segunda-feira, 27 de junho de 2016

Uma derrota da inteligência

Os imigrantes levam benesses à Europa, e pensar que se pode detê-los é idiotice 

Por José Eduardo Agualusa 

O medo do outro — dos imigrantes — tem sido amplamente utilizado pela direita britânica para mobilizar o país contra a União Europeia. Acontece que o outro já se tornou — faz tempo — parte do conjunto, e até parte da norma.
Nos últimos dias circula nas redes sociais um recorte de um jornal em língua inglesa, dando conta de um episódio ilustrativo daquilo que é hoje o Reino Unido (e a Europa, de uma forma geral) — numa estação de trem um passageiro indigna-se diante de uma mulher, coberta com um niqab, a qual conversa com o filho num idioma estranho. “Estamos na Inglaterra”, diz, “vocês deviam falar inglês!”. Um outro sujeito interrompe-o: “Na verdade estamos no País de Gales, e eles estão falando galês (cymraeg)!”.
O escritor moçambicano Mia Couto costuma contar uma estória que tem semelhanças com a anterior. Uma ocasião, em Estocolmo, entrou num estabelecimento comercial onde, para sua grande surpresa, encontrou um velho amigo. O amigo, um moçambicano negro, vive há décadas na Suécia, possui passaporte sueco e fala fluentemente a língua do país. Os dois homens abraçaram-se, relembrando casos antigos, falando alto, rindo ainda mais alto, numa descontração que, entre nós, expressa apenas alegria, mas que, na Suécia, pode facilmente ser confundida com tumulto. Veio o gerente do estabelecimento, já um tanto nervoso. Voltou-se para Mia Couto e começou a explicar-lhe, em sueco, que aquele não era um comportamento adequado. O moçambicano negro sorriu: “O senhor vai ter de falar comigo. Eu é que sou o sueco. O meu amigo é africano e não entende uma palavra da nossa bela língua”.
Os novos europeus mudaram definitivamente o rosto da Europa. A tese de que é possível deter esse processo, e mesmo invertê-lo, não me parece apenas idiota; acho-a de uma ingenuidade quase infantil. Ingênua, porque nenhum muro, por mais alto, consegue deter multidões desesperadas. Enquanto houver territórios em guerra, ou devastados por uma pobreza crônica, e territórios relativamente prósperos e em paz, haverá movimentos de pessoas de uns para outros. Idiota, na medida em que assume como ruinoso um fenômeno que, muito pelo contrário, tem vindo a revitalizar um continente envelhecido em termos demográficos e culturais. Há países europeus, como é o caso de Portugal, cuja população diminui de ano para ano. Os imigrantes ajudam a equilibrar a demografia e as finanças, e ainda contribuem para renovar todo o cenário cultural. A música popular portuguesa, francesa ou inglesa tem hoje como protagonistas inúmeros rostos de origem africana. No caso francês, isso nem é novo. Boa parte do extraordinário movimento da chanson française, nos anos 1940, 50, 60 e 70, foi encabeçada por artistas como Charles Aznavour (de origem armênia), Serge Reggiani (de origem italiana) ou Georges Moustaki (de origem grega), já para não falar na cantora negra, natural de Saint Louis, nos Estados Unidos, Josephine Baker. E o que seria da moderna literatura inglesa sem os imigrantes? Os ingleses não se poderiam orgulhar de figuras como V. S. Naipaul, Zadie Smith ou Salman Rushdie, entre muitas outras.
Receia-se que a atitude dos britânicos possa impulsionar movimentos nacionalistas um pouco por toda a Europa, levando a referendos semelhantes e a um eventual desmembramento da União Europeia. Não creio que tal tragédia venha a ocorrer. O que aconteceu no Reino Unido, contudo, não pode deixar de ser visto como um recuo enorme no ideal de construção de um mundo mais unido, livre de fronteiras e aberto à humanidade inteira.
Escrevo esta coluna na sexta-feira, 24 de junho. A primeira notícia que li, manhã cedo, dizia respeito ao resultado do referendo através do qual uma maioria de britânicos escolheu romper com a União Europeia. A seguir comecei a receber mensagens de amigos ingleses desiludidos e assustados. Um deles defendia a independência de Londres, mantendo-se a cidade ligada à União Europeia. Julguei que estivesse a brincar. Depressa percebi que não. Há mais gente defendendo o mesmo. A capital inglesa — famosa pela diversidade étnica e cultural, e cujo prefeito, Sadiq Khan, é um muçulmano de origem paquistanesa — votou de forma expressiva pela permanência do Reino Unido na União Europeia: 2.263.519 votos sim; 1.513.232 não. “Vamos soltar Londres do resto da ilha e navegar com a cidade até o continente”, acrescentou o meu amigo, numa afirmação que me fez recordar José Saramago e a sua “Jangada de pedra”.

[Fonte: www.oglobo.globo.com]

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