sábado, 18 de novembro de 2017

Em tradução: Óssip Mandelstam e Joseph Brodsky



Leia tradução de Nelson Ascher em parceria com Boris Schnaidermam para poemas de Óssip Mandelstam, poeta russo assassinado durante o terror stalinista, e Joseph Brodsky, que buscou o exílio nos Estados Unidos em 1972.

O poeta russo, nascido em uma abastada família de judeus poloneses em Varsóvia, foi assassinado a mando de Stálin.

ÓSSIP MANDELSTAM — EPIGRAMA
Vivemos sem sentir se há solo embaixo;
não se ouvem nossas vozes a dez passos.
Mas onde houver meia conversa, sempre
se há de lembrar o montanhês do Kremlin:
seus dedos grossos — dez vermes obesos;
suas palavras precisas como pesos;
seus bigodões risonhos de barata;
sua bota tão brunida, que ressalta.
Rodeado de cascudos mandachuvas,
distrai-se com sub-homens que subjuga:
um assobia, um rosna, um outro mia,
só ele é quem açoita, quem atiça,
e crava-lhes decretos-ferraduras
na testa ou no olho, na virilha ou nuca.
Degusta execuções como framboesas,
e o peito amplo de osseta lhe sobeja.
Осип Мандельштам
Мы живем, под собою не чуя страны,
Наши речи за десять шагов не слышны,
А где хватит на полразговорца,
Там припомнят кремлевского горца.
Его толстые пальцы, как черви, жирны,
И слова, как пудовые гири, верны,
Тараканьи смеются глазища
И сияют его голенища.
А вокруг него сброд тонкошеих вождей,
Он играет услугами полулюдей.
Кто свистит, кто мяучит, кто хнычет,
Он один лишь бабачит и тычет.
Как подкову, дари’т за указом указ —
Кому в пах, кому в лоб, кому в бровь, кому в глаз.
Что ни казнь у него — то малина
И широкая грудь осетина.

JOSEPH BRODSKY
SOBRE A MORTE DE JÚKOV
(trad. Boris Schnaiderman/N.A., 1996)
Eu vejo netos, fila a fila, atentos,
a carreta, o cavalo e um ataúde.
O vento que me chega não alude
aos sopros russos a tocar lamentos.
Condecorado jaz quem fora forte:
o grande Júkov parte para a morte.
Guerreiro que arrasou muros, embora
sua espada fosse pior que a do oponente,
cujas manobras foram, Rússia afora,
dignas de Aníbal —ele, surdamente,
chegou, em desfavor e solitário,
ao fim como Pompeu e Belisário.
Derramar tanto sangue de soldado
no estrangeiro o deixara contrafeito?
Lembrou-se deles ao morrer num leito
branco e civil? Quem sabe está calado.
Que lhes dirá quando, no inferno agora,
encontrá-los? “Lutei pela vitória.”
Júkov não há de erguer mais, pelejando
por uma causa justa, a mão direita.
Repousa em paz! A história russa aceita
nas suas páginas muitos que, em comando,
marchavam bravos sobre solo alheio,
mas voltavam ao próprio com receio.
O Letes, Marechal, na sua voragem,
há de tragar tuas botas e o que digo.
Aceita-o como mínima homenagem
a quem salvou a pátria do inimigo.
Rufa, tambor, ressoa sem demora,
flauta marcial, feito uma ave canora.
На смерть Жукова
Вижу колонны замерших звуков,
гроб на лафете, лошади круп.
Ветер сюда не доносит мне звуков
русских военных плачущих труб.
Вижу в регалиях убранный труп:
в смерть уезжает пламенный Жуков.
Воин, пред коим многие пали
стены, хоть меч был вражьих тупей,
блеском маневра о Ганнибале
напоминавший средь волжских степей.
Кончивший дни свои глухо в опале,
как Велизарий или Помпей.
Сколько он пролил крови солдатской
в землю чужую! Что ж, горевал?
Вспомнил ли их, умирающий в штатской
белой кровати? Полный провал.
Что он ответит, встретившись в адской
области с ними? “Я воевал”.
К правому делу Жуков десницы
больше уже не приложит в бою.
Спи! У истории русской страницы
хватит для тех, кто в пехотном строю
смело входили в чужие столицы,
но возвращались в страхе в свою.
Маршал! поглотит алчная Лета
эти слова и твои прахоря.
Все же, прими их – жалкая лепта
родину спасшему, вслух говоря.
Бей, барабан, и военная флейта,
громко свисти на манер снегиря.

Nelson Ascher é poeta, trator e ensaísta, autor de Parte Alguma (Companhia das Letras) e Poesia Alheia – 124 poemas traduzidos (Imago). 
Boris Schneiderman (Ucrânia, 1917 – São Paulo, 2016) foi um dos maiores especialistas em língua e literatura russa no Brasil, tradutor e analista de um grande número de publicações dos grandes nomes da cultura russa.
[Fonte: www.estadao.com.br]

Sem comentários:

Enviar um comentário