'Não Há Lugar para a Lógica em Kassel' nasceu de
projeto da Documenta
Escrito por FABIO CYPRIANO
O escritor espanhol Enrique Vila-Matas possui
familiaridade com arte contemporânea. Ele é um interlocutor frequente da
artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster, chegando a usá-la como personagem
no livro "Dublinesca" (Cosac Naify, 2011).
Outra artista com quem Vila-Matas já desenvolveu
projeto é a também francesa Sophie Calle.
Não é de estranhar, então, que o autor tenha sido
convidado a participar da 13ª Documenta de Kassel, em 2012, na Alemanha, e
dessa experiência tenha produzido seu mais novo romance, "Não Há Lugar
para a Lógica em Kassel".
A Documenta costuma ser considerada a mais
importante mostra de arte contemporânea, já que, como ocorre apenas a cada
cinco anos, propicia tempo suficiente para uma ampla pesquisa curatorial, além
de possuir um dos maiores orçamentos para uma única exposição.
Em 2012, a cargo de Carolyn Christov-Bakargiev, um
dos projetos da mostra foi convidar oito escritores (incluindo nomes como o
mexicano Mario Bellatín e o chileno Alejandro Zambra) a permanecer alguns dias
em um restaurante e lá escrever, se assim o desejassem.
O primeiro livro a ser publicado dessa experiência
é o de Vila-Matas. Em "Não Há Lugar para a Lógica em Kassel", o
autor, como em outros casos, apresenta-se como personagem, utilizando a
exposição como pano de fundo.
Se é com certa ironia que Vila-Matas apresenta sua
missão no restaurante –"em circunstâncias normais, eu teria fugido dali na
mesma hora"–, é com muito entusiasmo que ele descreve algumas das obras
emblemáticas dessa Documenta.
É o caso da instalação sonora de Janet Cardiff e
George Bures Miller, que trouxe de volta a Segunda Guerra Mundial a Kassel, ou
da sala escura onde Tino Sehgal criou "This Variation".
O mesmo ocorre com a radical intervenção de Pierre
Huyghe em um parque da cidade, um lixão habitado por um galgo com uma das patas
rosa. "Era impossível ficar indiferente ali", descreve Vila-Matas no
livro.
"Não Há Lugar" segue com outra marca do
escritor, o imenso número de referências, especialmente a outros autores, o que
o caracteriza como uma espécie de DJ da literatura.
A vantagem em seu novo livro é que, além de Borges,
Wittgenstein ou Robert Walser, para citar apenas alguns nomes sempre
mencionados, Vila-Matas, sem preconceitos, presta homenagem a alguns dos mais
radicais artistas contemporâneos.
NÃO HÁ LUGAR PARA A LÓGICA EM KASSEL
AUTOR: Enrique
Vila-Matas
TRADUÇÃO: Antônio Xerxenesky
EDITORA: Cosac Naify
QUANTO: R$ 47 (288 págs.)
AVALIAÇÃO: ótimo
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