Por Marcelo Coelho
Como várias pessoas da minha idade (57 anos), lamento o
fim das videolocadoras. Ainda não me acostumei a sistemas do gênero Netflix e,
para mim, já foi uma grande concessão —prazerosa, admito— preferir o DVD em
casa às salas de cinema.
Mesmo assim, a melhor locadora que conheci ainda manda
e-mails, com ofertas de venda. Trata-se da 2001 Vídeo (que tenha longa vida),
volta e meia fazendo liquidações de filmes seminovos por bagatelas que chegam à
tristeza de R$ 9,90.
Eis a maravilhosa sinopse de um desses
"clássicos" do cinema barateados até o desespero. Estamos falando de
"O Homem de Cinzento" ("The Man in Grey", de 1943).
Duas mulheres têm suas vidas entrelaçadas de maneira
estranha.
Clarissa (Phyllis Calvert) se casa com o marquês de Rohan
(James Mason), um homem que a trata com cruel indiferença. No entanto, sua
amiga Hesther (Margaret Lockwood) a apresenta a outro canalha, o atrevido e
imoral Rokeby (Stewart Granger). Logo, as duas trocam de parceiros, e as coisas
vão se desenvolvendo da pior forma possível.
Que maravilha esse final de texto: "as coisas vão se
desenvolvendo da pior forma possível"!
Não sei se vou ver o filme: detesto melodramas, mas o
estilo do texto, aliando o máximo de franqueza ao óbvio dever de manter-se
vago, já mereceria um Oscar do gênero.
As coisas se desenvolvem da pior forma possível! Eis um
bom prognóstico a respeito do drama do impeachment, em que uma mulher (a
República) casou-se com um partido que a trata com indiferença (o PT, e estou
sendo complacente nisso), até que uma amiga (a Operação Lava Jato) a apresenta
a outro canalha (o PMDB).
A conclusão é lógica. As duas trocam de parceiros, e as
coisas se desenvolvem da pior forma possível.
Há uma matemática perversa no impeachment. Dilma Rousseff
pode se safar da condenação dando cargos a siglas menores, que lhe assegurem os
172 votos necessários para barrar o processo na Câmara.
Mas precisará de mais votos para assegurar a aprovação de
qualquer medida do governo.
Suponha que você seja um deputado sem escrúpulo nenhum.
Apoiará a presidente por ordens do seu partido microscópico em troca de algum
cargo federal. Dilma vence a batalha do impeachment.
O que acontece? Seu partido microscópico conhecerá um
imediato decréscimo de valor. O ministério que você ganhou num momento de
pânico, haverá de ser tirado de você, retornando ao partido que possa garantir
"governabilidade" daqui para a frente.
Você pensa: melhor entrar na onda do impeachment e buscar
vantagens num futuro governo Temer.
Mas é possível que Temer e o PMDB não lhe dediquem mais
do que desprezo. Confiando que tenham votos suficientes para o impeachment, não
haverão de entregar-lhe nada em troca, nem antes nem depois.
Mas será que confiam? Ninguém sabe, neste momento, qual o
resultado do jogo. Tudo depende do amor ao risco.
Se eu fosse o líder canalha de um partido minúsculo,
apostaria em apoiar Dilma nesta hora, confiando que –em caso de derrota no
futuro– poderei aderir, como sempre se adere, a um governo Temer.
Com vantagens menores, é certo, mas vantagens, mesmo
assim.
Sendo canalha, sei que Dilma respeita menos a fisiologia
do que Temer. Mas, se Dilma respeita menos a fisiologia, será que vou continuar
com meus cargos se ela ganhar?
Com essa dúvida, penso em meus eleitores. Querem,
provavelmente, o impeachment. Querem, também, a inauguração de um posto de
saúde ou a liberação de um crédito qualquer na minha região eleitoral.
Penso, sobretudo, em mim mesmo. Qual é o presidente com
mais condições de barrar a Lava Jato?
Talvez a Lava Jato seja irreprimível. Mas por que não
tentar e investir na alternativa Temer? Dilma não tem poder sobre o processo.
Olho para o meu lado. Meu eterno rival nas eleições
municipais, estaduais e federais é um notório corrupto. Será que a Lava Jato o
atingirá antes de mim? Eis a decisão.
Praticamente todos os partidos, como se sabe, recebem
dinheiro de empreiteiras. É simplesmente ridículo defender o impeachment em
termos de moralidade pública.
O que está em curso pode não ser um golpe, mas é um
complô. Um complô de velhacos contra uma quadrilha de hipócritas.
Nada mais que isso. O resto –que diz respeito à
sociedade, não aos políticos– fica para outro artigo.
[Fonte: www.folha.com.br]
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