sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Língua difícil


Escrito por Adroaldo Furtado Fabrício


Alguns maledicentes acham que eu fico a garimpar nos jornais mancadas e erros grosseiros para “desacreditar a imprensa”. A mais da minha inépcia para essa tarefa, a suposição é injusta, até porque não há necessidade alguma de procurá-los: eles nos entram pelos olhos a cada parágrafo e nos espantam com o tamanho da ignorância e descaso pela linguagem. Também por isso, é mistério insondável a escolha de alguns colaboradores fixos. E a inacreditável dispensa de alguns outros.

Por ter interesse no assunto anunciado, dei-me ao desfrute de ler com um pouco mais de atenção um destacado convite para certo simpósio ou ciclo de conferências. Mais de metade dos palestrantes escalados vinham qualificados como doutores em diversas áreas – ou PhD, como hoje se diz e impressiona mais, por ser em inglês e mais charmoso, desde que o doutorado deixou de ser um diferencial importante. No final, uma sugestão: “Nos acompanhe no facebook...” Ainda bem que nenhum dos luminares era doutor em Linguística; fosse o caso, talvez cancelasse a participação.

As autoridades ou outras pessoas, na novilíngua vigente, são comunicadas de fatos, decisões ou eventos. Antigamente, estes (os acontecimentos) é que eram comunicados àquelas, mas, por alguma desconhecida razão, a regência do verbo foi alterada (e essa parece ser uma causa perdida: o saudoso Prof. Kaspary lutou em vão). Curiosamente, os maiores responsáveis por essa inovação foram os comunicadores profissionais, de quem se poderia esperar, pelo menos, que soubessem usar a palavra mais pertinente ao seu ganha-pão. Ou será implicância minha? 

Aliás, tão irresistível é a tentação da novidade (essa de falar diferente) que o novo regime verbal começa a estender-se ao verbo oficiar. Tenho visto, inclusive nas comunicações entre burocratas de alto nível, que hoje em dia o destinatário da correspondência é oficiado. Não posso deixar de imaginar o engravatado senhor a quem se dirige o ofício sendo achatado (talvez por uma motoniveladora) e metido em uma sobrecarta. Mais uma vez – lamento constatar, e oxalá não seja  invocação minha – os jornais têm contribuído notavelmente para a consolidação do solecismo.

E.por falar em contribuir, também esse verbo vem sendo impiedosamente massacrado. A diferença entre contribuir para e contribuir com já não parece existir. Não faz muito, em campanha muito bem intencionada e bem sucedida, nossa universidade federal – a minha querida UFRGS! – pedia-nos para contribuir com a recuperação dos seus prédios históricos. Entendi o sentido e atendi ao apelo. Assim como grande número de ex-alunos e professores, contribuí para a boa causa, mas não creio que algum de nós tivesse fortuna suficiente para suportar sozinho tamanho encargo.

Na mesma UFRGS, certa vez integrei banca de doutorado onde um dos colegas examinadores (por hipótese, doutor) dirigia-se ao examinando como “Vossa Senhoria” e ao trabalho dele como “vossa tese”. O doutorando, meu conhecido, talvez percebendo meu espanto, olhava-me entre estupefato e divertido.

Pode-se relevar ao homem da rua, ao cidadão mediano, o manejo errôneo da língua nessa difícil e minada esfera da regência verbal. Mas não a quem se serve da escrita como instrumento de trabalho. E isso se aplica também aos profissionais do foro (inclusive, e até mais, àquele meu parceiro de banca), cuja atividade envolve sempre a fala e a escrita. E que nem sempre evitam afrontas à última flor do Lácio.

Uma pérola famosa (e verdadeira): após despachar nos autos em que certo causídico alegava estar recebendo menas atenção que a merecida, o juiz escreveu um bilhetinho: “Acontesse que menos é devérbio, e devérbio não vareia”. Por obra de um escrivão indiscreto, o papelucho (como era previsível) circulou e todos ficaram sabendo da ocorrência, inclusive eu, que só aportei à mesma comarca muitos anos depois. O advogado em questão já não estava lá; por esse ou por outro motivo, fora cantar em outra freguesia, talvez menas exigente quanto à correção da linguagem.   



[Arte de Camila Adamoli - fonte: www.espacovital.com.br]

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