segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Os vários tons de Maíra Mutti Araújo

Num país famoso por um ideal de mistura racial, a luta de uma candidata para usar cotas raciais levanta questões complexas sobre cor e identidade no Brasil.



Escrito por CLEUCI DE OLIVEIRA 

Maíra Mutti Araújo tem um sotaque nitidamente baiano. Não é à toa, pois cresceu em Salvador, assim como a mãe. O pai, que vive na mesma cidade desde a faculdade, foi criado em Itororó – município no interior do estado, a oito horas da capital. Maíra herdou os traços da mãe – nariz largo, lábios cheios – e o tom de pele do pai. 

Sua família sempre prezou os estudos. Seus pais se conheceram quando eram alunos de química na Universidade do Estado da Bahia. Atualmente, ambos trabalham como professores do ensino fundamental. Maíra cursou direito, e formou-se em 2012 pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ainda na faculdade, decidiu seguir carreira como funcionária pública. Fez estágio no escritório da Advocacia-Geral da União em Salvador e, já graduada, assumiu o cargo de analista do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas, em Manaus. Seu objetivo era tornar-se procuradora. “Gosto muito de advogar – de pegar um processo e tentar achar uma solução”, diz. Segundo Maíra, no papel de procuradora, “é você quem impulsiona” um caso. “A sua atitude é o que determina o resultado”. 

No final de 2015, ela tomou conhecimento de um concurso para procurador do município de Salvador. Pessoas próximas a aconselharam a candidatar-se por meio das cotas raciais. “Meu Deus, claro que você tem que se inscrever”, disse o chefe de Maíra na época. “Todo mundo falava: ‘Se eu tivesse a chance de concorrer pelas cotas, eu me inscreveria. Você que tem, se inscreve!’” 

Desde 2011, o Poder Legislativo do estado da Bahia e o da capital, Salvador, entraram com uma série de medidas legais para combater a desigualdade racial. Dentre essas iniciativas encontra-se a criação, em 2014, da Rede de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, e mais recentemente, em 2016, do Comitê Técnico de Combate ao Racismo Institucional da Prefeitura Municipal do Salvador – órgão responsável pelo concurso para procurador que chamou atenção de Maíra. Os esforços políticos do Poder Público da Bahia refletem um movimento legislativo nacional incitado, em parte, pelo Estatuto de Igualdade Racial, sancionado em 2010 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de décadas lutando pelo reconhecimento de seus direitos, os militantes dos movimentos negros viram as preocupações da população negra do país – a maior, segundo algumas estatísticas, fora da África – sendo encaradas de frente pela primeira vez. 

Em 2012 – ano no qual Maíra concluiu o curso de direito – o Supremo Tribunal Federal votou unanimemente pela constitucionalidade das cotas raciais nas universidades federais brasileiras. Dois anos depois, a então presidente Dilma Rousseff sancionou uma outra lei, esta garantindo 20% das vagas do setor público, em nível federal, a candidatos autodeclarados pretos ou pardos. O Poder Legislativo da Bahia ousou ainda mais, reservando 30% das vagas de cargos públicos estaduais e municipais para candidatos negros (a identidade negra, de acordo com a definição do IBGE, se faz da soma das autodeclarações de cor e raça preta e parda). Assim como várias leis do Brasil, as referentes às cotas raciais na Bahia poderão ser revisadas após 10 anos. 

Em termos demográficos, é justo que a Bahia hoje seja o estado do país que possui os mais extensos programas de ações afirmativas para negros. Desde os anos 1940, Salvador é vista por seus habitantes e turistas estrangeiros como a “Roma negra” das Américas. Atualmente, mais de três quartos da população baiana se considera preta ou parda. De acordo com o último censo do IBGE, em 2010, Salvador é a capital estadual com maior índice de negros no país. 

Os líderes negros de maior projeção na Bahia comemoraram as novas medidas de igualdade – tais como o decreto que formalizou as cotas raciais para cargos públicos municipais em Salvador. “Graças a Deus, essa medida é para lá de correta”, afirmou Luislinda Valois, atual ministra dos Direitos Humanos no Brasil e a primeira juíza negra do país, quando a lei foi sancionada em 2014. “A Bahia, como berço da cultura negra, está dando um exemplo através de Salvador”. 

Apesar do apoio público, Maíra ficou apreensiva em optar pelas cotas quando se inscreveu no concurso público. Cautelosa devido ao estigma atrelado às cotas, temia que os futuros colegas de trabalho a menosprezassem, supondo que ela não tivesse conseguido uma pontuação tão boa quanto a deles. Maíra já se havia, anteriormente, deparado com esse tipo de estereótipo. Ao saber que ela havia estudado direito em universidade pública, um conhecido lhe perguntou: “Então você é cotista?” Maíra, na verdade, não entrou na faculdade pelo sistema de cotas.

“Mas eu aprendi com isso”, afirma. “E não adianta. Eu posso passar para o concurso com cotas ou sem cotas que as pessoas vão achar que eu sou cotista, como aconteceu comigo na universidade, porque as pessoas só julgam você pela cor da pele”. Então, decidiu seguir o conselho dos amigos. Em 2015, inscreveu-se para a vaga de procurador do município de Salvador. No formulário de inscrição, se autodeclarou parda. 

Maíra nunca imaginou que, em menos de um ano, seria desclassificada do concurso por sua escolha de identidade racial, acusada de fraude e desprezada pela comunidade de militantes negros de sua cidade.


Os resultados do último censo no Brasil foram divulgados em 2010. De agosto a outubro, os recenseadores visitaram 67,7 milhões de domicílios nos então 5.565 municípios, coletando informações sobre o estado civil, profissão, identidade racial, entre outros. Os resultados foram surpreendentes: pela primeira vez desde o século 19, a população brasileira não branca superou a branca. Nessa mudança repentina, a categoria racial que mais cresceu foi a dos pardos. Apesar do percentual de brancos e pretos não se ter quase alterado, a população parda aumentou de 38,5% para 43,1% entre 2000 e 2010 – uma mudança que não pode ser justificada apenas por nascimentos e óbitos. 

A mudança demográfica virou manchete na mídia. Segundo o IBGE e vários acadêmicos, essa reconfiguração sugere que milhões de brasileiros passaram a orgulhar-se de se reconhecer como pardos. “A intuição geral dos acadêmicos é um pouco no sentido de desestigmatização das identidades negra e parda”, diz Verônica Toste Daflon, socióloga e autora do livro Tão longe, tão perto: identidades, discriminação e estereótipos de pretos e pardos no Brasil

O aumento da população que se autodeclara parda coincide com o foco da mídia e da política sobre a experiência afro-brasileira. Há anos crescem os debates sobre orgulho negro, e a necessidade de implementar medidas para compensar injustiças históricas. Em junho de 2010, pouco antes do início da coleta de dados do censo, o Estatuto da Igualdade Racial foi aprovado no Brasil. Entre outros tópicos, o documento tornou obrigatório o estudo da história afro-brasileira no currículo escolar e exigiu que os órgãos públicos criassem incentivos para promover a diversidade. Apesar de não ter legalizado as cotas, o estatuto abriu caminho para que elas eventualmente fossem estabelecidas nas universidades e no serviço público. “Eu não sei se podemos separar as cotas de uma certa valorização recente das identidades negras”, diz Verônica. Na raiz da questão, explica, “a cota é uma reparação de justiça”. Elas geram orgulho dentro de lutas pontuais. 

O Brasil é reconhecido internacionalmente pela extensa mistura racial de sua população, fato considerado positivo por estudiosos como o biólogo evolucionário Stephen Stearns, professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Em 2012, Stearns deu uma entrevista ao portal Live Science, na qual afirmou que a população mundial será cada vez mais parecida com a do Brasil – quer dizer, os seres humanos se tornarão, aos poucos, geneticamente mais homogêneos. Na década de 1940, seguidores do sociólogo Gilberto Freyre, cuja obra “Casa Grande & Senzala” permanece um dos trabalhos mais influentes e controversos sobre a identidade do povo brasileiro, promoveram a teoria de que o país era uma “democracia racial” – onde as relações entre pessoas de diferentes etnias eram mais harmoniosas do que aquelas em países como os EUA. O otimismo por trás da teoria, porém, obscurecia a história brutal em que essa população multirracial foi gerada. 

O Brasil escravizou e trafegou 11 vezes mais africanos do que a América do Norte colonial. Também foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão, em 1888. Em comparação com os quase 5 milhões de escravos africanos que aportaram no Brasil, os colonos portugueses representaram uma fração minúscula da população colonial. A grande maioria eram homens, que se relacionaram com mulheres indígenas e negras quase sempre à força. Como afirma o sociólogo Edward Telles em seu livro Racismo à brasileira: uma nova perspectiva sociológica, “de fato, os brasileiros mestiços foram em grande parte gerados através da violência sexual durante o período da escravatura”. 

Mesmo antes da abolição, os brasileiros mestiços que resultaram dessas uniões desfrutavam de privilégios aos quais os negros de peles mais escuras não tinham acesso. Muitos se tornaram pequenos fazendeiros, por exemplo, e prosperaram. Uns poucos alcançaram fama estratosférica: André Rebouças, cuja avó tinha sido escrava, tornou-se um dos engenheiros mais importantes do Brasil Imperial. Na virada do século, o cenário social brasileiro possuía uma hierarquia complexa, com base na cor da pele, traços faciais, textura do cabelo, escolaridade, sotaque. 

Bem diferente dos Estados Unidos, o Brasil pós-abolicionista não criminalizou casamentos interraciais nem promulgou leis que separavam brancos e negros nas escolas e bairros residenciais. Portanto, as relações raciais no Brasil se desenvolveram com certa fluidez. Ao contrário da América do Norte, onde, por várias décadas, pessoas eram classificadas legalmente como negras se tivessem um único antepassado negro, os brasileiros passaram a definir negritude pela aparência física. De acordo com o sociólogo Oracy Nogueira – indubitavelmente um dos estudiosos de maior influência sobre as questões raciais no Brasil – o conceito americano de se “passar” por branco é irrelevante no Brasil, onde a mera aparência torna uma pessoa branca. 

A ideia da implantação do sistema de cotas nas universidades e órgãos públicos nasceu de uma tentativa de resistência a esse colorismo difundido – que favorece a pele clara em vez da pele escura. Militantes enfatizam a importância da representação negra em cargos de poder – principalmente por aqueles com tons de pele mais escuros ou traços negros marcantes. A frustração dos militantes é que pardos claros estão desfrutando de políticas de ações afirmativas, obtidas a duras penas, que segundo eles deveriam favorecer uma população com fenótipo negro mais pronunciado.

Maíra Mutti Araújo na casa de seus pais em Salvador, Bahia, em junho.
(Foto: EDGAR AZEVEDO para Foreign Policy)

“Eu já sabia que era meu cabelo”, diz Maíra, sobre a “novela racial”, como ela chama a dificuldade que enfrenta desde que se inscreveu no concurso para procurador público. Na fotografia que enviou com o questionário – uma exigência para todos os candidatos que se autodeclaram pretos ou pardos – seu cabelo escorria atrás dos ombros como uma cortina preta. Mas o cabelo alisado é bem diferente do seu natural. As fotos de adolescência exibem uma cabeleira densa e cacheada. “Eu aliso meu cabelo por opção pessoal”, diz. “Para mim é mais prático”. 

Maíra hoje tem 28 anos. Desde criança, sabia que tinha a pele mais escura que a de outros membros de sua família. “O tom da pele da minha irmã é um pouco mais claro do que o meu”, diz. “Eu tenho várias primas loiras. E sempre fui a pretinha da família. Eu sempre fui diferente. Minha mãe me criou muito bem justamente por essa questão”. 

Maíra, que está grávida de seu primeiro filho, vive com o noivo, também advogado, em um apartamento escassamente mobiliado em Santarém. Eles se mudaram para lá depois de ambos serem aprovados em concurso para procurador do Estado do Pará. (O Pará, ao contrário da Bahia, não oferece cotas raciais para cargos públicos em nível estadual; Maíra conseguiu a vaga por meio das vias normais de admissão). 

O cargo que ela almejava era, claro, o do órgão municipal de Salvador. Maíra se empenhou na primeira etapa do árduo concurso, que incluía três provas longas. Em março, a Procuradoria-Geral do Município do Salvador divulgou a lista de candidatos que haviam tirado pontuação alta o suficiente para se qualificarem para a segunda etapa – avaliação de títulos. 

Maíra estava ciente de que seria submetida a uma verificação racial. De acordo com o edital do concurso, os candidatos que se autodeclarassem afrodescendentes (pretos ou pardos), se não eliminados na primeira etapa, passariam por verificação de sua declaração, “que poderá ser realizada por meio de envio de foto ou de outros meios”. As instruções eram similares às exigências utilizadas por órgãos públicos em todo o país, todas vistas com legitimidade pelo Poder Judiciário brasileiro. Em agosto de 2016, visando ao combate à fraude racial, a Secretaria de Gestão de Pessoas e Relações do Trabalho no Serviço Público orientou aos órgãos públicos que implementassem bancadas de verificação das autodeclarações. Segundo a normativa, tal comissão “deverá ter seus membros distribuídos por gênero, cor e, preferencialmente, naturalidade”. Porém, orientações como essa não foram padronizadas e os critérios de verificação variam por estado e órgão público.

No caso do cargo de procurador municipal de Salvador, o procedimento incluía o envio de uma foto anexada a um questionário de uma página. “Naquela época, eu achava que tinha que ter uma verificação”, diz Maíra. Porém, a candidata se surpreendeu com as perguntas – “Você namora ou já namorou uma pessoa da cor preta ou parda?” e “A maioria dos seus ídolos é de cor preta ou parda?”. “Eu já achei um pouco ofensivo”, afirma. “Não eram relevantes para definir se você é preto ou pardo”.

Mesmo entre os militantes negros de maior projeção, que lideram o debate sobre a necessidade de comissões de verificação, as opiniões sobre os métodos utilizados são divergentes. Lívia Sant’Anna Vaz, promotora de justiça e coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Proteção dos Direitos Humanos e Combate à Discriminação (GEDHDIS), é contra o questionário que Maíra teve de preencher. “Ter ídolos de cor preta ou parda não identifica se uma pessoa é negra”, afirma. Segundo Lívia, a verificação deve ser baseada nas características fenotípicas do candidato: os traços do rosto, cabelo e tom da pele. “O que prevalece no Brasil é um tipo de racismo baseado nos traços físicos e não na ancestralidade”, acrescenta. 

Segundo Frei David Santos, diretor da ONG Educafro e um dos militantes dos direitos negros de maior visibilidade do país, as comissões de admissão devem adotar um processo de eliminação que privilegie candidatos de acordo com quão escuro é o tom de pele. “Os pretos devem ser aceitos imediatamente, depois os pardos-pretos”, diz. “Pardos-pardos? Só se tiver vaga sobrando. Pardo-brancos em hipótese nenhuma podem ter acesso a essas cotas”.

Os membros do Educafro protestam em silêncio em frente ao palácio presidencial brasileiro em Brasília em apoio às políticas de cotas raciais em 27 de junho de 2012. (Foto: PETER FRANCIA / News Free / LatinContent / Getty Images)

A comissão de verificação, que era anônima e composta por três participantes, avaliou o questionário de Maíra, examinou a foto da candidata e proferiu o veredito em maio: Maíra não atendia ao requisito de “fenótipo afrodescendente” para ser qualificada como parda. A banca não deu mais nenhuma informação. 

Nem foi exigida que assim o fizesse. A forma sigilosa na qual essas comissões operam tem sido motivo de contestação desde que o Supremo Tribunal Federal tornou as cotas raciais constitucionais em 2012. O ministro Gilmar Mendes, que proferiu voto favorável à decisão de 2012, advertiu, contudo, que os sistemas de verificação são “difíceis de justificar” e “longe de serem infalíveis”. 

“Veja que se conferiu, aí, a um grupo de iluminados esse poder que ninguém quer ter”, Mendes escreveu em seu parecer, “de dizer quem é branco, quem é negro, numa sociedade altamente miscigenada”. O ministro advertiu que tal procedimento poderia causar “distorções eventualmente involuntárias”, mas também “eventuais distorções de caráter voluntário”, e concluiu que “a ideia do tribunal racial evoca a memória de coisas estranhas”. 

Chocada com a decisão da banca, Maíra decidiu recorrer. “Talvez o ‘rigor racial’ utilizado pela banca tangencie os padrões dos tribunais raciais arianos da Alemanha nazista!” escreveu. Os integrantes anônimos da banca então revisaram a decisão e divulgaram um novo parecer: a candidata se enquadrava no sistema de cotas. “Após análise cuidadosa da foto apresentada”, escreveu um membro da banca, “emito opinião favorável a considerar a candidata como negra (preta ou parda)”. Maíra estava novamente concorrendo à vaga de procuradora do município de Salvador. Em 18 de maio de 2016, quase nove meses depois de se inscrever no concurso, o órgão publicou os resultados finais: entre os mais de mil candidatos cotistas, Maíra estava em terceiro lugar. A advogada classificou-se também na lista geral, em 49˚ lugar. 

Porém, não seria a última vez que sua identidade racial seria questionada. Em junho, um novo edital fora publicado, convocando os candidatos aprovados como afrodescendentes e os “candidatos reprovados que interpuseram recurso administrativo contra o primeiro procedimento”, para uma segunda rodada de verificação racial. Os candidatos, de diversas partes do país, tinham cinco dias para se apresentarem em Salvador. Maíra, que na época morava no Amazonas, disse que não teve escolha a não ser comprar “uma passagem caríssima de última hora, para poder estar lá”. Erick Magalhães Santos, um candidato preto, resolveu não arcar com o custo da passagem. “Já estava praticamente aprovado na Advocacia-Geral da União e não estava muito bem colocado no concurso em Salvador”, disse. “Teria de viajar para fazer a avaliação. Optei por não ir”. Candidatos que como Santos não compareceram foram automaticamente desclassificados. 

A sessão do grupo de verificação, realizada em uma quarta-feira durante o horário comercial, era aberta ao público. Algumas pessoas compareceram além dos candidatos que seriam inspecionados. “Todo mundo se olhava, superconstrangido”, disse Maíra. Os candidatos foram chamados, um por um, para se aproximar da banca, onde cinco peritos – “todas as pessoas da banca eram pretas, não tinha ninguém pardo” – estavam sentados em um tablado. Assim como os outros candidatos, Maíra se aproximou da banca, entregou seu RG e sentou-se em frente aos avaliadores. Maíra diz que se sentiu como “um bicho no zoológico” enquanto os integrantes da banca examinavam sua aparência e cochichavam entre si. Segundo Maíra, a sessão durou menos de três minutos. O único momento em que eles dirigiram a palavra a ela foi para confirmar seu sobrenome. 

Os resultados saíram no site do concurso: treze candidatos foram oficialmente identificados como pretos ou pardos, enquanto nove tiveram suas autodeclarações raciais rejeitadas. Maíra estava incluída no último grupo. Desta vez, o resultado mostrava que ela não tinha sido somente excluída da inscrição no sistema de cotas, mas também desclassificada do concurso. 

Dos nove candidatos que tiveram suas identidades raciais rejeitadas, oito recorreram da decisão. A prefeitura de Salvador não aceitou os apelos e encaminhou o caso ao Ministério Público da Bahia para determinar se abririam um processo de fraude contra os oitos candidatos, alegando que eles haviam deturpado suas identidades, infringindo, portanto, a lei. Seis dos oito candidatos – incluindo Maíra – entraram com mandados de segurança para que seus nomes fossem incluídos novamente no rol de candidatos cotistas. No dia 15 de agosto de 2016, quase um ano depois da prefeitura publicar o edital da vaga de procurador, o Tribunal de Justiça da Bahia outorgou o mandado de segurança à Maíra. 

Nas 40 páginas da ação que tentava impedir a entrada de Maíra na lista de cotistas, a Prefeitura de Salvador reconheceu que a candidata era, de fato, parda – mas argumentou que o tom de sua pele não era escuro o suficiente para que ela sofresse discriminação. “É inegável: em se tratando de uma política de ação afirmativa arrimada no postulado da isonomia material, o acesso às vagas reservadas segundo critérios raciais não pode ser feito indiscriminadamente em benefício de todo e qualquer indivíduo de coloração parda”, disse o texto, “devendo-se, sim, considerar a tonalidade de sua pele e os seus demais caracteres fenotípicos”. A ação também alegava que, além de não possuir o tom de pele adequado, Maíra não apresentava os “ingredientes estéticos e culturais outros” característicos dos negros brasileiros. Ademais, concluiu que seria inadequado que “indivíduos sem verdadeira identificação com a causa racial assumam, nos mais diversos setores da Administração, os postos funcionais que deveriam, sim, ser ocupados por pessoas genuinamente negras”. 

Vale ressaltar que o edital do concurso para a vaga de procurador, publicado em agosto de 2015, não fazia nenhuma distinção entre os diferentes tipos de pardo que poderiam estar mais sujeitos a sofrer discriminação. Orientava, inclusive, que os candidatos que optassem pelo sistema de cotas deveriam declarar sua raça como preto ou pardo. O IBGE define preto e pardo como as duas subcategorias da identidade negra. Sendo assim, os critérios descritos no edital do certame refletem as definições de cor e raça estabelecida pelo marco do Estatuto da Igualdade Racial de 2010, assim como as ações de legislação afirmativas raciais aprovadas no Brasil.

Segundo o IBGE e os militantes dos direitos dos negros, a definição de negro inclui tanto pretos quanto pardos, e eles veem esses dois como um só grupo em relação aos índices de desigualdade entre brancos e não brancos. “A política pública foi pensada tendo em vista esse grupo numeroso de pessoas”, diz Verônica, socióloga que escreveu extensamente sobre a identidade parda. “Na hora da efetivação da política, do acesso à política, quem é que vai usufruir?” 


Ativistas demonstram contra a fraude racial no sistema de cotas no Tribunal de Justiça em Salvador, Bahia,
 em 23 de março. (Fotos: MAURO AKIN NASSOR / Correio-Ba)

Nessa trajetória de um ano pela burocracia kafkiana de verificação racial em Salvador, a experiência de Maíra põe o dedo na ferida de um conflito não resolvido em relação à identidade brasileira, levantando questões complexas sobre negritude e discriminação em um país famoso por sua diversidade étnica. 

No dia 27 de abril de 2017, o mandado de segurança – para derrubar a verificação presencial da comissão que rejeitou a autodeclaração de Maíra Mutti Araújo como negra – foi a julgamento (assim como os mandados de segurança de outros candidatos pelo mesmo motivo). A sessão do tribunal atraiu dezenas de manifestantes, entre professores universitários e até mesmo um vereador. A ação judicial contra o município resultou em protestos de militantes dos direitos dos negros que se opunham a Maíra, acusando a candidata de fraude racial por se autodeclarar parda. A advogada de Maíra, Vivian Vasconcelos, sugeriu que ela não comparecesse ao julgamento, já que sua presença não era exigida pelo tribunal, para evitar o risco de um confronto. Maíra decidiu não comparecer.

“Quero me preservar, até porque estou grávida”, diz Maíra. Vivian sofreu críticas por defender a candidata. “Falaram para mim: ‘Você é negra, defendendo uma política de cotas, como pode defender uma pessoa que não é negra?’” diz a advogada. “Mas ela é parda. E tem direito às cotas para afrodescendentes”.

O veredito foi anunciado naquela mesma tarde: o Tribunal de Justiça manteve a decisão de retirar Maíra do rol de candidatos autodeclarados afrodescendentes, mas a candidata seria recolocada na classificação geral do concurso para procurador. Ela não seria acusada de fraude. Porém, Maíra não viu o resultado como uma vitória. Está, novamente, recorrendo da decisão. “Para mim, virou uma questão de dignidade”, explica. “Querendo ou não, eu continuo sendo a ’fraudadora do concurso’”. Enquanto a rejeição da sua autodeclaração como parda existir, ela estará oficialmente cometendo uma fraude.

Enquanto isso, a Procuradoria-Geral do Município também não considera o veredito como uma vitória. Em e-mail enviado à revista Foreign Policy, o órgão afirmou que irá recorrer da decisão para assegurar que Maíra seja retirada da classificação geral do concurso e da lista de cotistas, “como previsto no edital” (cujo texto estipula que os “candidatos que tiverem cometido fraude serão desclassificados do concurso”). O município escreveu também que “o mesmo procedimento será adotado para os demais casos de concorrentes que se autodeclaram afrodescendentes, mas que não se enquadraram na cota racial após verificação da comissão”. 

“A vida toda me enxergando desse jeito, e agora me dizem que não é o que sou”, diz Maíra. “É muito, muito difícil”. 


[Tradução: Christina Baum - ilustração: SOFÍA BONATI - fonte: www.foreignpolicy.com]

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