Muito já se falou sobre o "exercício" de Temer
que "vazou" no início da semana e sobre a impressionante capacidade
que essa gente tem para inventar razões para certos atos.
Parece-me, no entanto, que um
ponto do "treinamento" de Temer passou despercebido. Transcrevo a
passagem em questão: "... eu sei que dizem de vez em quando que, se outrem
assumir, nós vamos acabar com o Bolsa Família, vamos acabar com o Pronatec,
vamos acabar com o Fies. Isto é falso. É mentiroso".
Por favor, releia o trecho que
transcrevi, com atenção especial para a palavra "outrem". Imagino que
boa parte dos leitores saiba o que significa "outrem", mas não custa
transcrever o que registra o "Houaiss": "Pessoa que não
participa do processo de comunicação e cuja menção é imprecisa ou indefinida
(seja porque o falante não sabe, seja porque não lhe interessa dar a indicação
precisa); outra pessoa".
A julgar pelo uso que Temer
fez de "outrem", o brilhante pessoal do Instituto Houaiss será
obrigado e dar outra redação à definição desse pronome, a começar pelo tipo de
pronome. O "Houaiss" diz que outrem é pronome indefinido, mas Temer,
inexorável, acaba com isso.
Bem, para quem ainda não
entendeu o que expliquei no parágrafo anterior, lá vai: Temer disse que sabe
que de vez em quando dizem que, "se outrem assumir, nós vamos acabar com o
Bolsa Família...".
Quem leu com atenção o trecho
destacado notou que o "outrem" de Temer se tornou "nós"
imediatissimamente. Temer nem se vale do recurso da ocultação do sujeito de
"vamos", o pronome reto "nós", que poderia ter fica
implícito na desinência dessa flexão verbal.
Em outras palavras, o
"outrem" de Temer não é o que está no "Houaiss" ou nos
outros dicionários; é mesmo o definidíssimo "nós", ou, como diria a
galera, "é nóis" (ou, melhor ainda, "É nóis, mano!"). Como
diria o impagabilíssimo Osmar Lins, do PAN (Partido dos Aposentados da Nação),
"Peroba neles!".
Mas voltemos ao
"aquecimento" de Temer e suponhamos que ele não tivesse empregado
"outrem". Teríamos algo semelhante a isto: "... eu sei que dizem
de vez em quando que, se assumirmos, nós vamos acabar com o Bolsa
Família...". Se assim tivesse sido, alguém poderia dizer que Temer teria
se valido do plural majestático, que se caracteriza quando uma autoridade
emprega "nós" no lugar de "eu", por exemplo.
Modéstia? Sim, de fato Temer
fala em modéstia em outra passagem do seu "treinamento":
"...muitos me procuraram para que eu desse pelo menos uma palavra
preliminar à nação brasileira, o que eu faço, com muita modéstia, com muita
cautela, com muita moderação...".
A modéstia de Temer é patente
e inquestionável, sobretudo quando se leva em conta o que o ainda
vice-presidente disse sobre as declarações do ministro Ricardo Berzoini a
respeito da fala de Temer. Lá vai: "Certas afirmações não merecem, digamos
assim, a honra da minha resposta". Haja modéstia!
A sucessão de patacoadas que
os nossos brilhantes homens públicos (da situação e da oposição) têm proferido
é de chorar, é, literalmente, desesperadora. Lamento dizer, mas esse é o mais
fiel retrato da verdadeira nação que somos, "primitiva", como bem
disse o grande Clóvis Rossi em recente artigo. O que o discurso dessa gente
deixa escapar é só uma nesga da barbárie. É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]
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