quinta-feira, 31 de março de 2016

Michael Cunningham: O tradutor não é um traidor

Por Nuno Ramos de Almeida

O escritor d’“As Horas”, Michael Cunningham, esteve em Lisboa, no âmbito da 37ª conferência da Associação Portuguesa de Estudos Anglo-Americanos, na FCSH, para falar de tradução e explicar que é um processo contínuo, responsável pela criação da própria literatura. Mais que um assassino, é a própria criação. 
"Aujourd’hui, maman est morte”, é a frase de início do “L’étranger”, de Albert Camus. Não é um exemplo escolhido por Michael Cunningham, na sua conferência, usou antes, nela, a frase inicial do romance de Herman Melville “Moby-Dick”, para ilustrar a tradução: “Call me Ishmael”. As palavras, como as entradas dos dois romances, têm a sua magia própria.
A magia é um ritmo e uma sonoridade, para além de um conteúdo. Cunningham garante que as palavras expressam uma certa “autoridade”. É como alguém numa dança: imediatamente se percebe, nos primeiros acordes, se esse dançarino tem confiança e sabe ou se é um mero noviço que pisará o parceiro e tropeçará nas próprias pernas ou palavras. 
O tradutor tem a tarefa de capturar numa diferente trama linguística aquilo que o autor quis dizer na sua própria língua. Este é um processo contínuo, que segundo o autor d’“As Horas” é criador da própria literatura. Esta é um espaço de sucessivas traduções: a tradução do escritor, tentar colocar em palavras aquilo que tem na cabeça; a tradução do tradutor, declinar numa outra língua, aquilo que outo escreveu noutro idioma; e, finalmente, a tradução do leitor, ninguém lê um livro da mesma maneira, ninguém o entende da forma como o autor pensou.
Neste processo interagem dois pensamentos diversos, ou três (no caso que haja tradutor). “É isto, tradução não é um mero trabalho dado a fazer a um especialista em línguas estrangeiras, mas um longo e complexo trabalho, uma profunda série de transformações que envolvem mesmo o escritor e o leitor. A tradução é um ato humano, como todos os atos humanos é bastante mais complicada do que parece ser de início”, como fez notar o escritor na sua intervenção. “The translator, then, is simply moving the book another step along the translation continuum. The translator is translating a translation.” (O tradutor limita-se a mover o livro para um outro degrau no contínuo da tradução. O tradutor traduz a tradução), garante o autor em toda a sua musicalidade cacofónica.
Nem sempre o primeiro passo da tradução, aquilo que faz o autor passa do pensamento ao papel é feliz. Cunningham contou na conferência ter dois romances escritos, anteriores ao primeiro que publicou. “Não os publiquei porque eram muito maus”, disse. O seu maior susto foi quando o editor descobriu os manuscritos. Dizendo-lhe que seria tão interessante, até para conhecerem a sua evolução, como escritor, que fossem um dia publicados. O escritor só descansou quando conseguiu que uma assistente fosse lá destruir os originais. Esse conceito que existem sucessivas traduções e que uma delas é aquela que ocorre entre o que o escritor escreveu e o que o autor leu, foi fundamental para a formação da sua própria escrita.
Cunningham ensina a escrever e uma das suas primeiras questões para os alunos, é “para quem escrevem?” A maior parte assume que escreve para eles próprios, eventualmente para um leitor ideal. Sobre isso, o escritor recorda-se sempre de um episódio da sua vida. Anos atrás, tinha o hábito de trabalhar num café, onde uma mulher dos seus 40 anos, servia à mesa. Tinha quatro filhos e vários empregos. Datilografava textos, servia à mesa. Nos intervalos de uma vida complicada, lia compulsivamente. Gostava muito de policiais. Meio a brincar, Cunningham recomendou-lhe “Crime e Castigo”, de Dostoievski. Uma semana depois ela disse-lhe: “Era maravilhoso”. “Gostou mesmo?”, perguntou-lhe o escritor. Ela acrescentou: “É muito melhor que Ken Follett”. E matizou: “Mas não é tão bom como Scott Turow”. O escritor não concordou, mas isso levou-o a uma conclusão: a mulher e ele não liam da mesma maneira. Como se, na passagem de uma fotografia analógica e uma digital, as tramas de leitura fossem diversas. Mas percebeu que o que a mulher procurava, como todos os leitores, mais que uma referência cultural, era absorção, momentum e o sentimento de ser transportado para um outro mundo. E assim mudou Michael Cunningham. 
[Fonte: www.sol.pt]

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