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| Lago Quilotoa, Cotopaxi (Equador) |
Limiar
A minha primeira visita ao Equador foi em junho de 2015. Naquela altura foi que tive o meu primeiro encontro com o quéchua de uma maneira totalmente fortuita. Aconteceu que eu visitava um mercado de frutas ao ar livre perto da embaixada espanhola quando uma anciã se me aproximou e começou a me falar em quéchua, enquanto tentava vender-me alguma fruta que para mim era desconhecida. Para além de alguma locução em quéchua, era a primeira vez que ouvia a língua ao natural. Fiquei pampo, mas foi uma sensação preciosa, encontrei a língua harmoniosa e lírica, se calhar como o galego.
Variedades do quéchua segundo a Wikipedia
Depois daquele episódio, voltei ouvir o quéchua já com mais normalidade em 2017 durante várias celebrações do equinócio em Quito. Porém, já desde a minha primeira visita comecei a procurar materiais de quéchua, se calhar com a intenção de apreender sozinho os rudimentos da língua. Mas então surgiu a questão: que variante dela? Eis o primeiro problema.
O quéchua como diassistema
Trata-se, portanto, de uma língua com uma estandardização desigual que até para muitos estudiosos não é uma língua, mas um diassistema (falam em “família de línguas,” mas este é um conceito pouco rigoroso). É bem certo que o diassistema quéchua se estende pela Colômbia, o Equador, o Peru, a Bolívia e a Argentina, como se vê no mapa anexo. Contudo, pode-se afirmar que a evolução das variantes dificulta tanto a compreensão dos falantes dos extremos até torná-la impossível? Pessoalmente não tenho resposta para isso, mas tenho a impressão que não há tanta distância como para negar a unidade linguística.
Contudo, acho que a atual situação de fragmentação está a resultar perigosa para o quéchua. O que de facto se está a aplicar é uma política do “divide e vencerás”. A fragmentação do quéchua não pode ser boa para a língua. Contra a padronização global alçam-se vozes que não querem perder as variantes locais do quéchua, o qual é muito compreensível, mas está-se a partir de uma questão que na normativização é muito clara: não se fala como se escreve.
Estou ciente que as receitas de uns lugares amiúde não servem para outros, mas sim é certo que há questões metodológicas que foram implementadas noutros lugares com línguas ameaçadas e que sim podem ser efetivas (pelo menos parcialmente) em sítios muito remotos. A minha experiência com a normativização é exclusivamente europeia, mas o elemento técnico deveria ser útil com qualquer idioma. O que vou a expor a seguir são algumas ideias baseadas na minha experiências europeia que acho que podem ter cabida no caso do quéchua, mais especificamente no Equador.
O padrão peruano para o quéchua
Existe um padrão ortográfico quéchua no Peru da mão de Rodolfo Cerrón Palomino que começou pela ortografia unificada. Isto faz com que haja grafias peruanas que podem servir na Bolívia, mas que não se utilizam no Equador, principalmente toda a série de fonemas como: k, k’, kh; p, p’, ph; t, t’, th; q, q’, qh, onde se distingue entre simples, aspirado e ejetivo, o qual não acontece no quéchua equatoriano, onde há de facto só três destas consoantes: k, p, t, pois mesmo k e q não se distinguem. O alfabeto completo do sistema padrão peruano, tomado da variedade do Cusco é assim:

As consoantes aspiradas e ejetivas:


Pessoalmente opino que o primeiro passo é a unidade ortográfica entre as variantes quéchuas. Se isto é conseguido, o resto é mais uma questão pedagógica. Estou ciente que uma das questões que logo surgirão é porque complicar tanto a ortografia do quéchua equatoriano. O argumento é assim: se no quéchua equatoriano existe apenas /k/, porquê escreverem <k>, <k’> e <kh>? A questão é a mesma se preguntarmos porque em espanhol americano a grafia /s/ pode ser escrita <s>, <z> e <c>? Ou porque escrever <b> e <v> para /b/. Cá topamo-nos com que o que é aceite para uma língua maioritária e internacional, não o é para uma língua ameaçada. O argumento, porém, serve para as duas línguas na mesma, nem só para a internacional.
O modelo peruano, mais concretamente o do Cusco, é precisamente aquele que se emprega nos principais guias de conversa. Eu tenho dois, um de quéchua-inglês e outro de quéchua-checo. Aliás, é preciso entender que não é possível fazer guias de conversa de cinquenta dialetos, nem os manuais escolares podem ter trinta versões. Mais tarde voltarei a falar desta questão.
O caso galego
O isolamento do quéchua equatoriano lembra-me muito à política oficialista que se está a dar com o galego e a teima com o independizar do português. Quando o galego é escrito com a ortografia espanhola com mínimas adaptações, as diferenças visuais com o português são múltiplas, mas quando é utilizada a ortografia internacional do galego (isto é, a portuguesa), então as diferenças são mínimas. Pode servir o presente quadro que já incluí numa postagem anterior como mostra:

Para os oficialistas, o galego e o português são línguas diferentes e, portanto, no padrão foram procurados os elementos que mais se afastavam do português. No entanto, quando o galego é escrito segundo a norma portuguesa, a maioria das diferenças desaparecem. Isto não significa que o galego tenha de ser pronunciado da mesma maneira que o português. Existe uma unidade ortográfica, mas diversidade na pronunciação, como também acontece com o português do Brasil. É um caso de língua pluricéntrica.
Mais casos de pluricentrismo nos padrões linguísticos
A existência de um padrão único não responde à realidade de línguas padronizadas, como o catalão. Mas de facto a maioria das línguas são pluricéntricas, como o espanhol, português, francês, inglês, etc. Portanto, nestas línguas nem só existe um padrão uniforme, o que existe mesmo é um padrão com distintas normas.
A padronização das línguas segue frequentemente um destes três critérios:
- Escolha de um dialeto central que seja compreensível por todos, como é o caso do sardo na chamada LSC ou do asturiano central.
- Escolha da variante com mais prestígio, frequentemente o dialeto da capital, que é o caso das línguas estatais europeias.
- Criação de um padrão supradialetal que recolha elementos de todos os dialetos, mas que não tome como base nenhum concreto.
Se optarmos pelo dialeto do Cusco para todo o quéchua, este responderia ao critério 1, mas esta hipótese não parece fatível para o caso do quéchua.
Existe uma ideia errada que o padrão é homogéneo na maioria das línguas. As diferenças entre o português europeu e o brasileiro são notórias. No entanto, provavelmente o modelo das grandes línguas internacionais não seja um referente para o quéchua. Neste caso, acho que um modelo que pode servir parcialmente é o do catalão, cuja estrutura de padrão linguístico vem refletida no seguinte gráfico:

Portanto, desta forma é que o quéchua poderia ter uma estrutura semelhante do ponto de vista normativo. Como se vê encima, não há um padrão oficial (contudo, amiúde a norma catalã é tomada por tal por causas sociopolíticas).
Existiria um padrão quéchua, mas também normas locais, provavelmente uma por cada Estado e, dentro das normas, subnormas próprias para as variantes com mais traços significativos se isto for necessário. Não obstante, a hierarquização das normas responde a um critério fundamental já citado: a unidade ortográfica de toda a língua, pois ela é o andaime que torna possível a existência do padrão.
Em Quito, a 11 de março de 2018.
[Fonte: pivonauta.wordpress.com]

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