Ontem, o UOL
publicou uma notícia relativa aos direitos sobre a música "Parabéns a (ou
será 'à'?) Você", que, diferentemente do que muita gente pensa, não é
brasileira. Mas isso é outra história. O que interessa neste momento diz
respeito ao bendito "a" que antecede "você". Coloca-se ou
não se coloca o pobre acento grave no coitadinho do "a"?
O monumental
Ferreira Gullar diz que a crase não foi feita para humilhar ninguém. E não foi
mesmo, sobretudo quando se pensa que a essência desse fato da nossa língua é
perfeitamente compreensível.
Vamos aos
fatos. De início, é bom lembrar que "crase", palavra de origem grega,
significa "fusão", "mistura". No caso da gramática,
"crase" vem a ser a fusão de duas vogais iguais. No caso do português
moderno, "crase" vem a ser a fusão da preposição "a" com um
segundo "a", que em 99% dos casos é o artigo definido feminino
"a".
Em
"...depois do ataque terrorista à redação do Charlie Hebdo..." (de
"Somos Todos Lula", de Elio Gaspari, ontem), por exemplo, o
"à" que vem antes de "redação" resulta da fusão (fusão =
crase) da preposição "a", regida por "ataque" (ataque a
alguém ou a alguma coisa), com o artigo "a", determinante do
substantivo feminino "redação". O resultado de "a" +
"a" é "à".
Vale a pena
citar o velho "truque" da troca do vocábulo feminino por um masculino
DA MESMA CLASSE GRAMATICAL e do mesmo tipo. No caso visto, pode-se trocar
"redação" por "escritório", por exemplo. O que surge? Vamos
lá: "...depois do ataque terrorista ao escritório do Charlie Hebdo...".
Como se vê, o "à" se transformou em "ao". Ora, se a forma
"ao" resulta de "a" + "o" (o "a" é o
"a" de ataque a alguém ou a alguma coisa; o "o" é o artigo
"o" de "o escritório"), a forma "à" resulta de
"a" + "a" (o primeiro "a" continua sendo o
"a" de ataque a alguém ou a alguma coisa; o segundo "a" é o
artigo "a" de "a redação").
Posto isso,
voltemos ao inocente "Parabéns a você", que se escreve com
"a" mesmo (como estava no UOL) e não com "à", que não se
justificaria de jeito nenhum. E por que não se justificaria? Por uma razão
muito simples: a palavra "você" por acaso é feminina? Por acaso pede
artigo feminino? Alguém já disse ou escreveu a uma mulher algo como "Gosto
muito da você", "Só penso na você" ou "Estou apaixonado
pela você"? Certamente não, então...
Então o
bendito "a" que vem antes de "você" não pode receber o
acento grave (ou acento indicador de crase), por uma razão mais do que simples,
elementar, matemática: porque não há crase, ou seja, não há fusão, não há
"a" + "a". Há apenas um "a", que não se funde com
coisa alguma. Simples, não?
Algum falso
defensor dos fracos e oprimidos poderá dizer que o indevido acento grave no
"a" em "Parabéns a você" não tornaria a frase
incompreensível. Pois é aí que mora o perigo. O que importa é entender o
princípio, o fundamento, para ser capaz de aplicá-lo na hora de escrever e/ou
ler um texto escrito na língua padrão, situação em que esse acento pode fazer
muita diferença.
Ou será que
algum deslumbrado acha que as construções "...a eterna desventura de viver
à espera de viver ao lado teu" e "...a eterna desventura de viver a
espera de viver ao lado teu" significam a mesma coisa? Xô, populismo! É
isso.
[Fonte: www.folha.com.br]
Sem comentários:
Enviar um comentário