quinta-feira, 28 de julho de 2016

Colhendo ‘As Flores do Mal’ com Charles Baudelaire

Trocando em Miúdos: "As Flores do Mal", obra marcante de Charles Baudelaire, oferece um solo fértil para considerações maior do que seu imaginário aparenta.


Por Walter Bach 

Se Charles Baudelaire (1821-1867) fosse vivo seria taxado de alternativo, ou seria confundido com alguém que se veste a caráter para uma festa à fantasia e resolve interpretar o personagem fora dela. De qualquer modo, pareceria excêntrico à nossa época, pseudoacostumada com tribos tão diversas quanto plantas, e Baudelaire veria nisso um solo fértil para jogar as sementes de suas Flores do Mal.

Talvez não levasse tão a sério nosso mundo petrificado e carente de natureza, mas qualquer paisagem meio escura serviria para o poeta se encostar, matar o tédio da existência com bebida barata e plantar seus versos em folhas de guardanapo roubadas do bar mais próximo.

Baudelaire seria taxado de amoral para baixo por religiosos conservadores. Litanias, versos a Satã, blasfêmias, fácil imaginá-lo condenado ao inferno graças a parte de sua poesia, que beira entre provocações espirituosas e mera autoafirmação camuflada com imaginário metido a profano. Confrontado, responderia com linhas mais sutis, mas não menos venenosas.

Seria idolatrado por tribos e simpatizantes da única certeza da vida. Os versos mórbidos e grotescos adotados como mantras, estampados em camisetas pretas e grafados com letras góticas, e Baudelaire seria convocado para declamar poesia em porões mal iluminados de propósito, convidado para sessões de qualquer evento ligado ao que hoje entendemos por macabro. Quem sabe até seria chamado para ensinar sobre isso.

O lado sinistro de sua produção talvez seja sua planta mais colhida, mas seu jardim era mais vasto. Por baixo da pose de quem nunca sorriu e de todo o ideário em torno dele, havia um escritor cuidadoso com as formas de seus versos; quase um ficcionista disfarçado de poeta – é fácil imaginar micronarrativas a partir de alguns poemas seus, principalmente quando elencava divindades mitológicas de personagens. 

Seus versos podem ser interpretados como dramáticos e até abstratos, oferecendo a própria visão de “beleza” com sua voz autoral, sem preocupações com as possíveis colheitas. 

Isso não chega a ser um problema, pois também foi um autor que fazia questão de incitar questionamentos sobre o que se lia, inclusive a si mesmo – embora suas flores menos “malvadas” peçam paciência para serem encontradas.

“Epígrafe para um livro Condenado”
Leitor pacífico e bucólico,
Homem de bem, austero e lhano,
Joga fora este saturniano
Livro, orgíaco e melancólico.
Se não herdaste o dom hipnótico
De Satã, o astuto decano,
Irias ler-me por engano,
Ou me terias por neurótico.
Mas se, sem teus olhos piscar,
Do abismo os horrores conheces,
Lê-me afinal que me hás de amar;
Alma curiosa que padeces
E buscas no éden teu abrigo,
Tem dó de mim… Ou te maldigo!


[Fonte: www.aescotilha.com.br] 

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