Jean-Paul Sartre, François Truffaut, Pablo Picasso e
outros, estão entre os antigos frequentadores da tradicional La Hune, em
Saint-Germain, a mais recente a fechar as portas
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| Páginas viradas. Livraria La Hune, em Paris, a mais recente a fechar as portas |
Por FERNANDO EICHENBERG
Entre o Rio de Janeiro e Paris, as similitudes podem ser
encontradas onde menos se espera. A capital francesa também tem a sua Livraria
Leonardo da Vinci, que, após mais de seis décadas de serviços literários
prestados aos cariocas, fechará as portas ainda este ano. No mítico bairro
francês de Saint-Germain-des-Près, a La Hune, símbolo livresco da cidade, acaba
de se despedir definitivamente dos parisienses aos 71 anos de vida.
Em pé na calçada, diante da
grade rebaixada até a metade da porta de entrada, Catherine Martinez, de 53
anos, cigarro e um copo de plástico de café na mão, com o semblante triste,
expressa o luto de quem perdeu um ente próximo.
— Trabalhei durante 19 anos na
La Hune. Não é o fechamento de uma livraria, mas de uma história, de um emblema.
E também não é um bom sinal para o bairro. Por causa disso, até voltei a fumar
— admite, em uma pausa em meio ao desmonte do local.
Criada em maio de 1944 por
Bernard Gheerbrant (1918-2010), conhecido apreciador de literatura e de arte, a
livraria, depois de cinco anos situada na Rua Monsieur-Le-Prince, instalou-se
no pós-guerra no endereço que fez sua fama: no número 170 do bulevar Saint
Germain, no coração do chamado “triângulo mágico” formado pelos cafés Deux
Magots e Flore e a Brasserie Lipp. La Hune se tornou uma das referências da
vida artística e literária do bairro, de sua efervescência intelectual e da
boemia dos clubes de jazz. Em seu livro de ouro de clientes frequentes, figuram
nomes como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Pablo Picasso, Marguerite
Duras, Boris Vian, Jacques Prévert, François Truffaut, Jean-Luc Godard, Coco
Chanel, Roland Barthes, François Mitterrand, Albert Camus, Merleau-Ponty, Henri
Michaux, Max Ernst ou Alberto Giacometti — só para citar alguns. Os leitores
também eram atraídos pelas efêmeras exposições de artistas. Entre os livros,
podiam ser admiradas obras do próprio Picasso, René Magritte, Alexander Calder,
Jean Dubuffet ou Pierre Alechinsky. Ainda no campo da arte, o proprietário se
ilustrou como o primeiro organizador de uma mostra de Marcel Duchamp em Paris.
O recente anúncio do fim da
livraria reverberou como um símbolo das transformações ocorridas há décadas no
célebre bairro parisiense. A irreverência de outrora, traduzida em acalorados
debates existencialistas ou surrealistas nas mesas dos cafés Flore e Deux
Magots — e ainda celebrada por remanescentes espíritos nostálgicos —, hoje está
sepultada na vizinha praça batizada de forma emblemática de Sartre-Beauvoir, em
uma controversa homenagem ao casal de filósofos-escritores. Com o passar dos
anos, o mundo dos negócios e das finanças, mais comum à Rive Droite, atravessou
o rio Sena e invadiu a Rive Gauche. Saint-Germain-des-Près adotou uma nova
alma. Sartre foi destronado pelas grifes.
A batalha começou a ser perdida
em 1997, quando a loja Armani assumiu o lugar da festejada e histórica
drugstore então fincada na esquina da rua de Rennes com o bulevar Saint
Germain. Há três anos, a La Hune — que em 1976 havia sido vendida por Bernard
Gheerbrant ao grupo Flammarion — cedeu seus cobiçados metros quadrados à grife
Louis Vuitton.
A livraria ganhou uma sobrevida nas proximidades, no
ângulo da ruas de l’Abbaye e Bonaparte, mas já destituída de sua aura e de sua
famosa escada central que levava ao segundo andar. Em queda de volume de
negócios — de € 3,5 milhões, em 2009, para € 2,3 milhões, em 2013 —, não
resistiu às leis do mercado. O grupo Madrigall — nascido da compra da
Flammarion pela Gallimard —, prometeu fomentar a rentabilidade da livraria,
modernizar sua imagem sem abalar sua identidade, e torná-la novamente uma
referência do bairro. Mas capitulou, e negociou o local e também a marca com a
rede YellowKorner, de comércio de fotografias de arte.
Em um dos cartazes colados nas
vitrines da livraria nos dias posteriores ao fechamento — logo retirados a
pedido dos novos proprietários —, Denis Geerbrant, filho do fundador, protesta:
“É uma usurpação! O que propõe YellowKorner não me convém. O local não terá
nada mais a ver com o que era o centro da vida cultural parisiense. Minha
família está escandalizada pela cessão do nome a um grupo que nada tem a ver.
Tudo isso é reflexo do que se tornou o bairro. É um sinal de que a vida
intelectual francesa não é mais naquela do pós-guerra...”.
— La Hune é uma marca. E
venderam a marca. Para mim, isso foi o mais feio da história — lamenta Catherine,
ao endossar a cólera da família de fundadores.
Em meio às pilhas de livros e
estantes esvaziadas, Oliver Place, diretor de livrarias do Flammarion, até
então responsável por La Hune, justifica o abandono do projeto pela exigência
dos números.
— As dificuldades começaram no
início dos anos 2000. Infelizmente, o mercado, a crise e a localização fizeram
com que as vendas caíssem. Ainda mais com um bairro que muda, cada vez mais
turístico, e uma clientela de nicho, erudita, que diminuía, seduzida pela facilidade
da compra pela internet. La Hune era um mito. Foi uma decisão tomada com dor na
alma — diz, quase em tom de desculpa.
No dia em que a livraria
fechou, a artista Sophie Calle fez questão de estar presente e ser a última
cliente no caixa, na compra de dois livros de bolso.
Mais um “ritual” de suas
performances, em um triste episódio real: ela diz ter sido a derradeira cliente
a adquirir uma obra no endereço histórico, a primeira a comprar no novo local,
e agora novamente a última na despedida final.
Diferentes associações — apoiadas por personalidades como
Juliette Gréco, Catherine Deneuve, Charles Aznavour ou Jean-Paul Belmondo — têm
procurado defender o “espírito Saint-Germain-des-Près”, ancorado em suas
tradicionais livrarias, editoras e manifestações artísticas. Espinhosa missão
nestes tempos em que os míticos Flore, Deux Magots e Brasserie Lipp, assediados
por turistas, mas ainda protegidos pela memória, foram sitiados por butiques de
marcas em meio ao crescente abandono do bairro pelas lendárias editoras. No
número 174 do bulevar Saint Germain, ainda resiste a livraria L’Écume des
Pages. Mas até quando?
Um recente estudo do Ateliê
Parisense de Urbanismo registrou o fechamento de 83 livrarias parisienses entre
2011 e 2014, uma queda de 10% do total. Por outro lado, em uma irônica
coincidência estatística, a mesma pesquisa apontou que o maior crescimento no
comércio se verificou na venda de óculos: o número de óticas aumentou em 18% no
período, com a abertura de mais 138 lojas na capital.
“A forma de uma cidade muda
mais rápido/ infelizmente!, do que o coração de um mortal”, escreveu Charles
Baudelaire em “As flores do mal”. Dependendo das mudanças promovidas, haverá
quem abone ou discorde dos versos do poeta.
[Foto do autor – fonte: www.oglobo.globo.com]

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