terça-feira, 2 de outubro de 2018

Safatle: Para entender a reinvenção das direitas no Brasil

Para o filósofo, o livro "O ódio como política" revela como a presença ostensiva das direitas na atual agenda política e social brasileira não significa exatamente uma conquista de maiorias populares.



Por Vladimir Safatle

O livro O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil, organizado por Esther Solano, apresenta um panorama amplo e diversificado da consolidação das direitas pós-ditadura militar no Brasil. Em um momento no qual a direita brasileira esconde sua incapacidade de criar hegemonia popular através da presença, cada vez mais ostensiva, de seus discursos e dogmas, a publicação traz uma reunião de textos fundamentais para a compreensão da radicalização da política brasileira diante do colapso da Nova República a partir das manifestações de 2013.
Estão presentes análises históricas sobre as múltiplas facetas da direita nacional, como o neopentecostalismo e sua teologia da prosperidade, o liberalismo nacional da burguesia organizada (que nunca viu problemas em se associar às práticas políticas as mais abertamente autoritárias) e as forças armadas e seu vínculo orgânico com o passado ditatorial, além do poder judiciário e sua constituição classista. Alguns textos enfocam o imaginário conservador nacional, suas metáforas economicistas e sua natureza racista, misógina e homofóbica. Por fim, há outros que se dedicam à compreensão da gênese do desrecalque conservador de setores da sociedade brasileira através de discussões a respeito do lulismo e seus limites.
O conjunto deixa evidente como a presença ostensiva das direitas na atual agenda política e social brasileira não significa exatamente uma conquista de maiorias populares – o que nunca conseguiram e que lhes obriga a utilizar continuamente os artifícios dos golpes e das desestabilizações. Antes, trata-se do resultado de um trabalho longo e paciente, aliado à incompreensão, por parte dos setores progressistas, da profundidade e da radicalidade dos verdadeiros embates que estruturam nossa vida social. Livros como este auxiliam a desfazer esse equívoco.
“Direitas”, “novas direitas”, “onda conservadora”, “fascismo”, “reacionarismo”, “neoconservadorismo” são algumas expressões que tentam conceituar e dar sentido a um fenômeno que é indiscutível protagonista nos cenários nacional e internacional de hoje, após seguidas vitórias dessas forças dentro do processo democrático. Trump, Brexit e a popularidade de Bolsonaro integram as complexas dinâmicas das direitas que a coletânea busca aprofundar a partir de ensaios escritos por grandes pensadores da atualidade. Tendo como foco central o avanço dos movimentos de direita, os textos analisam sob as mais diversas perspectivas o surgimento e a manutenção do regime de ódio dentro do campo político.
Autores: Camila Rocha • Carapanã • Edson Teles • Esther Dweck • Esther Solano • Fernando Penna • Ferréz • Flávio Henrique Calheiros Casimiro • Gilberto Maringoni • Henrique Vieira • Laerte • Lucas Bulgarelli • Lucia Mury Scalco • Luis Felipe Miguel • Luiz Gê • Márcio Moretto Ribeiro • Pedro Rossi • Rosana Pinheiro-Machado • Rubens Casara • Silvio Luiz de Almeida • Stephanie Ribeiro
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Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professor visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII, professor-bolsista no programa Erasmus Mundus. Escreveu A paixão do negativo: Lacan e a dialética (São Paulo, Edunesp, 2006),Folha explica Lacan (São Paulo, Publifolha, 2007), Cinismo e falência da crítica (São Paulo, Boitempo, 2008) e coorganizou com Edson Teles a coletânea de artigos O que resta da ditadura: a exceção brasileira (Boitempo, 2010), entre outros. Atualmente, mantem coluna semanal no jornal Folha de S.Paulo e coluna mensal na Revista CULT. Em 2012, teve um artigo incluído na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (Boitempo, 2012), publicada pela Boitempo Editorial em parceria com o Carta Maior.

[Fonte: blogdaboitempo.com.br]

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