segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Sem preconceito, Vila-Matas celebra a arte contemporânea

'Não Há Lugar para a Lógica em Kassel' nasceu de projeto da Documenta

Escrito por FABIO CYPRIANO

O escritor espanhol Enrique Vila-Matas possui familiaridade com arte contemporânea. Ele é um interlocutor frequente da artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster, chegando a usá-la como personagem no livro "Dublinesca" (Cosac Naify, 2011).

Outra artista com quem Vila-Matas já desenvolveu projeto é a também francesa Sophie Calle.

Não é de estranhar, então, que o autor tenha sido convidado a participar da 13ª Documenta de Kassel, em 2012, na Alemanha, e dessa experiência tenha produzido seu mais novo romance, "Não Há Lugar para a Lógica em Kassel".

A Documenta costuma ser considerada a mais importante mostra de arte contemporânea, já que, como ocorre apenas a cada cinco anos, propicia tempo suficiente para uma ampla pesquisa curatorial, além de possuir um dos maiores orçamentos para uma única exposição.

Em 2012, a cargo de Carolyn Christov-Bakargiev, um dos projetos da mostra foi convidar oito escritores (incluindo nomes como o mexicano Mario Bellatín e o chileno Alejandro Zambra) a permanecer alguns dias em um restaurante e lá escrever, se assim o desejassem.

O primeiro livro a ser publicado dessa experiência é o de Vila-Matas. Em "Não Há Lugar para a Lógica em Kassel", o autor, como em outros casos, apresenta-se como personagem, utilizando a exposição como pano de fundo.

Se é com certa ironia que Vila-Matas apresenta sua missão no restaurante –"em circunstâncias normais, eu teria fugido dali na mesma hora"–, é com muito entusiasmo que ele descreve algumas das obras emblemáticas dessa Documenta.

É o caso da instalação sonora de Janet Cardiff e George Bures Miller, que trouxe de volta a Segunda Guerra Mundial a Kassel, ou da sala escura onde Tino Sehgal criou "This Variation".

O mesmo ocorre com a radical intervenção de Pierre Huyghe em um parque da cidade, um lixão habitado por um galgo com uma das patas rosa. "Era impossível ficar indiferente ali", descreve Vila-Matas no livro.

"Não Há Lugar" segue com outra marca do escritor, o imenso número de referências, especialmente a outros autores, o que o caracteriza como uma espécie de DJ da literatura.

A vantagem em seu novo livro é que, além de Borges, Wittgenstein ou Robert Walser, para citar apenas alguns nomes sempre mencionados, Vila-Matas, sem preconceitos, presta homenagem a alguns dos mais radicais artistas contemporâneos.

NÃO HÁ LUGAR PARA A LÓGICA EM KASSEL
AUTOR: Enrique Vila-Matas
TRADUÇÃO: Antônio Xerxenesky
EDITORA: Cosac Naify
QUANTO: R$ 47 (288 págs.)
AVALIAÇÃO: ótimo




[Fonte: www.folha.com.br]

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