Escrito por Pasquale Cipro Neto
Depois que
surgiram as primeiras notícias sobre os inúmeros casos de microcefalia, muitos
leitores me pediram que comentasse os vocábulos "má-formação" e
"malformação". Muitos desses leitores dizem estranhar o uso de
"malformação".
A questão
gera um mar de discussões. Não faltam posições radicais na defesa desta ou
daquela forma.
O fato é
que, em termos do que é regular na nossa língua, o termo
"malformação" parece mesmo "estranho". O termo
"mal" costuma aparecer nos compostos em que o segundo elemento é um
adjetivo ("mal-acostumado", "malvestido",
"malformado", "malvisto", "malfeito",
"mal-agradecido" etc.).
Isso se
explica pelo fato de que o modificador de um adjetivo é o advérbio, papel que,
no caso, é exercido por "mal". Como "formação" é
substantivo (feminino), o normal, de acordo com os cânones da língua, é o
emprego do adjetivo "má", o que gera o termo "má-formação".
De onde
surge então o termo "malformação", aparentemente "espúrio"
(pelo que acabamos de ver)? Verificam-se duas correntes na explicação desse
vocábulo. Uma delas diz que se trata pura e simplesmente de adaptação literal
do termo francês "malformation". Assim procede o dicionário
"Aurélio", que simplesmente manda o consulente procurar
"má-formação".
A outra
corrente diz que "malformação" vem (ou viria) da sequência
"malformar", "malformado", "malformação" .
Vejamos o que diz o "Houaiss": "Depreendido de malformado,
supõe-se um v. malformar, do qual haveria o der. malformar + -ção; caso não se
admita esse padrão derivacional, malformação estaria por má-formação".
Entendeu por que escrevi "vem (ou viria)"?
Convém
lembrar (sempre) que o fator uso nunca pode ser ignorado. Na literatura médica,
por exemplo, é frequente o termo "malformação".
O fator uso
é a razão de os nossos mais importantes dicionários ("Aurélio",
"Aulete", "Houaiss") e o "Vocabulário
Ortográfico" registrarem as duas formas, independentemente da
"legitimidade" ou não de "malformação". O "Guia de Uso
do Português", de Maria H. de Moura Neves, diz que, no corpus da sua
pesquisa, há empate entre as duas formas.
Essa
discussão se estende a outro par enjoadinho, formado por "má-criação"
e "malcriação". Aqui a coisa se complica um pouco porque, embora a
explicação para as duas grafias seja semelhante à que se viu para o par
"má-formação" e "malformação", há divergências entre os
dicionários. Numa de suas edições, o "Houaiss", por exemplo, não
registra "malcriação", ou seja, só registra "má-criação".
Note que eu disse "numa de suas edições".
Nas duas
versões eletrônicas do "Houaiss" a que tenho acesso na Redação da Folha,
não há padrão: uma registra as duas formas; a outra só registra
"má-criação".
O fato é que
os dois pares ("má-criação/malcriação";
"má-formação/malformação") têm largo uso e registro abundante nos
dicionários e no "Vocabulário Ortográfico".
Também é
fato que importantes estudiosos da linguagem defendem ardorosamente o uso
exclusivo de "má-formação" e "má-criação", mas não existe o
contrário, ou seja, a defesa do uso exclusivo de "malformação" e
"malcriação".
Bem, agora
que você conhece (se é que já não conhecia) as razões para a existência das
duas formas, a escolha é sua, caro leitor. É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]
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