A obra foi encomendada ao artista Arnaldo Pomodoro, que fez uma escultura que celebrou os 100 anos da marca Ferrari
Por Arnaldo Grizzo
No começo do novo milênio, a família Lunelli, detentora da Cantina
Ferrari, no Trento – entre outras propriedades espalhadas pela Itália –,
encomendou ao artista Arnaldo Pomodoro uma escultura que celebrasse os
100 anos de nascimento da marca Ferrari. O prestigiado escultor levou
dois anos, mas apresentou uma obra de sete metros, uma espiral dinâmica
que evoca a efervescência dos espumantes feitos pela família. O trabalho
monumental, fundido em bronze e batizado de Centenarium, hoje está
diante da cantina no Trento.
No entanto, o principal trabalho de Pomodoro para os Lunelli ainda
estava por vir. Amigo de longa data da família, ele (que nasceu em 1926)
é um dos mais renomados artistas italianos e suas esculturas estão
espalhadas pelo mundo todo, especialmente suas gigantescas esferas de
bronze, com as quais ficou mundialmente famoso. Portanto, bastou um novo
convite da família, que acabara de adquirir uma propriedade numa das
mais centrais regiões da Itália, a Úmbria, para que o escultor se
entusiasmasse e criasse algo singular – o “Carapace”, ou seja, a
“Carapaça”, segundo ele, a primeira escultura do mundo em que se vive e
se trabalha.
Quattrocento
Os desenhos do artista Arnaldo Pomodoro,
inspirados nas formas da tartaruga – “símbolo de estabilidade e
longevidade, que, com sua carapaça, representa a união entre a terra e o
céu” – para projetar a vinícola Carapace
Em 2001, a família Lunelli adquiriu a Tenuta Castelbuono, numa região
central da Úmbria, onde passou a produzir seu Sagrantino di Montefalco,
típico daquela parte da Itália – um vinho potente e longevo, que pode
ser tanto seco quanto doce. Nos primeiros anos, dedicaram-se somente aos
vinhedos dos 30 hectares encravados entre as comunas de Bevagna e
Montefalco, que foram convertidos para a agricultura biológica. Contudo,
era preciso montar uma vinícola para abrigar a produção.
Já com belos projetos tanto no Trento, com a Tenuta Margon, e na
Toscana, com a Tenuta Podernovo, os Lunelli resolveram ir ainda mais
longe e convidaram Pomodoro a montar o projeto de sua nova vinícola, que
não seria apenas um local de trabalho, mas uma obra de arte – um
escrínio para o vinho, como descreveram. O escultor aceitou
imediatamente o desafio.
Em poucos dias, o artista rabiscou as linhas que formariam o que ele
batizou de “Carapaça”. Ele decidiu criar uma obra que colocaria em
questão os fronteiras entre escultura e arquitetura, que, ao mesmo tempo
que dialogasse com o mundo exterior, ou seja, com a paisagem ao seu
redor, também falasse com o interior, com o vinho, cuja produção tem de
ser estritamente funcional.
Segundo Pomodoro, a “Carapaça” nasceu do estudo do lugar. “A paisagem
me lembrou a da Montefeltro (na Emília-Romagna), onde nasci, assim como
também vi em muitas pinturas de Piero della Francesca”, disse o
escultor, recordando os quadros do artista do período do Quattrocento do
Renascimento italiano, que muitas vezes usou a paisagem da Úmbria como
pano de fundo.
Tartaruga
“A minha intervenção, portanto, não deveria perturbar a doçura das
colinas por onde os vinhedos se estendem, mas precisava se integrar
perfeitamente com o ambiente”, apontou Pomodoro. “Então, tive a ideia de
uma forma que lembra a tartaruga, símbolo de estabilidade e
longevidade, que, com sua carapaça, representa a união entre a terra e o
céu”, concluiu.
No interior, linhas simples e curvilíneas mantêm a originalidade do projeto
Pinturas do artista Piero della Francesca, do Quattrocento, também influenciaram o desenho da vinícola
A cantina precisou de seis anos de intensos trabalhos – guiados pela
sensibilidade do escultor em conjunto com os aspectos técnicos do
arquiteto Giorgio Pedrotti – para ficar pronta e só foi aberta ao
público em junho de 2012. Ao final, ela se apresenta como uma grande
cúpula coberta de cobre, gravada por rachaduras que lembram os sulcos da
terra que a abraça. Ao lado, um elemento escultórico em forma de dardo
vermelho que fura o chão enfatiza o trabalho na paisagem. Dentro, as
linhas simples e curvilíneas continuam, com escada em caracol e barricas
dispostas em círculo.
Para o artista, a “Carapaça” não é uma vinícola, mas uma escultura em
que se pode viver e trabalhar, um lugar onde a arte e a natureza
dialogam enfatizando tanto a excelência do “contentor” (o edifício)
quanto do conteúdo (o vinho). Ao entrar em sua obra, Pomodoro afirmou:
“Pela primeira vez na minha vida, tive a emoção de ser capaz de andar,
falar e beber dentro do meu trabalho”.
“Pela primeira vez na minha vida, tive a emoção de ser capaz de andar, falar e beber dentro do meu trabalho”, afirmou Pomodoro
No centro, há uma escada em caracol e as barricas estão dispostas em círculo
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