Pela enésima vez neste espaço, recorro a Paulo Freire: "A leitura do mundo precede a leitura da palavra". Permito-me, mais uma vez, explicar aos que não entendem: quem não compreende o mundo, a realidade e as suas correlações não entende a palavra, o (con)texto etc.
A vida é um
complexo e interminável texto, caro leitor. Às vezes, julgamo-nos capazes de
entender ao menos os textos mais comezinhos, embora isso seja extremamente
difícil ou mesmo impossível para a parcela imbecil da humanidade.
Como diz
Leonardo Sakamoto, faltam amor e compreensão de texto. Quando se leem os
comentários dos "internautas" sobre determinados textos, nota-se que
o analfabetismo funcional, aliado ao ódio, ao preconceito, à ignorância, à
falta de sensibilidade, de cultura, de educação gera manifestações dignas de
pena, nojo, desprezo etc., etc., etc.
Do alto da sua
grande sabedoria, o eterno Umberto Eco dizia que a internet deu voz aos
imbecis, o que é fato cabal, mais do que cabal. Que eu saiba, Eco não chegava a
dizer que os imbecis são majoritários.
Exemplifiquemos a compreensão torta: em suas delações, Delcídio diz que o PT
isso, o PT aquilo, e automaticamente isso se torna "verdade". Quando
ele diz que o PSDB isso, o PSDB aquilo, o barulho e o ódio não são os mesmos, e
nada disso vira "verdade" imediatamente.
Se você ler o
que acabei de dizer como uma defesa do indefensável PT, sugiro que volte aos
bancos escolares e reaprenda o beabá da leitura. Desenho, para quem entendeu
tortamente: uma delação, seja contra quem for, carece de comprovação, nada mais
do que isso.
Mas agora a
questão é outra. Um ponto é manifestarmos a nossa imbecilidade por avaliarmos
como o Diabo gosta textos que não têm (nem de longe) o sentido que neles
enxergamos, por ignorância, ódio, miopia intelectual, moral, ética.
Outro ponto é
estarmos no pleno domínio das nossas faculdades mentais e também da capacidade
de compreensão dos fatos e das suas correlações e alguém tentar nos convencer
de que a nossa compreensão do texto (isto é, dos fatos) não é correta,
verdadeira, pertinente etc.
Aí é o caso de
inverter a proporção do que dizia o grande Umberto Eco, se é que ele não
julgava majoritários os imbecis: no Brasil de hoje, nós, os imbecis, somos
majoritários.
O melhor
exemplo disso tudo é o que tem feito o "governo" nas suas
desesperadas tentativas de sobreviver. Os imbecis não conseguimos compreender a
real intenção da nomeação de Lula para a Casa Civil, por exemplo, o que prova e
comprova que somos todos imbecis. Também não compreendemos a real intenção de
Dilma no telefonema para Lula.
Os imbecis não
conseguimos compreender também que nunca antes neste país houve roubalheira, ou
seja, a roubalheira começou com o PT. Não conseguimos compreender, por exemplo,
que, antes do PT, as empreiteiras investigadas na Lava Jato eram verdadeiros
monastérios, desde a imaculada ditadura militar, recheada de santos, bravos e
indefessos defensores da pátria.
Tomo
emprestados uns versos da letra da genial e atualíssima "Saudosismo",
de Caetano Veloso: "Eu, você, depois, Quarta-feira de Cinzas no país, e as
notas dissonantes se integraram aos sons dos imbecis". É, caríssimo
Umberto Eco, siamo
veramente tutti imbecilli.
E eu já tô de
saco cheio. É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]
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