “Macunaíma” de Mário de Andrade.

    As histórias são transcritas da maneira como os indígenas as contam, de acordo com a metodologia de registro da história oral – trabalho de pesquisa histórica que privilegia fontes orais – e contextualizadas em notas quando necessário.

    A coleta, transcrição e conferência das narrativas foram feitas coletivamente, com a participação de alunos de iniciação científica e mestrado.

    Na apresentação do livro, Fiorotti conta que as histórias mitológicas que ele esperava encontrar quando iniciou o trabalho simplesmente “não surgiram e nem mais existiam na boca da grande maioria dos entrevistados”, na forma como ele imaginava.

    O que surgia nas entrevistas, porém, eram histórias de vida, muitas vezes parecidas com a “da grande maioria dos brasileiros: explorados, escravizados algumas vezes, passando por um processo de angústia diante do contato com a modernidade”. 

 
    [Foto: VIMEO - fonte: www.nexojornal.com.br] 

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