terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A língua suzaresa

Um artigo de Francesc Sangar*

Na localidade de Suzzara, sita na província italiana de Mântua, fala-se uma variante da língua galo-itálica (denominada “padana” nalguns círculos), que faz parte do ramo emiliano: o suzarês.

Infelizmente esse idioma acumula todos os problemas que uma língua pode sofrer, os quais analisaremos neste artigo, apontando algumas de suas características mais significativas.

Em termos de fala, o suzarês retrocedeu nos 
últimos decênios.
Tal como ocorre com muitas línguas e falares minoritários, o suzarês (e todo o galo-itálico) não goza de reconhecimento oficial, apesar de que no ano 1999 o Senado italiano reconheceu algumas línguas regionais existentes no território da República Italiana.

Muitos filólogos, erroneamente, não reconhecem a existência do galo-itálico, quase sempre mediante teorias com claras conotações políticas, e consideram-na simplesmente como um conjunto de dialetos do norte do domínio linguístico da língua italiana, ignorando as evidentes diferenças gramaticais, fonéticas e lexicais em relação ao italiano. É habitual a existência de listas de línguas românicas nas quais ela não aparece mencionada. Alguns dos seus próprios falantes negam-lhe também o caráter de língua e asseguram utilizar uma espécie de falar sem consideração culta.

O território da língua galo-itálica acha-se repartido basicamente entre três regiões italianas: o Piemonte (onde se localiza o suzarês), a Ligúria e a Emília-Romanha, mas há também pequenos fragmentos na região de Marcas, na Toscana e noutros lugares.

Essa situação provocou também uma forte fragmentação, e alguns filólogos consideram nem todos os falares galo-itálicos como uma língua comum, mas como diversas línguas.

Tal fragmentação dialetal impede o galo-itálico de dispor até o momento duma norma ortográfica e gramatical comum, e as diversas tentativas de criar uma língua-padrão não tiveram êxito por temor de unificar essas normas num só falar.

O prestígio cultural e literário alcançado pelos escritores toscanos com o seu falar de Florença a contar do século XIV eclipsou as outras línguas e falares da Península Italiana. Posteriormente, a unificação ocorrida desde 1861 estabeleceu também a versão toscana como língua oficial da Itália com o nome de língua italiana, ao mesmo tempo que as outras línguas e falares permaneciam associados à ignorância e ao atraso.

Apesar de que outras variantes da língua galo-itálica dispõem duma tímida literatura e dalgumas atividades culturais na própria língua, lamentavelmente o suzarês não conta com produções literárias frequentes, com exceção dalguns compêndios isolados de literatura popular tradicional (contos, poemas…).

O suzarês não goza de reconhecimento oficial, 
apesar de que no ano 1999 o Senado italiano 
reconheceu algumas línguas.
Igualmente, apesar de que noutros territórios galo-itálicos se produziram por iniciativa municipal ou provincial algumas tímidas medidas de normalização linguística (teatro, alguma rotulagem bilíngue…), no caso do suzarês isso não se fez e a presença social (administração, ensino, meios de comunicação…) é nula ou testemunhal.

Em termos de fala, o suzarês retrocedeu nos últimos decênios. Apesar de que na metade do século XX a maioria da população falava a língua, a geração seguinte já era bilíngue e não manteve num número suficiente de famílias a continuidade do ensino da língua aos seus filhos, de sorte que nos vemos agora com umas novas gerações que utilizam mais a língua italiana, e alguns jovens desconhecem a própria língua.

Neste momento, o suzarês é utilizado habitualmente no município de Suzzara e nos bairros independizados de Brüsatàs, Sailét, Riwa, Al Tablàn e San Prosp.

Fala-se também suzarês em Luzzara, Gonzaga, Pegognaga, Moglia e Motteggiana; e uma versão talvez idêntica em San Benedetto e Arzöl. Em tais povoados, a língua não se chama suzarês, mas com o gentilício municipal (“gonzaguês”, “pegognaguês”…).

CARACTERÍSTICAS FONÉTICAS
As características mais destacáveis do seu sistema vocálico são as seguintes:
O «O» átono pronuncia-se como «U». Por exemplo, GIÓT (bem cheio) torna-se INGIUTÍ (encher muito, demais).
O «E» átono pronuncia-se como «A». Por exemplo, VENT («E» tônico) torna-se –VANTÀS («E» átono).
O «Ö» pronuncia-se como «–EU» em francês, em palavras como FÖC ou BRÖT.
O «Ü» pronuncia-se como o «U» em francês, em palavras como CARSÜ (crescido).

CONJUGAÇÕES VERBAIS
O suzarês tem quatro conjugações normais e uma especial, em função da terminação do seu infinitivo:
Primeira: de verbos finalizados em «–À». ZÜGÀ (jogar) ou SÜGÀ (secar).

Segunda: de verbos finalizados em «–É». VRÉ (querer) ou PUDÉ (poder).
Terceira: de verbos finalizados em «–AR». MÖWAR (mover) ou VÉGNAR (vir).

Quarta: de verbos finalizados em «–Í». GNÍ (vir) ou ZLIZÍ (alisar).

Conjugação Especial: somente pelo verbo TÖ (pegar).


Um verbo como CANTÀ (cantar) conjuga-se no presente do indicativo da seguinte maneira:
ME A CANTI (Eu canto).

TE AT CANTI (Tu cantas).
LÖ AL CANTA / LE A CANTA (Ele canta / Ela canta).
GNUÀTAR A CANTÓM  (Nós cantamos).
WUÀTAR A CANTÈ  (Vós cantais).
LUR I CANTA (Eles cantam).


Entre o sujeito e o verbo introduz-se uma “partícula de conjugação” que, no caso duma pergunta, situa-se depois do verbo separada por um hífen:
ME CANTI-A? (Eu canto?)

Uma forma habitual e semelhante ao francês, se couber exprimir a ação, apresenta:
L’È DRÉ STÜDIÀ (Ele estuda). Em francês, “Il est em train d’étudier” (Ele está estudando).

ALGUMAS EXPRESSÕES QUOTIDIANAS
CIAU (utilizado tanto para cumprimentar na chegada como na saída).

BUN GIÚRAN (bom-dia) – BUNA SIRA (boa-noite, na chegada) – BUNA NÒT (boa-noite, na saída).
AM CIAMI GIUÀN (Chamo-me João).
CÚA WÖ-T? (‘O que desejas?’ / Literalmente: ‘Que queres?’).
CHE UR’È? (‘Que horas são?’)
INDU’È-A A VIA AD A STASIÚN? (‘Podes indicar-me onde é a rua da estação?’)


E algumas expressões bem típicas do suzarês:
FÜMANA (bruma espessa, muito frequente no lugar).
A VÉ N’ACQUA CA DIU A MANDA (literalmente: ‘Vem muita água enviada por Deus’; metáfora: ‘Chove muitíssimo’).
L’È SIMPATIC ACMÉ LI ZBERLI A L’ORBA (literalmente: ‘É simpático como umas bofetadas no escuro’; metáfora: ‘Não é nada simpático’).

O continente europeu é muito rico em línguas. Todos deveriam estar conscientes de que elas fazem parte do nosso patrimônio cultural; cabe-nos fazer todo o possível para salvar esse tesouro.

Dedicado a Andrea F.

*Desde hoje, pode-se achar uma pequena biografia dos redatores de Sapiência na secção Qui sèm.


[Traduzido por INLC, a partir do original publicado em idioma occitano em www.sapiencia.eu]

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