Estava no site da Folha, no último dia 14: "Governo
de Minas não divulga gastos com rádios de Aécio". Estou tão
"vacinado" contra títulos que têm duplo sentido ou que invertem o
sentido pretendido pelo redator, que logo pensei que esse poderia ser mais um dos
tantos casos análogos.
Tradução: a "vacina"
e o fato de eu não saber que Aécio e família possuem emissoras de rádio me
levaram logo a pensar que a mensagem poderia ser outra, traduzida por este
título: "Governo de Minas não divulga gastos de Aécio com rádios".
Passei para a leitura do texto e... E a possibilidade de interpretação que eu
levantara não se confirmou. O título era perfeito, já que o texto tratava mesmo
dos gastos de Minas para veicular publicidade oficial nas emissoras de rádio de
Aécio e família.
Esse caso parece confirmar o
que já afirmei muitas vezes sobre a redação vacilante que se vê com frequência
nos títulos jornalísticos. No papel, existe sempre a velha máxima, segundo a
qual "Título bom é título que cabe", mas nos sites qual é a desculpa?
Na versão impressa, o título
tinha um "truque" que impedia qualquer "suspeita" de
redação equivocada. Veja: "Governo de Minas não divulga seus gastos com
rádios de Aécio". Como se vê, o "truque" está no possessivo "seu",
que, embora muitas vezes seja causador de ambiguidades insolúveis, resolveu o
problema. Havia espaço na versão on-line para esse "seu"? De sobra,
caro leitor.
Relembro uma frase que vi numa
faixa exposta numa cidade paulista ("Participe da campanha contra os ratos
da prefeitura"). A faixa era assinada pela própria prefeitura. Ato falho?
Sabe Deus! O fato é que a mensagem pretendida impunha outra ordem:
"Participe da campanha da prefeitura contra os ratos". Ligue esse
exemplo ao primeiro e veja se faz sentido a tal da "vacina" que mencionei.
Agora veja um título publicado
no último dia 8 por um conhecido site de notícias: "Gatas mostram que são
boas de rebolado em quadra de samba". A que se refere a expressão "em
quadra de samba"? As tais "gatas" mostraram, numa quadra de
samba, que são boas de rebolado? Ou mostraram que, numa quadra de samba, são
boas de rebolado? Percebeu?
A ordem dos termos e das
orações nem sempre é livre. Compare os quatro casos a seguir: "Durante o
almoço ele disse que não gosta de conversar"; "Ele disse, durante o
almoço, que não gosta de conversar"; "Ele disse que, durante o
almoço, não gosta de conversar"; "Ele disse que não gosta de
conversar durante o almoço".
Comparou? Notou que as
palavras são exatamente as mesmas e que só se muda a posição de algumas delas? Agora
eu pergunto: as quatro frases têm o mesmo sentido? Não. Alguma das quatro tem
mais de um sentido? Sim. A primeira e a última têm um sentido dominante, mas
não se pode garantir que não há um segundo sentido subjacente. Na primeira
predomina o sentido de que ele disse o que disse durante o almoço; na última,
predomina o sentido de que ele não gosta de conversar enquanto almoça (mas não
é absurdo afirmar que a primeira tem um pouco do sentido da última e
vice-versa).
E as outras? São
inequivocamente claras e transmitem mensagens diferentes. Releia-as, por favor.
Na segunda, informa-se quando ele disse o que disse; na terceira, informa-se
quando ele não gosta de conversar.
Sugiro-lhe que se divirta com
a tentativa de "pegar" os duplos sentidos de títulos jornalísticos
que há aqui e ali. É um belo exercício. É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]

Sem comentários:
Enviar um comentário