Trocando em Miúdos: "As Flores do Mal",
obra marcante de Charles Baudelaire, oferece um solo fértil para
considerações maior do que seu imaginário aparenta.
Por Walter Bach
Se Charles Baudelaire (1821-1867) fosse vivo seria taxado de
alternativo, ou seria confundido com alguém que se veste a caráter para
uma festa à fantasia e resolve interpretar o personagem fora dela. De
qualquer modo, pareceria excêntrico à nossa época, pseudoacostumada com
tribos tão diversas quanto plantas, e Baudelaire veria nisso um solo
fértil para jogar as sementes de suas Flores do Mal.
Talvez não levasse tão a sério nosso mundo petrificado e carente de
natureza, mas qualquer paisagem meio escura serviria para o poeta se
encostar, matar o tédio da existência com bebida barata e plantar seus
versos em folhas de guardanapo roubadas do bar mais próximo.
Baudelaire seria taxado de amoral para baixo por religiosos
conservadores. Litanias, versos a Satã, blasfêmias, fácil imaginá-lo
condenado ao inferno graças a parte de sua poesia, que beira entre
provocações espirituosas e mera autoafirmação camuflada com imaginário
metido a profano. Confrontado, responderia com linhas mais sutis, mas
não menos venenosas.
Seria idolatrado por tribos e simpatizantes da única certeza da vida.
Os versos mórbidos e grotescos adotados como mantras, estampados em
camisetas pretas e grafados com letras góticas, e Baudelaire seria
convocado para declamar poesia em porões mal iluminados de propósito,
convidado para sessões de qualquer evento ligado ao que hoje entendemos
por macabro. Quem sabe até seria chamado para ensinar sobre isso.
O lado sinistro de sua produção talvez seja sua planta mais colhida,
mas seu jardim era mais vasto. Por baixo da pose de quem nunca sorriu e
de todo o ideário em torno dele, havia um escritor cuidadoso com as
formas de seus versos; quase um ficcionista disfarçado de poeta – é
fácil imaginar micronarrativas a partir de alguns poemas seus,
principalmente quando elencava divindades mitológicas de personagens.
Seus versos podem ser interpretados como dramáticos e até abstratos,
oferecendo a própria visão de “beleza” com sua voz autoral, sem
preocupações com as possíveis colheitas.
Isso não chega a ser um
problema, pois também foi um autor que fazia questão de incitar
questionamentos sobre o que se lia, inclusive a si mesmo – embora suas
flores menos “malvadas” peçam paciência para serem encontradas.
“Epígrafe para um livro Condenado”
Leitor pacífico e bucólico,
Homem de bem, austero e lhano,
Joga fora este saturniano
Livro, orgíaco e melancólico.
Homem de bem, austero e lhano,
Joga fora este saturniano
Livro, orgíaco e melancólico.
Se não herdaste o dom hipnótico
De Satã, o astuto decano,
Irias ler-me por engano,
Ou me terias por neurótico.
De Satã, o astuto decano,
Irias ler-me por engano,
Ou me terias por neurótico.
Mas se, sem teus olhos piscar,
Do abismo os horrores conheces,
Lê-me afinal que me hás de amar;
Do abismo os horrores conheces,
Lê-me afinal que me hás de amar;
Alma curiosa que padeces
E buscas no éden teu abrigo,
Tem dó de mim… Ou te maldigo!
E buscas no éden teu abrigo,
Tem dó de mim… Ou te maldigo!
[Fonte: www.aescotilha.com.br]

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