Para escritor, clube ‘sequestrou representatividade que nem de perto possui’ na comunidade judaica do Rio
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| O rabino Nilton Bonder |
Escrito por FLÁVIO TABAK
O
rabino Nilton Bonder, da Congregação Judaica do Brasil (CJB), reagiu às
polêmicas declarações do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) feitas
durante apresentação no clube Hebraica Rio, na segunda-feira. Em texto
publicado em sua página no Facebook, sugeriu que a instituição mude o nome para
“Clube Laranjeiras ou algo que o valha”, em referência à, segundo ele, não representatividade
da entidade na comunidade judaica.
Entre as várias declarações
controversas, comuns aos seus discursos, e sob aplausos em muitos momentos,
Bolsonaro disse à plateia de 300 pessoas que, caso seja eleito presidente da
República, não haverá “um centímetro demarcado para reservas indígenas ou
quilombolas”, acrescentando que, quando foi a um quilombo, o “afrodescendente
mais leve de lá pesava sete arrobas”. Bolsonaro ainda completou: “Não fazem
nada. Nem para procriador serve mais”. O parlamentar também criticou refugiados, dizendo que não se pode “abrir portas para todo mundo”.
Sob críticas em redes sociais, Bolsonaro já havia sido descartado de um
debate promovido pela Hebraica de São Paulo, clube significativamente maior do
que o carioca e com outra administração. Ao GLOBO, Bonder disse que a
direção da Hebraica do Rio é composta por um grupo pequeno de pessoas que não
são representativas na comunidade judaica, diferentemente da Hebraica de São
Paulo, “extremamente ativa, vinculada diretamente à comunidade”.
—
É muito chocante assistir a esses vídeos divulgados. É deplorável. Pior ainda
com o rótulo de representatividade (da Hebraica) que não corresponde à opinião
da grande maioria da comunidade judaica. É hoje um clube periférico. Não
consigo imaginar nenhum material mais contrário aos fundamentos da tradição
judaica — disse o rabino.
Bonder
também falou sobre imigração:
—
Os judeus no Brasil têm história de imigração, de terem sido obrigados a
abandonar à força os locais onde estavam. Para nós, a fidelidade com o
imigrante, com o estrangeiro é enorme. Estamos às vésperas do Pessach, a Páscoa
judaica, quando celebramos a saída do Egito e a questão da liberdade. O texto
bíblico diz, inúmeras vezes, que precisamos nos identificar com os
estrangeiros, é uma dimensão basilar da tradição judaica.
O
rabino criticou o uso de símbolos judaicos durante a apresentação.
—
É muito grave uma instituição, que, de certa maneira, se apresentou como espaço
da comunidade e exibiu bandeiras de Israel, permitir uma situação dessas —
disse.
Nilton
Bonder escreveu que o grupo da Hebraica é “inexpressivo e amador” e usou o nome
do clube para “sequestrar uma representatividade que nem de perto possui”.
— Foi uma falsidade ideológica com repercussão enorme. A tradição
judaica é de valores humanistas e ficou manchada pelos trechos que ficaram ali
como sendo uma opinião da comunidade — argumentou. — Há uma presença enorme de judeus nas áreas humanistas,
no pensamento, na cultura. Os judeus são muito presentes e isso fala mais alto
do que tentar definir uma comunidade por um pensamento ou outro.
Afora os aplausos de segunda, a Hebraica também recebeu manifestações
contrárias a Bolsonaro do lado de fora. Cerca de 150 pessoas lembraram judeus
mortos na ditadura militar, entre eles o jornalista Vladimir Herzog. Bolsonaro
defende os anos de regime militar no país.
Parlamentares do PT e do PCdoB protocolaram na quinta-feira representação
na Procuradoria-Geral da República pedindo que o órgão apure se Bolsonaro
cometeu racismo na palestra. Segundo os parlamentares que assinam a
representação, “não se trata de apenas mais um discurso racista, recheado de
intolerância e ódio”, mas “ações e condutas, deliberadamente realizadas, sempre
com elevado dolo e insensibilidade social, visando claramente alcançar a figura
típica do delito de racismo”.
A representação é assinada pelos senadores do PT Humberto Costa (PE),
Gleisi Hoffman (PR) e Paulo Rocha (PA) além dos deputados Carlos Zarattini
(SP), Benedita da Silva (RJ), Maria do Rosário (RS), Paulão (AL), Vicentinho
(SP), Wadih Damous (RJ) e Erika Kokay (DF), todos do PT, e Jandira Feghali
(PCdoB-RJ), que pedem a abertura de uma investigação penal.
Procurado por telefone e e-mail, Bolsonaro não respondeu.
Hebraica: "Não demos espaço apenas para o Bolsonaro"
Em comunicado enviado nesta sexta-feira, a Hebraica Rio informou que
respeita a "democracia, a tolerância e o equilíbrio".
De acordo com o clube, o espaço concedido ao deputado é apenas o
primeiro de outros convites que serão feitos em 2017:
"Não demos espaço apenas para o Bolsonaro. Receberemos outros
políticos no decorrer do ano, da mesma forma que recebemos nas últimas eleições
municipais. Ele foi o primeiro de 2017, apenas isso, porque aceitou
primeiro".
O clube informa que não anunciou um posicionamento com a palestra:
"O fato de qualquer político palestrar na Hebraica Rio não emite a posição
do clube. (...) Coibir a liberdade de expressão é perigoso, deflagrar um embate
dentro da comunidade é um grave erro da intolerância que tanto abominamos
(...). A ditadura, sob nenhuma forma, e o extremismo nunca serão bem-vindos em
nossa instituição", diz o clube.
"Não há como sabermos o que eles pensam ou o que é mito das redes
sociais, nos tempos modernos, onde tudo gira em torno de paixões e ódios.
Acreditamos que, com a proximidade, podemos entender de fato quais são as
propostas políticas dos mais diferentes perfis. São as informações do que ainda
não foi divulgado que buscamos em nossas palestras", completou o clube.
[Foto: Ana Branco – fonte:
WWW.oglobo.globo.com]

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