Na semana
passada, tratei de um caso básico do emprego do acento grave, que é o acento
indicador da ocorrência de crase. Parti da simplicíssima construção
"Parabéns a você", em cujo "a", como vimos, não se
justifica o acento grave.
Não custa
relembrar: "crase" é palavra de origem grega e significa
"fusão", "mistura". Em gramática, quando se fala de crase,
fala-se da fusão de duas vogais iguais.
Diferentemente
do que se pensa, a crase não se refere apenas a casos como o de "Vá à
feira" ou "Diga à diretora que...", em que o "à"
resulta da fusão da preposição "a" com o artigo feminino
"a". Ocorre crase em outros casos. Um deles se vê no processo de
formação de algumas das nossas palavras.
Na
"história" do substantivo "cor", por exemplo, ocorreu
crase, já que a forma latina "colore" evoluiu para "coor" e
depois para "cor". Na passagem de "coor" para
"cor", houve crase (fusão), já que o grupo "oo" passou a
"o". No português arcaico, "crer" era "creer",
portanto...
Esses casos
de crase não são marcados com o acento grave. O que se marca com esse acento é
a fusão da preposição "a" com um segundo "a", que, como
afirmei na semana passada, em 99% dos casos é o artigo definido feminino
"a".
Muita gente
me escreveu para perguntar sobre esses 99%: "Se o segundo 'a' não é sempre
artigo, o que mais ele pode ser, professor?".
Vejamos. Num
caso como o de "Diga àqueles jovens desocupados que respeitem as figuras
gloriosas do Brasil", o acento que ocorre em "àqueles" (mais que
correto) resulta da fusão da preposição "a", regida pelo verbo
"dizer" (dizer a alguém), com a letra "a" que inicia o
pronome demonstrativo "aqueles".
"Mas
'aqueles' não é palavra masculina?", perguntarão alguns. E daí? Quem foi
que disse que o acento grave em "àqueles" ocorre antes de uma palavra
masculina? Esse acento ocorre na própria palavra "àqueles" e não
antes dela.
Vejamos
agora um caso enviado por um leitor, que perguntou sobre o acento no
"a" antes de "do PIB" numa frase extraída de texto
jornalístico. O caso era este: "...a despesa nessa área tem avançado em
velocidade superior à do PIB".
E então,
caro leitor? Esse acento é correto? É mais do que correto. O que temos aí é
simplesmente isto: "...a despesa nessa área tem avançado em velocidade
superior à (velocidade) do PIB". Como se vê, o "à" não ocorre
antes de expressão masculina, mas antes de uma palavra feminina, subentendida,
implícita.
Um teste
simples pode ser feito com o emprego do velho truque da substituição. No caso,
substitui-se o substantivo feminino "velocidade" por um masculino,
como "ritmo". O que se obtém? Vamos ver: "...a despesa nessa
área tem avançado em ritmo superior ao do PIB".
E então? O
caro leitor notou que a troca do termo feminino por um masculino da mesma
classe gramatical fez o "à" dar lugar a "ao"?
Essa
observação sobre a necessidade de manutenção da classe gramatical do termo
substituinte não é gratuita. Não adianta trocar, por exemplo, "ela"
por "rapaz", num caso como "Diga a ela que...". A troca de
"ela" por "rapaz" faria surgir o termo "ao", mas quem
foi que disse que "ela" e "rapaz" são da mesma classe
gramatical? "Ela" é pronome reto, portanto a troca é feita por
"ele" ("Diga a ele que..."). É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]
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