terça-feira, 26 de agosto de 2014

O controle das derivas

O controle das derivas

A ciência aprendeu a pensar a ideia de que as mudanças das línguas seguem uma direção, que é inconsciente para os falantes



Por Mário Eduardo Viaro

O linguista Edward Sapir (1884-1939) é considerado o maior divulgador - senão o inventor - do conceito de "deriva" (em inglês, drift), algo de difícil definição em linguística. O autor observou que nas mudanças inconscientes das línguas naturais existe uma espécie de direção.

Sapir poderia ser acusado de ter um pensamento teleológico, característico da visão neoplatônica, sobretudo de viés plotiniana. A própria teoria da evolução das espécies abandonou a teleologia, isto é, o pressuposto de que as mudanças tendem a um determinado fim. As ciências, desde o tempo de Francis Bacon (1561-1626), costumam desconsiderar a chamada "causa final" por ser a mais frágil de todas, na tipologia aristotélica. No entanto, em questões linguísticas aparentemente Sapir não estava errado: há tendências que tendem a se repetir como se rumando para um mesmo fim. 

Como explicar isso?

România

Por exemplo, o indo-europeu tinha um sistema morfológico de 8 casos para os substantivos. Casos, explica Joaquim Mattoso Câmara Jr., em Dicionário de Filologia e Gramática (J. Ozon Editor, Rio de Janeiro, 1964: 69), são formas distintas que um nome ou pronome podem apresentar em muitas línguas, segundo sua função sintática. O latim clássico tinha simplificado para 6 casos (ou 5, se pensarmos que o vocativo tem um uso restrito), mas o latim vulgar devia ter 3 e as línguas modernas (à exceção do romeno) não têm nenhum (o francês chegou a ter 2 no período medieval). O grego antigo tinha 5 casos, o moderno só 4 e o número diminui nos dialetos. 

O sistema germânico de 4 casos simplificou-se ainda mais, com exceção do islandês: o alemão também tem 4, mas usa 3 com mais frequência e o inglês tem 2 (um geral e um genitivo). Seria coincidência essa tendência generalizada das línguas indo-europeias a substituir um complexo paradigma morfológico por um mais simples, privilegiando a sintaxe? Algumas línguas, como o hitita e o antigo persa, simplificaram a sua morfologia muito cedo e as outras o fizeram ao longo do tempo. 

Essa simplificação seria mesmo teleológica? Se sim, os falantes de uma língua do grupo indo-europeu (como o português ou o sueco) estariam fazendo um esforço inconsciente, rumando na mesma direção e conservando sua "indo-europeidade". Afirmação ousada e perigosa. No entanto, negar completamente a deriva, atribuindo essas transformações a uma mera coincidência, seria tapar o sol com a peneira. 

Vejamos outro exemplo. O latim tinha muitas palavras com um -t- intervocálico, como maturus (maduro). A palavra continua bem parecida em italiano: maturo. De fato, todas as línguas e dialetos românicos, que se situam abaixo da isoglossa (linha imaginária que demarca a fronteira de um traço linguístico) entre as cidades de La Spezia e Rimini, têm a característica de conservar esse som. Grande parte das palavras do italiano padrão é inspirada em dialetos que estão abaixo dessa isoglossa, como o toscano. Do mesmo lado, estão o romeno matur e o velhoto (dialeto da extinta língua dálmata), que dizia matoir

Acima dessa linha, na região do Piemonte, ouviríamos o -t- se sonorizar, isto é, tornar-se -d-. De fato, no piemontês, a palavra se diz madur

Pois bem, a diferença entre as línguas românicas ocidentais e orientais se deve a uma questão dialetal: na zona da România acima da linha La Spezia-Rimini temos -d- e, abaixo, conserva-se o -t-. Mas isto é metade da história. Em lugares distantes e em diferentes tempos, esse -d-, que é consoante oclusiva dental, passou a ser pronunciado como a fricativa interdental [ð], isto é, o som equivalente ao th da palavra inglesa this. Hoje o espanhol tem esse som: maduro não é pronunciado *[ma'duro] mas [ma'ðuro]. O português de Portugal também não diz [ma'duru], mas [mɐ'ðuru]. 

Estranheza

O francês, porém, diz mûr. Aí entra a deriva: o francês foi o primeiro que transformou o -d- da România Ocidental em [ð], pronunciando *[meðyr]. O som [ð] caiu e essa palavra se transformou em meür no francês antigo, depois simplificado para mûr. Isso aconteceu muito cedo no francês. O estranho é que, independentemente, séculos mais tarde, no espanhol o *[d] original passou a pronunciar-se também [ð]. 

O mais surpreendente é que, por vezes, esse som cai no espanhol, como caiu, séculos antes, no francês. Por exemplo, cansado é pronunciado como "cansao" por muitíssimos falantes de espanhol, nas mais diversas regiões da Espanha e da América Latina. Depois do espanhol, o português europeu fez a mesma coisa, quase 200 anos depois: transformou o [d] original em [ð]. O português brasileiro, seguindo o raciocínio teleológico, "ainda hoje não teria chegado" a essa etapa. 

Há fatos ainda mais estranhos: já no século 15, vemos esse som cair de novo em toda a Península Ibérica nas formas verbais flexionadas na 2ª do plural: o latim cantatis se transformou em cantades e, no século 15, começam a aparecer formas como cantaes (hoje grafada cantais). Supõe-se que entre cantades e cantaes tenha havido uma forma *canta[ð]es. 

Estamos falando do comportamento de um -d- que veio de um -t- latino. E as palavras do latim que já tinham -d-? O que aconteceu com elas? Exatamente a mesma coisa! O acusativo pedem se transformou no dissílabo pee em português antigo, que se craseou. Hoje há o monossílabo "pé". O -d- original do latim caiu e é preciso que imaginemos ter havido o estágio intermediário *pe[ð]e entre pedem e pee para entender a queda. 

Intrigante

Mas como isso é possível? Um falante de latim que pronunciava o -d- como fricativa interdental não conheceu um falante de francês medieval que fazia o mesmo, nem um espanhol setecentista ou um português oitocentista. Cada falante está enclausurado na sua época e na sua terra natal, sem contato um com o outro.  

A sequência -t- > -d- > ð > ø parece inexorável, um destino do qual as línguas românicas não conseguem fugir. Seria mesmo um mistério insondável? Mais grave: os falantes nem sempre são linguistas e não sabem se falam línguas indo-europeias, semíticas ou fino-ugrianas: como podem então obedecer a tais regras teleológicas condicionadas por essas classificações genealógicas? Com elas poderíamos prever o futuro e dizer que o português brasileiro fará o mesmo? Será a volta do determinismo, da "alma da língua" (Sprachgeist), que já deixou tantas marcas macabras na história da humanidade?

Antes de desesperar com essa descoberta sinistra, ponhamos os pés na terra. A deriva de Sapir é uma realidade, mas ela só funciona a posteriori.

Conservadorismo

Afinal, há exceções: o lituano não perdeu o sistema de casos do indo-europeu e nem o islandês perdeu as declinações germânicas. São línguas conservadoras do ponto de vista morfológico. Não quer dizer que sejam em todos os níveis linguísticos. O português conserva, com poucas mudanças, o subsistema vocálico do latim vulgar mais do que outra língua românica, mas não o subsistema consonantal, como faz o italiano. A conservação não exclui a inovação e, de fato, o português inovou criando vogais nasais. 

Dizendo de outra forma, não há língua mais conservadora que outra, a menos que o conservadorismo esteja atrelado a ideologias nacionalistas e procedimentos artificiais. Línguas mudam sempre: quando não mudam um subsistema, mudam outro. Língua que não muda é uma língua morta.

Além disso, a deriva não tem nada de misterioso e seria explicável se abandonássemos concepções antiquadas. Sons não são letras. Os renascentistas já sabiam disso e a fonética está aí para provar. Ora, só temos documentação fonográfica a partir do fim do século 19. Antes, há só a escrita, que é imperfeita e muito tradicional. Falar de sons anteriores à tecnologia das gravações é falar de reconstruções (nesse caso, sempre usamos asteriscos). 

Se gravássemos uma palavra alemã, inglesa, sueca ou de outra língua germânica, que começasse com p-, veríamos nos espectrogramas que há uma aspiração após esse som (que normalmente inexiste em línguas românicas). Pronunciar uma palavra inglesa como peace (paz) sem essa aspiração é possível, mas cria um sotaque de estrangeiro. 

Trata-se da distinção que Eugenio Coseriu (1921-2002) fez entre sistema, norma e fala, complicando a dicotomia saussuriana. Essa aspiração faz parte da norma das línguas germânicas, mas, se ausente, cria estranheza, não incompreensão. Parece que tudo nas línguas funciona assim. Ora, muitíssimas práticas fonéticas não aparecem na escrita, nem em transcrições do Alfabeto Fonético Internacional. Um b do alemão não é completamente sonoro, mas a barra de vozeamento nos espectrogramas mostra que esse som começa surdo e termina sonoro. 

Aspiração

Durante o minúsculo tempo da pronúncia de um b segundo a norma, muita coisa acontece e é captada pela criança que aprende essa língua, a qual passará para a geração seguinte. Ora, muitos dialetos alemães transformam b em p e isso sem que haja influência de um dialeto sobre o outro. 

As línguas não têm alma, como queriam os românticos: isso acontece por causa do hábito articulatório do b alemão, que é parcialmente surdo. Já as línguas românicas fizeram o contrário: transformaram o p em b, porque deviam ter a situação inversa. 

Se isso é regra geral, não faltam exceções: alguns dialetos alemães sonorizam, como as línguas românicas. Inversamente, o espanhol ensurdeceu tardiamente uma série de consoantes, como fazem as línguas germânicas. A transformação do -d- em -ð- e do -ð- em zero deve-se a outros fatores: a diminuição progressiva da intensidade na realização do fonema. Raramente a intensidade das consoantes é fator distintivo das línguas. Tampouco a escrita a registra, nem os falantes a notam. Mas não há como negar o que se registra nos espectrogramas. O fenômeno não pertence ao sistema, mas à norma, no sentido coseriano. 

Desse modo, não há mistério. As unidades fonéticas de uma língua não são (nem precisam ser) só distintivas. De acordo com a pronúncia da maioria, imperceptivel aos falantes mas captável pelas máquinas, tem o caráter de meme (no sentido original de Richard Dawkins): muitas de suas características passam desapercebidas por não parecerem importantes. 

Na aquisição da linguagem, a criança não sabe distinguir o que é importante do que não é: apenas imita e às vezes exagera. O exagero, se repetido por uma comunidade (normalmente, por razões estilísticas), acarreta a mudança, a qual só se torna perceptível com o passar do tempo. Isso explica por que o mesmo fenômeno surge em tempos diferentes, aqui e acolá. Apresenta ares de coisa transcendental, mas é um alarme falso e é tempo de acabarmos com esse misticismo linguístico que tem suas raízes em autores como Gébelin (1725-1784), Herder (1744-1803) e Jacob Grimm (1785-1863).

A deriva existe, mas não há teleologia nela: há as limitações da escrita e excesso de romantismo, para não falar de laivos platônicos e medievais, que nos impedem de tentar entender fenômenos simples sem lançá-los no terreno do sensacionalismo.

[Fonte: www.revistalingua.uol.com.br]

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