Evento no país africano celebrou autores locais ainda pouco conhecidos
no Brasil
O poeta cabo-verdiano
Arménio Vieira, ganhador do Prêmio Camões em 2009. [Foto: Armindo Ribeiro]
Por GUILHERME FREITAS
Celebrado
por sua música, o arquipélago de Cabo Verde tem também uma rica tradição
literária, ainda pouco conhecida pelos leitores brasileiros. Na semana passada,
o país africano sediou em sua capital, Praia, o VI Encontro de Escritores de
Língua Portuguesa, que serviu também de vitrine para a literatura
cabo-verdiana. Ela é escrita sobretudo em português, ao contrário das canções,
geralmente compostas em crioulo, idioma mais falado nas ruas.
Promovido
pela União das Cidades Capitais da Língua Portuguesa (UCCLA), o evento reuniu
mais de 30 convidados de países lusófonos e de Macau. Participaram alguns dos
principais autores de Cabo Verde, como o romancista Germano Almeida, e houve
uma mesa só com jovens escritores do país. Único cabo-verdiano a receber o Prêmio
Camões, em 2009, o poeta Arménio Vieira foi um dos homenageados. Porém, fiel a
seu estilo reservado, desistiu de comparecer. Não adiantava procurá-lo no Café
Sofia, no centro de Praia, onde se diz que ele costuma passar as tardes de papo
com os amigos ou rascunhando poemas no celular.
Na
ausência do homenageado, a obra de Arménio foi exaltada no evento por um
convidado ilustre: o presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca. Amigo do
escritor, ele também é poeta e publicou nos anos 1990 dois livros de versos
surreais: “Porcos em delírio” (1998) e “O silêncio acusado de alta traição e de
incitamento ao mau hálito geral” (1995).
Em
uma conferência de meia hora, Fonseca destacou o humor corrosivo de Arménio. Em
um poema, ele ironiza os versos clássicos de Fernando Pessoa e escreve: "O
poeta é um fingidor/ um pedreiro muito lido, /calceteiro dolorido/ cujas pedras
são pedaços/que ele arranca dos penhascos/de uma alma/ nua e sua/ e da alma de
outros poetas". Mas também sublinhou sua atuação crítica contra o domínio
português.
Arménio
Vieira é um dos altos dignatários da pátria — disse Fonseca, citando um poema
que o autor escreveu quando foi preso pelo regime de Salazar, “Lisboa, 1971”:
“Em verdade éramos o gado mais pobre d’África/ trazido àquele lugar”.
| O romancista cabo-verdiano Germano Almeida |
Comparado
em Cabo Verde a Jorge Amado, de quem é admirador, Germano Almeida tem apenas um
romance publicado no Brasil, “O testamento do senhor Napumoceno” (Companhia das
Letras). A premissa fica a meio caminho entre Amado e Machado de Assis: ao
morrer, Napumoceno da Silva Araújo, um comerciante solteirão e excêntrico,
deixa um testamento de mais de 300 páginas no qual, além de inventariar seus
muitos bens, revela segredos e acerta as contas com amigos, parentes e
desafetos. Com esse livro, Almeida revolucionou a literatura de Cabo Verde, e
hoje é considerado um dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa
contemporânea. Seu título mais recente, “Regresso ao paraíso”, está em todas as
livrarias portuguesas.
Em
sua conferência no evento, Germano revisitou a história da literatura
cabo-verdiana. Lembrou pioneiros como Baltasar Lopes e Jorge Barbosa, que em
1936 fundaram a revista “Claridade”, primeira a valorizar a cultura do país em
tempos de colonização.
Germano
homenageou o poeta cabo-verdiano Corsino Fortes, morto em 2015 aos 82 anos,
integrante da geração de escritores que atuou pela conquista da independência,
em 1975. E citou versos de outro poeta da mesma época, Ovídio Martins, para
definir o espírito cabo-verdiano: “Morremos e ressuscitamos todos os anos/ para
desespero dos que nos impedem a caminhada/ Teimosamente continuamos de pé”.
A
marca nacional de Cabo Verde é a sobrevivência a todo custo — disse Germano.
[Fonte:
www.oglobo.globo.com]

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