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"La Trahison des Images", obra do
pintor surrealista belga René Magritte (1898-1967)
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Pensar dói, caro leitor. E dói
muito. Deixar para lá a relativização na hora de pensar e/ou de interpretar
parece uma tentação; é muito mais fácil partir para o raciocínio absolutista. E
isso ocorre tanto nas coisas do dia a dia quanto na hora de ler um texto, de
produzir um texto a partir da compreensão de outro etc.
Há muitos anos, a
Fuvest pediu aos candidatos que escrevessem uma redação cujo tema dizia
respeito a essa questão da relativização. Perguntava-se aos candidatos algo
como "É possível afirmar que tudo é relativo?". A pergunta era feita
depois da apresentação aos alunos de um quadro do pintor belga René Magritte,
no qual se viam a representação gráfica de um cachimbo e uma frase equivalente
a "Isto continua a não ser um cachimbo".
Também se viam dois
fragmentos literários; um de Fernando Pessoa ("O Tejo é mais belo que o
rio que corre pela minha aldeia..."); outro de Machado de Assis
("...mas juro-te que muito menor que a primeira"). Pessoa dizia que o
Tejo é mais belo que o rio da sua aldeia, mas não é mais belo que esse rio, e
não é mais belo porque não corre nessa aldeia; Machado dizia que no lugar da
casa que foi derrubada foi construída outra, três vezes maior, porém menor. A
Fuvest pediu aos candidatos que levassem em conta os textos e o quadro para
responderem à questão sobre a relativização.
Se nessa época (já
se vão mais de 20 anos) para muita gente já era difícil relativizar, o que se
dirá disso hoje, com o vendaval de mediocridades que entopem as redes
antissociais e com a interpretação absolutista que muita gente dá a tudo que
"lê" e "vê" (mas não enxerga...).
O resultado disso é
catastrófico. A interpretação não leva em conta o texto e o contexto, e as
decisões que se tomam... Cruz-credo!
Depois que completei
60 anos (há mais de um ano), passei a entrar na fila das prioridades legais na
hora de embarcar num avião. Pois já perdi a conta de quantas vezes fui
"expulso" da fila por funcionários absolutistas, que julgam pela
aparência (dizem eles que não aparento a idade que tenho). Não me perguntam que
idade tenho; simplesmente me mandam sair da fila, "que é exclusiva das
prioridades legais".
Dia desses, depois
de me dizer que eu deveria sair da fila (e de repetir a ladainha das
prioridades legais), uma funcionária perguntou: "Qual é o número do seu
assento?". E eu, que adoro colocar em crise essas pessoas, fingi-me de
morto e respondi: "17". E ela, indicando com a mão: "Então a sua
fila é aquela".
Em todas essas
situações, deixei o/a funcionário/a terminar e perguntei, como quem não queria
nada: "O/A senhor/a perguntou a minha idade? Perguntou se tenho cartão de
cliente fiel, o que me daria direito de ocupar a segunda fila de prioridades
(as comerciais)?". Cara de espanto e começo de balbucio. E eu: "O/A
senhor/senhora sabe o que direta ou indiretamente acabou de me dizer? Não seria
melhor agir de outra maneira, em vez de afirmar, direta ou indiretamente, que
estou no lugar errado, que não sei ler as placas informativas ou, pior, que sou
um pilantra e tento obter alguma vantagem?".
A resposta é sempre
defensiva: "Eu não quis dizer nada disso". Mas foi o que disse, sim.
Assim muita gente age a vida inteira. Isso ocorre também na atividade
intelectual, na hora de ler uma mensagem, um texto etc. Triste, muito triste. É
isso.
[Fonte: www.folha.com.br]

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