quarta-feira, 29 de julho de 2015

Narrativa clássica de Tchékhov em nova tradução

A Estepe é um belo retrato da Rússia a partir da sua paisagem imensa e das suas pessoas

Escrita aos 28 anos, a obra mostra Tchékhov tentando criar uma história 

mais longa que seus contos costumazes

Uma boa narrativa é, muitas vezes, uma das portas de entrada mais estimulantes para uma cultura desconhecida. Mais bonito do que captar a Rússia czarista pelos olhos de um estrangeiro, talvez seja olhá-la pelo cotidiano, imenso e tedioso, da viagem de um garoto para estudar em outra cidade. Em A Estepe (A História de uma Viagem) (Companhia das Letras), novela do escritor russo Anton Tchékhov, o leitor percorre o país junto com o garoto Iegóruchka – que vai acompanhado do tio Iván e do padre Khristofor – e suas impressão da vegetação e das pessoas.

Traduzida com fluência pelo escritor Rubens Figueiredo, a história é uma das tentativas do autor russo de compor uma narrativa mais longa. Pouco acontece de extraordinário nesse caminho – Iegóruchka precisa de separar brevemente do tio e passa a ser acompanhado por homens do povo, mujiques; também enfrenta uma tempestade e pega uma gripe. Ao mesmo tempo, estamos mergulhados na compreensão delicada dos valores e das relações materiais da país então, com a sutileza de um olhar familiarizado com a hierarquia, mas que ainda vê novidades no cenário das estepes e nas injustiças.

Não há muito o que se dizer sobre a capacidade de Tchékhov de compor, com tão pouco, uma narrativa envolvente. Desde a primeira impressão sobre o tédio na estepe, o leitor se vê presente naquela mesma viagem. A Estepe é uma bela novela de formação, com uma sensibilidade que lembra outro clássico, Proust, quando narra seus medos e afetos quando criança – ainda que seu olhar seja menos íntimo e mais social.


[Fonte: www.jconline.ne10.uol.com.br]

Sem comentários:

Enviar um comentário