Na semana passada, tratei da extrema dificuldade que os
mesários têm para localizar os nomes dos eleitores nos caderninhos que
manuseiam. Foi muito, muito grande o número de mensagens que recebi de leitores
que passaram pelo mesmo problema, não só no último dia 5, mas também em
eleições passadas.
Sobre o que analisei na última
coluna, um companheiro desta Folha me escreveu interessante mensagem em que, a
partir de um excerto do livro "A Informação", de James Gleick, fala
da relação entre a incapacidade que abordei e a (in)capacidade de abstrair. O
excerto é este (tradução do próprio colega): "O sistema (...) força o
usuário a destacar a informação do significado, a tratar palavras estritamente
como filas de caracteres, a observar de maneira abstrata a configuração da
palavra. Além disso, a ordenação alfabética exige um par de procedimentos, um
inverso ao outro: organizar uma lista e procurar por itens; classificar e
buscar. Em qualquer direção, o procedimento é recursivo. A operação básica é
uma operação binária: maior ou menor. Essa operação se faz primeiro em uma
letra, depois, aninhada como sub-rotina, faz-se na letra seguinte, e daí por
diante. Isso cria uma eficiência assustadora. O sistema se adapta facilmente a
qualquer tamanho, a macroestrutura sendo idêntica à microestrutura. Uma pessoa
que compreende a ordem alfabética encontra qualquer item numa lista de milhares
ou milhões, sem errar, com perfeita confiança. E sem saber nada sobre o
significado".
O colega conclui com esta
dolorosa afirmação: "Se não conseguimos que cidadãos comuns bem educados
(...) tenham esse mínimo de abstração, isso significa que dificilmente o Brasil
terá como desenvolver, em curto prazo, em escala suficiente, capacidades ainda
mais abstratas necessárias na era da informação".
Aí ponho na roda a eleição e o
que dizem os dois candidatos sobre o tema "educação": nada de nada,
além do óbvio (educação em tempo integral, construção de X escolas,
blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá...).
Pois bem. Suponhamos que
realmente se construam as tais X escolas etc. O que se fará nelas? Como se
procederá? Que linha/s seguiremos? Os nossos professores estão ou serão
preparados para formar alunos que pensam, que sejam capazes de abstrair? Ou
vamos continuar como estamos, o que nos põe sempre em último lugar nos certames
internacionais de leitura e compreensão de texto?
Qualquer que seja o vitorioso,
o poder central vai continuar flertando com o lixo cultural que se serve neste
país? Ou vai ter coragem suficiente para propor uma revolução nessa área, para
que tenhamos um povo bem educado e bem-educado, que seja capaz de compreender o
que lê, que recupere a delicadeza (se é que um dia a teve) e que, recuperada a
delicadeza, perceba a delicadeza de Tom Jobim, de Edu Lobo, de Villa-Lobos, de
Celso Adolfo, de Guimarães Rosa, de Drummond, de Bandeira, de Manoel de Barros
etc., etc., etc.?
"O Tejo é mais belo que o
rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que
corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha
aldeia" (de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa). Ah se
engenheiros, advogados, médicos, economistas, professores de português tivessem
abstração bastante para entender isso! "E engenheiro tem de entender uma
bobagem dessas para ser engenheiro?" Sem comentário. É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]

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