terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O atentado contra o Acordo Ortográfico na Academia das Ciências de Lisboa*

Por Telmo VerdelhoRolf KemmlerJoão Malaca Casteleiro 

«(...) Uma reforma do regime ortográfico em vigor não pode ser levada a cabo pela ACL, unilateralmente, mas deverá forçosamente ser elaborada em parceria com a  Academia Brasileira de Letras, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa 

Sem consulta prévia dos académicos que diz representar, o senhor presidente da Academia das Ciências, professor Artur Anselmo, tem, nos últimos meses, feito declarações ou dado entrevistas a órgãos de comunicação social, nas quais tem posto em causa o Acordo Ortográfico, primeiro afirmando que queria reverter a sua aplicação e, ultimamente, que só pretende o seu “aperfeiçoamento” (vide, nomeadamente, os jornais i, de 5/5/2016, e Público, de 12/12/2016). Tais declarações têm sido atentatórias da memória da Academia, pois fazem esquecer que esta instituição é coautora do mesmo Acordo e promoveu a sua aprovação em 1990, em consonância com todos os países lusófonos. Todo este processo publicitário tem sido largamente desprestigiante para a Academia, desacreditando-a. De enorme gravidade têm sido, a este propósito, outras declarações proferidas, como a de que cada país (lusófono) tem direito à sua própria ortografia («Para nós, o normal é o respeito pelas ortografias nacionais», in Público, de 12/12/2016). Uma tal situação conduziria, sem dúvida, à fragmentação da própria Língua Portuguesa. Então, andaram os nossos grandes mestres da Filologia e da Linguística, portugueses e brasileiros, a labutar pela defesa da unidade essencial da língua e agora atraiçoamos esse património?
Foi, pois, deveras surpreendente a última iniciativa do senhor presidente da Academia, ao convocar um plenário de académicos efetivos, no passado dia 26 de janeiro, para, após uma pesada sessão da Classe de Letras, com a duração de três horas, levar a cabo, a partir das 17h30, aquele plenário, com sete pontos na ordem de trabalhos, transferindo, de forma arbitrária, para o final da reunião, o 3.º ponto: «Votação da proposta com "Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa"». A discussão deste ponto, ao fim de quase duas horas de reunião plenária, foi atabalhoada e feita à pressa. Dos 68 académicos efetivos, estavam presentes apenas 23, que votaram, favoravelmente, por maioria, a proposta.
Tendo consciência de que o documento apresentado para fins de votação nunca tinha sido objeto de discussão nas sessões da Classe de Letras e atendendo aos graves problemas inerentes a este projeto de retrocesso ortográfico, os dois linguistas, académicos efetivos presentes, votaram contra e entregaram uma declaração de voto, também subscrita por outro linguista, sócio correspondente, da qual se destaca o essencial das conclusões: «Organizados de forma caótica, os subsídios não evidenciam o rigor científico indispensável a um empreendimento académico desta natureza. (...) A pretensão de apressar a introdução de mais uma reforma nesta altura é vã e inoportuna, não tendo sido oferecida qualquer razão convincente para justificar a mudança de regime ortográfico nesta conjuntura, quer dentro quer fora da Academia das Ciências de Lisboa. Uma reforma do regime ortográfico em vigor não pode ser levada a cabo pela ACL, unilateralmente, mas deverá forçosamente ser elaborada em parceria com a Academia Brasileira de Letras, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Qualquer reforma ortográfica deve, enfim, incluir pelo menos todos os académicos especialistas na matéria.»


[Fonte: ciberduvidas.iscte-iul.pt]

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