Obras no antigo Açougue Municipal começaram há dois anos e a partir de hoje está aberto a visitas o espaço que será, no futuro, a Casa da História Judaica de Elvas.
Escrito por ALEXANDRA PRADO COELHO
Com uma comunidade judaica que, na época medieval, constituía perto de um quarto da população, Elvas tinha necessariamente que ter uma grande sinagoga. A questão era saber exactamente onde, depois de séculos de apagamento da presença dos judeus na cidade. Rui Jesuíno, responsável pelo Património e Turismo na Câmara Municipal de Elvas, tinha a convicção de que o, há muito desactivado, edifício do Açougue Municipal, em plena Judiaria Velha, era o sítio que procuravam.
Hoje, ao fim de dois anos de obras, o antigo açougue vai ser oficialmente aberto ao público para que a população da cidade e os visitantes, em número cada vez maior (60% são espanhóis), possam conhecer aquela que, afirma Rui Jesuíno, é a maior sinagoga medieval até agora identificada em Portugal.
Para já, trata-se apenas da inauguração da primeira fase depois das obras, que permitirá visitar o local (basta pedir na Câmara Municipal ou no Posto de Turismo) e um roteiro com outros pontos de interesse ligados aos judeus na cidade. Falta ainda o restauro das pinturas a fresco dos arcos e paredes e a musealização do espaço, a futura Casa da História Judaica, onde serão contadas as histórias de algumas das famílias de judeus mais célebres da terra e será prestada homenagem a uma comunidade que até à Idade Média teve grande importância e influência em Elvas.
Não tendo sido encontrada uma pedra da fundação, identificando-a claramente como sinagoga, ela só pode ser apresentada como “possível sinagoga” de Elvas, mas, segundo o historiador, que investigou profundamente a história judaica da cidade, todos os indícios apontam para que fosse efectivamente neste local que os judeus realizavam o seu culto.
Desde 2008/9 que o antigo açougue estava a ser usado como espaço de reservas do Museu de Arte Contemporânea de Elvas, o MACE. Mas, depois de Rui, juntamente com uma colega da Câmara, Tânia Rico, e com uma antiga professora de ambos, já falecida, Carmen Balesteros, levantarem a hipótese de aqui ter sido a sinagoga, iniciaram-se em 2015 as escavações – com fundos do EEA Grants, numa candidatura através da Rede de Judiarias de Portugal – e, para surpresa geral, foram descobertas mais seis colunas. Hoje o espaço tem à vista doze colunas, “que correspondem às doze tribos de Israel”, sublinha Rui Jesuíno.
Descemos a Rua dos Açougues, uma das que integrava a Judiaria Velha (o grande número de judeus levou ao aparecimento, noutra zona da cidade, de uma Judiaria Nova da qual restam muito poucos vestígios) e chegamos à porta do edifício, que ainda mantém a encimá-la um azulejo identificando-o como açougue e cuja obra de adaptação, no século XVI, é do arquitecto Francisco de Arruda, o mesmo da Torre de Belém, em Lisboa.
“Quando visitámos o espaço com a professora Carmen Balesteros, fizemos as medições e vimos que correspondia às dimensões de uma sinagoga. Nessa altura estavam à mostra apenas seis colunas”, explica Rui. As pequenas “capelas” visíveis de um lado e do outro foram construídas mais tarde e terão servido para colocar as bancas de venda de carne e outros alimentos comercializados no açougue.
Segundo Rui Jesuíno, “açougue”, que vem da palava árabe “souk”, não era apenas um talho, mas um pequeno mercado de alimentos. O facto de ali se vender carne, incluindo carne de porco, proibida pela religião judaica, e de correr sangue de animais era uma forma de dessacralizar ainda mais o que tinha sido um espaço sagrado.
A sinagoga original seria bastante maior – talvez o dobro, admite o responsável da Câmara – do que vemos hoje. Não foi possível, contudo, escavar mais porque de ambos os lados existem casas particulares. Uma delas tem um pequeno pátio onde ainda são visíveis degraus da época medieval, uma janela manuelina e vestígios de uma cisterna que, acreditam os historiadores, seria o ponto de água localizado no lado da sinagoga que daria acesso à parte reservada às mulheres.
[Foto: MÁRIO LOPES PEREIRA - fonte: www.publico.pt]
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