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| Cena do documentário "Eu Não Sou Seu Negro" |
Escrito por
CÁSSIO STARLING CARLOS
A disputa na categoria documentário na entrega do Oscar
deste ano é aquela em que soou mais alto o mea-culpa da Academia de Hollywood
em resposta às críticas pela ausência de diversidade étnica entre os indicados
no ano passado.
Três das cinco produções que concorrem em 2017 retratam
aspectos da segregação racial nos Estados Unidos. Se o tema não é novo, o modo
de abordá-lo tem de fazer a diferença. É o que "Eu Não Sou Seu Negro"
consegue com brilho.
O documentário dirigido pelo haitiano Raoul Peck constrói seu
impacto com múltiplos recursos fortes.
O mais evidente está no texto, que recupera esboços de
"Remember This House", projeto inacabado do escritor James Baldwin
(1924-87).
A intenção de Baldwin era evocar os significados do racismo
nos EUA a partir de perfis de Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr.,
lideranças da luta dos afro-americanos pela igualdade de direitos assassinadas,
em 1963, 1965 e 1968.
Os fragmentos do ensaio inacabado foram encorpados com outros
textos da abundante produção ficcional e ensaística do autor, além de cartas,
entrevistas e participações dele em programas de TV. Reunidos, esses elementos
demonstram a acuidade e a ferocidade da inteligência de Baldwin.
Os materiais revelam uma voz ao mesmo tempo lírica e
revoltada e uma vontade afirmativa que reconhece as conquistas da luta pelos
direitos civis e identifica outra segregação, insidiosa, na representação
cultural dos negros, em particular no cinema, do qual Baldwin foi um crítico
atento.
O terceiro recurso narrativo, que solda os demais,
encontra-se na interpretação de Samuel L. Jackson. O ator dá voz aos textos e
encontra as ênfases e entonações justas para que o humor, a dor e os afetos
sejam percebidos por qualquer um da plateia, independentemente da cor da pele.
Esse conjunto torna-se ainda mais admirável ao revelar os
mecanismos e os efeitos da discriminação, não importa se étnica, econômica ou
sexual. Em paralelo à luta pela dessegregação, cuja etapa decisiva ocorre dos
anos 1950 aos 1970, o documentário aponta distorções subjacentes ao
progressismo e identifica como a visibilidade pode ser um filtro confortável e
distorcido.
Assim, "Eu Não Sou Seu Negro" ajuda-nos a perceber
que, além do direito de ser igual, não se deve esquecer do de ser diferente.
EU
NÃO SOU SEU NEGRO (I'M NOT YOUR NEGRO) 
QUANDO: ESTREIA NESTA QUINTA (16)
PRODUÇÃO: FRANÇA/EUA/BÉLGICA/ SUÍÇA,
2016, 12 ANOS
DIREÇÃO: RAOUL PECK
[Fonte: www.folha.com.br]

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