Um artigo de Francesc Sangar*
Na localidade de Suzzara, sita na província italiana de Mântua, fala-se uma variante da língua galo-itálica (denominada “padana” nalguns círculos), que faz parte do ramo emiliano: o suzarês.
Infelizmente
esse idioma acumula todos os problemas que uma língua pode sofrer, os quais
analisaremos neste artigo, apontando algumas de suas características mais
significativas.
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Em termos de fala, o suzarês retrocedeu nos
últimos decênios.
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Muitos
filólogos, erroneamente, não reconhecem a existência do galo-itálico,
quase sempre mediante teorias com claras conotações políticas, e
consideram-na simplesmente como um conjunto de dialetos do norte do domínio linguístico
da língua italiana, ignorando as evidentes diferenças gramaticais, fonéticas e
lexicais em relação ao italiano. É habitual a existência de listas de línguas
românicas nas quais ela não aparece mencionada. Alguns dos seus próprios falantes
negam-lhe também o caráter de língua e asseguram utilizar uma espécie de falar
sem consideração culta.
O território
da língua galo-itálica acha-se repartido basicamente entre três regiões
italianas: o Piemonte (onde
se localiza o suzarês), a Ligúria e a Emília-Romanha, mas há também pequenos
fragmentos na região de Marcas, na Toscana e noutros lugares.
Essa
situação provocou também uma forte fragmentação, e alguns filólogos consideram
nem todos os falares galo-itálicos como uma língua comum, mas como
diversas línguas.
Tal
fragmentação dialetal impede o galo-itálico de dispor até o momento duma
norma ortográfica e gramatical comum, e as diversas tentativas de criar uma
língua-padrão não tiveram êxito por temor de unificar essas normas num
só falar.
O
prestígio cultural e literário alcançado pelos escritores toscanos com
o seu falar de Florença a contar do século XIV eclipsou as outras
línguas e falares da Península Italiana. Posteriormente, a unificação ocorrida
desde 1861 estabeleceu também a versão toscana como língua oficial da
Itália com o nome de língua italiana, ao mesmo tempo que as outras línguas e falares
permaneciam associados à ignorância e ao atraso.
Apesar
de que outras variantes da língua galo-itálica dispõem duma tímida
literatura e dalgumas atividades culturais na própria língua, lamentavelmente o
suzarês não conta com produções literárias frequentes, com exceção dalguns
compêndios isolados de literatura popular tradicional (contos, poemas…).
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O suzarês não
goza de reconhecimento oficial,
apesar de que no ano 1999 o Senado italiano
reconheceu
algumas línguas.
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Em
termos de fala, o suzarês retrocedeu nos últimos decênios. Apesar de
que na metade do século XX a maioria da população falava a língua, a geração seguinte
já era bilíngue e não manteve num número suficiente de famílias a continuidade do
ensino da língua aos seus filhos, de sorte que nos vemos agora com umas novas
gerações que utilizam mais a língua
italiana, e alguns jovens desconhecem a própria língua.
Neste
momento, o suzarês é utilizado habitualmente no município de Suzzara e
nos bairros independizados de Brüsatàs, Sailét, Riwa,
Al Tablàn e San Prosp.
Fala-se
também suzarês em Luzzara, Gonzaga, Pegognaga, Moglia e Motteggiana; e uma
versão talvez idêntica em San Benedetto e Arzöl. Em tais povoados, a língua não
se chama suzarês, mas com o gentilício municipal (“gonzaguês”, “pegognaguês”…).
CARACTERÍSTICAS
FONÉTICAS
As
características mais destacáveis do seu sistema vocálico são as seguintes:
O «O» átono pronuncia-se como «U». Por exemplo, GIÓT
(bem cheio) torna-se INGIUTÍ (encher
muito, demais).
O «E» átono pronuncia-se como «A». Por exemplo, VENT («E» tônico) torna-se –VANTÀS («E» átono).
O «Ö» pronuncia-se como «–EU» em francês, em palavras como FÖC
ou BRÖT.
O «Ü» pronuncia-se como o «U» em francês, em palavras como CARSÜ (crescido).
CONJUGAÇÕES VERBAIS
O
suzarês tem quatro conjugações normais e uma especial, em função
da terminação do seu infinitivo:
Primeira: de verbos finalizados
em «–À». ZÜGÀ (jogar) ou SÜGÀ
(secar).
Segunda: de verbos finalizados em «–É». VRÉ (querer) ou PUDÉ
(poder).
Terceira: de verbos finalizados em «–AR». MÖWAR (mover) ou VÉGNAR
(vir).
Quarta: de verbos finalizados em
«–Í». GNÍ (vir) ou ZLIZÍ (alisar).
Conjugação Especial: somente pelo verbo TÖ (pegar).
Um verbo
como CANTÀ (cantar) conjuga-se no presente do indicativo da seguinte maneira:
ME A CANTI (Eu canto).
TE AT CANTI (Tu cantas).
LÖ AL CANTA / LE A CANTA (Ele canta / Ela canta).
GNUÀTAR A CANTÓM (Nós cantamos).
WUÀTAR A CANTÈ (Vós cantais).
LUR I CANTA (Eles cantam).
Entre o
sujeito e o verbo introduz-se uma “partícula de conjugação” que, no caso duma
pergunta, situa-se depois do verbo separada por um hífen:
ME CANTI-A? (Eu canto?)
Uma
forma habitual e semelhante ao francês, se couber exprimir a ação, apresenta:
L’È DRÉ STÜDIÀ (Ele
estuda). Em francês, “Il est em train d’étudier”
(Ele está estudando).
ALGUMAS
EXPRESSÕES QUOTIDIANAS
CIAU (utilizado tanto para
cumprimentar na chegada como na saída).
BUN GIÚRAN (bom-dia) – BUNA SIRA (boa-noite, na
chegada) – BUNA NÒT (boa-noite, na saída).
AM CIAMI GIUÀN (Chamo-me João).
CÚA WÖ-T? (‘O que desejas?’ / Literalmente: ‘Que queres?’).
CHE UR’È? (‘Que horas são?’)
INDU’È-A A VIA AD A STASIÚN? (‘Podes indicar-me
onde é a rua da estação?’)
E algumas
expressões bem típicas do suzarês:
FÜMANA (bruma
espessa, muito frequente no lugar).
A VÉ N’ACQUA CA DIU A MANDA (literalmente: ‘Vem muita água enviada por Deus’; metáfora: ‘Chove muitíssimo’).
L’È SIMPATIC ACMÉ LI ZBERLI A L’ORBA (literalmente: ‘É simpático como umas bofetadas no escuro’; metáfora: ‘Não é nada simpático’).
A VÉ N’ACQUA CA DIU A MANDA (literalmente: ‘Vem muita água enviada por Deus’; metáfora: ‘Chove muitíssimo’).
L’È SIMPATIC ACMÉ LI ZBERLI A L’ORBA (literalmente: ‘É simpático como umas bofetadas no escuro’; metáfora: ‘Não é nada simpático’).
O
continente europeu é muito rico em línguas. Todos deveriam estar conscientes de
que elas fazem parte do nosso patrimônio cultural; cabe-nos fazer todo o possível
para salvar esse tesouro.
Dedicado
a Andrea F.
*Desde hoje,
pode-se achar uma pequena biografia dos redatores de Sapiência na secção Qui sèm.
[Traduzido por INLC, a partir do original publicado em idioma
occitano em www.sapiencia.eu]


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