Faz um bocado de tempo que não trocamos duas palavras
sobre a vírgula e outros sinais de pontuação.
Não faltam "teses" bizarras sobre o tema. Uma
delas diz que "a vírgula serve para respirar". Se assim fosse, César
Cielo escreveria textos enormes sem usar a vírgula.
A coisa não é bem assim. Na linguagem escrita culta
formal, o emprego da vírgula é orientado essencialmente por critérios
sintáticos e estilísticos. Calma, caro leitor; já traduzo (ou tento traduzir)
isso.
Vamos começar pela sintaxe, por uma regra básica: não há
vírgula entre termos que têm relação sintática direta, como sujeito e verbo,
verbo ou nome e complemento etc.
Vejamos um exemplo concreto: "O presidente da
montadora alemã no Brasil disse que negocia com o Sindicato dos Metalúrgicos do
ABC a redução da tabela de salários na fábrica de São Bernardo do Campo".
Muita gente simplesmente não resiste à tentação de lascar uma vírgula nesse
trecho. O motivo dessa necessidade quase infrene de lascar uma inútil vírgula?
"O trecho é muito longo", dirão/diriam alguns.
Aos fatos: no trecho citado, temos dois verbos
("disse" e "negocia"). O sujeito do primeiro verbo é
"o presidente da montadora alemã no Brasil", que NÃO pode nem deve
ser separado por vírgula do verbo imediatamente posterior ("disse").
Poderíamos até espichar o sujeito, o que não significaria nada em termos de
pontuação: "O novo presidente da mais importante montadora alemã no Brasil
disse...". A comichão talvez aumentasse, mas seria necessário resistir à
tentação de empregar a vírgula antes de "disse", já que ela separaria
o sujeito do verbo, do predicado.
E pode haver vírgula depois de "disse"? O que
vem depois de "disse"? Vem o que o presidente da montadora disse,
isto é, vem o complemento direto da forma verbal "disse". Pergunto:
você poria vírgula depois de "disse" em "Fulano disse isso"?
Decerto não. Nesse caso, a palavra "isso" representa o que Fulano
disse, certo? Volte ao trecho citado e veja o que o líder da montadora disse.
Seja lá o que for, não há vírgula entre "disse" e o trecho que
representa o que ele disse: "... disse que negocia com o
Sindicato...".
Em vestibulares mais sofisticados, não é improvável a
seguinte pergunta: "Indique o objeto direto de 'disse' no trecho
citado". Ora, o objeto direto de "disse" é justamente o que o
indivíduo disse (se ele disse, disse alguma coisa, certo?). Então o objeto (complemento
verbal) direto de "disse", ou seja, a resposta a essa hipotética
questão é o que vai de "que negocia" até o fim.
E dentro do trecho que vai de "que negocia" até
o fim? Vamos lá: o verbo "negociar" foi empregado com dois
complementos, já que se diz com quem o presidente negocia e o que ele negocia.
A forma verbal "negocia" tem dois "filhos": "com o
Sindicato dos Metalúrgicos do ABC" e "a redução da tabela de salários
na fábrica de São Bernardo do Campo". Entre o "pai" (ou
"mãe") e o "primeiro filho", ou seja, entre "negocia"
e "com o Sindicato...", nada de vírgula. Ou você teria coragem de
separar pai (ou mãe) de filho?
E entre os dois "irmãos", ou seja, entre os
dois complementos da forma verbal "negocia"? É possível lascar uma
vírgula? Mudo a pergunta: você separaria irmão de irmão?
Moral da história: por mais forte que seja a comichão,
resista à tentação de pôr uma vírgula entre termos que têm relação sintática
direta, ainda que algum deles seja longo.
É claro que o que está neste texto é apenas uma gotinha
do imenso mar que abriga a pontuação. Prometo voltar logo ao tema. É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]

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