Primeiro volume, lançado em 2019, reúne entrevistas conduzidas por projeto acadêmico com foco em povos de Roraima
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Escrito por Juliana Domingos de Lima
Disponível on-line no site do projeto Panton Pia’, o livro “Panton Pia’: Narrativa Oral Indígena – registro na Terra Indígena São Marcos”, lançado em 2019, traz doze entrevistas com indígenas da região do Alto São Marcos, no município de Pacaraima, em Roraima, das etnias macuxi, taurepang e wapixana.
Os três povos fazem parte do circum-Roraima, culturas que vivem ou viveram no entorno do Monte Roraima, na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, e que compartilham narrativas e crenças.
O projeto coordenado pelo pesquisador e professor da Universidade Federal de Roraima, Devair Antônio Fiorotti, teve início há mais de uma década e vem, desde então, registrando e analisando narrativas orais de povos indígenas de Roraima.
O Panton Pia’ é financiado desde 2007 pelo CNPq, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Já foram realizadas mais de 40 entrevistas, que resultaram em milhares de páginas de material.
Além do propósito da divulgação científica, o projeto pretende divulgar as “artes verbais dos povos” indígenas com os quais dialoga e valorizar a cultura indígena.
“Os entrevistados do Alto São Marcos são indivíduos marcados por um processo de desvalorização da própria cultura. Com a chegada dos brancos, principalmente da Igreja, sua língua foi chamada de “gíria”, com toda carga pejorativa possível”.
Devair Antônio Fiorotti, na apresentação do livro
- Segundo a apresentação do livro, há quatro volumes já prontos: três de narrativas e um de cantos (eremukon) tradicionais. Na língua indígena macuxi, “panton” significa história e “pia’ ”, junto, perto – junto, perto da história.
As histórias contadas no primeiro volume
As entrevistas tocam em temas do cotidiano indígena em Roraima: a questão da terra, a presença não branca, a presença das igrejas, a alimentação e a saúde indígenas, a relação com o Estado, a representação política, as crenças e as transformações e violências ocorridas nas comunidades.
Uma das figuras comuns entre os povos ouvidos é Makunaima, que deu origem ao “Macunaíma” de Mário de Andrade.
As histórias são transcritas da maneira como os indígenas as contam, de acordo com a metodologia de registro da história oral – trabalho de pesquisa histórica que privilegia fontes orais – e contextualizadas em notas quando necessário.
A coleta, transcrição e conferência das narrativas foram feitas coletivamente, com a participação de alunos de iniciação científica e mestrado.
Na apresentação do livro, Fiorotti conta que as histórias mitológicas que ele esperava encontrar quando iniciou o trabalho simplesmente “não surgiram e nem mais existiam na boca da grande maioria dos entrevistados”, na forma como ele imaginava.
O que surgia nas entrevistas, porém, eram histórias de vida, muitas vezes parecidas com a “da grande maioria dos brasileiros: explorados, escravizados algumas vezes, passando por um processo de angústia diante do contato com a modernidade”.
[Foto: VIMEO - fonte: www.nexojornal.com.br]

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