Escritora neozelandesa revelou que tradutora francesa encontrou
inconsistências no épico de quase 900 páginas
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| O mediador José Luiz Passos, a escritora Eleanor Catton e o escritor Joel Dicker: debate trouxe à tona erros encontrados por tradutores em seus livros. |
Por FERNANDA
DUTRA
Quase no final da mesa
“Fabulação e mistério”, em que participaram os mais jovens escritores
estrangeiros desta Festa Literária de Paraty (Flip), a neozelandesa Eleanor
Catton e o suíço Joël Dicker, o mediador e escritor pernambucano José Luiz
Passos entregou uma conversa que tivera durante o almoço com Catton. Passos
afirmou que a escritora enrubesceu ao comentar como a tradutora francesa de “Os
luminares” encontrara erros no romance histórico de quase 900 páginas. A
própria Catton confirmou a história ao público da Flip:
— Minha tradutora francesa é
incrível. Ela encontrou pequenos erros que eu nem imaginava existir. Um deles,
por exemplo, é que um personagem primeiro veste um colete. Logo depois, durante
uma briga, ele é agarrado pelo colarinho. Mas coletes não têm colarinhos. No
entanto, acredito que os leitores não leiam um livro pelos fatos, e sim pela
verdade, o que uma coisa diferente – disse, minimizando os problemas.
O suíço Joël Dicker se sentiu, então, confortável para
revelar algo que o tradutor americano encontrara de inconsistente em “A verdade
sobre o caso Harry Querbert”, também um livro longo, com quase 600 páginas.
— A história se
passa em uma cidade litorânea da Costa Leste dos Estados Unidos, e eu baseei a
ambientação na minha experiência de infância. Passei muitos verões no estado do
Maine, também na Costa Leste. Em uma das cenas, os personagens Harry e Nola
assistem juntos ao pôr do sol. A tradutora me disse: “ninguém assiste ao pôr do
sol na Costa Leste, pois o sol nasce no Leste”. Eu tinha essa lembrança nítida
e então fui descobrir que vira o pôr do sol em uma ilha no Maine.
O fato de os dois
autores jovens — Catton tem 28 anos, e Dicker, 29 — terem escrito livros longos
permeou toda a mesa, que durou 1h30m. O mediador José Luiz Passos chegou a
brincar que só aceitaria perguntas de 20 páginas da plateia. Uma das perguntas
feitas aos dois foi sobre os riscos de um autor iniciante lançar um romance tão
extenso.
— É um risco,
mas, para mim, um risco que valia a pena — afirmou Catton.
A intrincada
estrutura dos romances, que têm um crime e a resolução dele como fios
condutores da narrativa, também foi comentada por Catton e Dicker.
— Eu já me
interessava muito pela corrida do ouro nessa região da Nova Zelândia. Tem algo
de romântico e ingênuo nessa ideia de que tudo vai mudar se você encontrar ouro
e ficar rico de uma hora para outra. Comecei a pensar na fé, no destino e
cheguei à astrologia. Não me interessava por isso antes, mas comecei a estudar
e me fascinei por esse sistema que projeta no céu nossa ideia de destino.
Assim, tracei o perfil dos personagens pelos signos e a história deles vai se
desenvolvendo de acordo com a movimentação dos planetas e as previsões
astrológicas – explicou Catton.
O escritor suíço
acredita que sua história é banal — uma vez que o assassinato de uma
adolescente poderia ocorrer em qualquer lugar e qualquer época – mas a
estrutura é que a torna original:
— Organizei o meu
romance para que pudesse mostrar as verdades de cada personagem ao longo da
obra, de tal forma que não exista uma única verdade.
Como o mediador
José Luiz Passos lembrou, embora jovens, ambos os escritores já foram laureados
com prêmios importantes. Catton venceu com “Os luminares” o Man Booker Prize e
Dicker, com “A verdade sobre o caso Harry Querbert”, o Grande Prêmio do Romance
da Academia Francesa. Os dois, porém, com livros de mistério — um gênero que a
crítica literária historicamente despreza, independente do sucesso de público.
— Um livro de
mistério é um livro sobre o leitor, para o leitor. Você precisa pensar o tempo
todo, enquanto escreve, sobre o que o leitor já sabe, o que precisa saber e
quando exatamente precisa saber. Em uma obra longa como a minha, é como se eu
estivesse assinando contratos, ao manter o mistério, em que prometesse uma
recompensa ao final.
Já Dicker afirmou
que escreveu grande parte do livro sem saber quem era o assassino:
— Foi fácil
manter o mistério, porque eu só decidi mais para frente quem seria o assassino
— afirmou o autor suíço, acrescentando: — Parte do mistério é dar espaço para o
leitor imaginar. Isso é possível de fazer pelos clichês, no melhor sentido da
palavra. Os clichês são verdades em comum e, quando o leitor as reconhece,
consegue criar cenários a partir da obra.
[Foto: Felipe Hanower - fonte: www. oglobo.globo.com]

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