Na semana passada,
trocamos dois dedos de prosa sobre "o incurável absolutismo do nosso
raciocínio". Quero seguir mais um pouco no assunto. Há outros exemplos
(bons, creio) para ilustrar a questão.
Começo por um caso
futebolístico, que vem a calhar já que pode ser ilustrado pelo regulamento do
torneio feminino de futebol dos Jogos Olímpicos. Disputam-no 12 países,
divididos em três grupos de quatro equipes, que na primeira fase se enfrentam
dentro do grupo, isto é, os integrantes do grupo X enfrentam os outros
integrantes desse grupo.
Passam para a
segunda fase os dois primeiros colocados de cada grupo e também os dois
"melhores" terceiros colocados dos três grupos. Como assim? Quer
dizer que, se o terceiro colocado do grupo X faz cinco pontos e o terceiro do
grupo Y faz quatro pontos, o terceiro do grupo X é melhor do que o terceiro do
grupo Y? Não, um milhão de vezes não.
A campanha de um
time de um grupo não é nem melhor nem pior do que a de um time de outro grupo,
por uma razão muito, muito simples: esses times enfrentam adversários
diferentes, portanto (nesse caso) considerar cinco "melhor" do que
quatro é ser absolutista, é transformar em absoluto o que é relativo.
Para ir direto ao
ponto (e mandar às favas o politicamente correto): o regulamento é burro, caro
leitor. E é bom que se diga que, nos regulamentos de torneios de futebol, essa
burrice é mais do que frequente.
Vamos a mais um
caso. Há algum tempo, na TV, foi exibida uma matéria sobre a presença de
turistas de um país sul-americano no litoral de Santa Catarina. Lá pelas
tantas, o jornalista disse que, embora fossem necessárias 11 unidades da moeda
desse país para comprar um real, os visitantes não reclamavam dos preços
cobrados no nosso país.
E tome
absolutismo! Quer dizer que no Japão sou rei com os meus reais, certo? Lá,
troco um realzinho por 31,25 ienes, pela cotação de ontem. É isso mesmo, caro
leitor! Entrego um superpoderoso real e recebo 31,25 ienes. Sou rico no Japão!
Rico não; multimilionário!!!
Se eu tiver de
escolher entre o Japão e o Reino Unido para uma viagem turística, é óbvio que
vou ficar com o Japão. No Reino Unido viro um pé-rapado. Lá, entrego um
realzinho e recebo míseros 23 centavos (ou "pênis", plural de
"pêni" nesse caso...) de libra esterlina, ou, se preferir, entrego R$
4,32 e recebo uma libra.
Não é nada disso.
Espero que o caro leitor tenha captado a ironia presente no que acabei de
afirmar. O valor nominal (absoluto) de uma moeda estrangeira não significa
rigorosamente nada. O que importa é saber o que se faz em cada país com uma
unidade da moeda local.
O que importa é
saber o valor relativo e não o absoluto: faço no Japão com o equivalente em
ienes a X reais mais do que faço no Reino Unido com o equivalente em libras a
essa mesma quantia? Ou faço menos?
Por fim, lembro a
conversa sobre o preço do álcool e o da gasolina, que volta e meia vem à tona
nos meios de comunicação. Você decerto já ouviu falar daquela famosa continha
dos 70%, não? Puro absolutismo. O rendimento dos carros não é uniforme, assim
como não é uniforme o rendimento de um mesmo carro com cada um dos
combustíveis. São muitas as variáveis (tipo de trajeto, duração, extensão
etc.). A coisa não é absoluta, caro leitor; é relativa, bem relativa. É isso.
[Foto:
Apu Gomes/Folhapress - fonte: www.folha.com.br]

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