Editor catalão diz que obra
do argentino continua a conquistar admiradores e planeja publicar mais textos
inéditos do autor
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| Muitos contos e cartas escritas pelo argentino Julio Cortázar nunca foram publicados e estão sob a guarda da viúva Aurora Bernárdez, hoje com 94 anos |
Por FERNANDO
EICHENBERG
correspondente em Paris
A vida do catalão Carles Álvarez Garriga, 45 anos, é
marcada por dois episódios decisivos, definidores de sua trajetória. O primeiro
deles ocorreu aos 15 anos de idade, em Barcelona, quando leu Julio Cortázar
pela primeira vez.
— Comprei
“Histórias de cronópios e de famas” e os “Relatos” completos, em um volume só
de mil páginas. Isso mudou minha vida. Decidi dedicar minha vida a estudar
Cortázar — conta ele.
De 1992 a
2004, Garriga mergulhou em uma tese de doutorado sobre o escritor argentino, ao
mesmo tempo em que escrevia discursos para políticos catalães. Aurora
Bernárdez, 94 anos, viúva de Cortázar e herdeira universal de sua obra, leu e
aprovou o trabalho acadêmico, escrito de forma bem humorada sobre as
incompreensões da crítica em relação ao escritor.
— Mandei para Aurora, e ela me disse que nunca
havia lido nada tão divertido sobre Cortázar e que gostaria de me conhecer.
Nesta época, começou nossa amizade — lembra.
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| Carles Alvarez Garriga, editor da obra de Cortázar, e Aurora Bernárdez, viúva do autor |
A segunda situação fundadora de sua biografia, deu-se às
vésperas do Natal de 2006, em Paris.
— É uma
história que tem algo de um conto de fadas. Estava com Aurora (que vive em
Paris), e ela me disse: “Tenho uns papeizinhos de Julio que queria te mostrar”.
Ela me mostrou caixas de papéis, e logo me dei conta de que havia coisas
inéditas. Eu disse para ela: “Isso não pode ser guardado aqui, é patrimônio da humanidade”. Então decidimos que tudo seria transportado para Barcelona, para
que pudesse fazer um inventário.
Dois anos
depois, era publicado o livro “Papéis inesperados”, com textos inéditos de
Cortázar. Garriga segue seu trabalho de inventariante e, junto com Aurora,
planeja a publicação de novos livros do escritor: um segundo volume de “Papéis
inesperados” e novas correspondências. Ele confessa que a predição da viúva, de
que seria “vampirizado” por Cortázar, se concretizou, e diz saber hoje mais
sobre o autor de “O jogo da amarelinha” do que de si mesmo.
Como se deu na adolescência sua transformação
em um “cortazariano de carteirinha”?
Era um
jovem leitor europeu comum da época. Lia Júlio Verne, Emilio Salgari. Não
existia Harry Potter. Lembro quando li pela primeira vez “Condor e cronópio”,
uma história fantástica em que o condor desperta o cronópio. O condor diz que
cheira mal, e o cronópio replica: “Você cheira melhor do que um litro de
Jean-Marie Farina (perfumista italiano, 1686-1766)”. Eu morri de rir e não
sabia por quê. Mas achava aquilo diferente. É um pouco o que ocorre ainda hoje
com muitos jovens que leem os “Cronópios” e “O jogo da amarelinha”, e suas
vidas mudam. Ao menos, como leitores. Li todos os contos de Cortázar em três
meses. Quando uma pessoa de 15 anos lê “O perseguidor”, o conto de Charlie
Parker, é um verdadeiro golpe existencial. Cortázar é um escritor muito tóxico.
Por isso tem clubes de fãs, páginas na internet, admiradores no Facebook.
Congrega multidões, sobretudo de leitores jovens, que acredito serem os mais
puros.
Como você vê a literatura de Cortázar hoje?
Vejo
Cortázar hoje de duas maneiras. Uma, como um clássico da língua. “O jogo da
amarelinha” é sem dúvida um dos romances mais importantes do século XX em
língua castelhana. O conjunto de seus contos idem. Por outro lado, ainda tem a
capacidade de entusiasmar uma quantidade de leitores. Neste ano de 2014, está
sendo traduzido em polonês, português, turco, esloveno, chinês, japonês,
italiano... Continua tendo uma grande repercussão internacional. E tudo isso
sem uma declarada estratégia de mercado. São os editores e leitores de todo o
mundo que querem mais. Há mais demanda do que oferta. Isso para um escritor que
está há trinta anos morto é um caso extraordinário, pelo menos em língua
espanhola. Fernando Pessoa é um exemplo parecido em língua portuguesa, com uma
recepção intelectual e também de leitores populares. Mas é difícil encontrar casos
assim hoje em dia.
Ele é considerado um precursor da chamada literatura de
almanaque.
Ele começa
a ler desde pequeno a enciclopédia infantil “Tesouro da Juventude”. Ele tinha
essa ideia de um livro contracorrente, o que fez depois com “O jogo da amarelinha”,
que é um romance contra o romance. Um dia ele queria fazer um favor a um leitor
argentino que estava exilado no México, Arnaldo Orfila Reynal, fundador da
editora Siglo XXI, que gostaria de publicar algo dele. Cortázar tinha muitos
textos, e lhe ocorreu montar um almanaque, um livro que poderia ter tanto
poesia como ensaios, contos, e que fosse ilustrado. Ele tinha um grande amigo
ilustrador, Julio Silva. Fez “A volta ao dia em 80 mundos” e “Último round”,
que ainda hoje são novidades.
Há cartas de Cortázar não publicadas?
Em 2009, a
editora argentina da Alfaguara, Julia Saltzmann, me disse que gostaria de
reeditar a correspondência de Cortázar, que Aurora havia publicado há anos, em
três volumes, e que estava esgotada. Eu lhe disse que havia muitas cartas
novas, e que se escrevêssemos a todos no mundo — e agora por internet é mais
fácil contatar as pessoas — haveria ainda muitas mais. Trabalhamos por uns
quatro anos, e conseguimos uma edição aumentada de cinco volumes, com mil novas
cartas, quase 60% a mais do que havia sido publicado. E hoje já tenho quase 300
páginas a mais. A correspondência de Cortázar não acaba nunca. Ele tinha um
lema: “Carta recebida, carta respondida”. Não fazia distinções intelectuais.
Tinha a extraordinária cortesia e a grande simpatia de responder a todos. Tenho
certeza de que em dez anos, teremos quinhentas ou mais cartas. No Brasil,
consegui há pouco cartas de Davi Arrigucci Jr., seu tradutor, que são muito
interessantes. Temos uma carta de Haroldo de Campos, mas sabemos que seus
herdeiros têm mais. Cortázar teve uma relação muito interessante com os
intelectuais brasileiros, os poetas. Visitou o Brasil várias vezes, e adorava
cachaça (risos).
Uma das cartas, que ele escreveu para o pai, foi uma verdadeira
revelação, e também emoção, para você…
O pai
abandonou a família quando Cortázar tinha cinco anos e sua irmã, Ofelia,
quatro. Durante trinta anos não deu notícias de sua vida. Havia uma lenda,
citada no estudo de um universitário alemão e na biografia de uma francesa,
dizendo que Cortázar uma vez havia recebido uma carta do pai, e respondido. Mas
ninguém havia visto esta carta. Quando Aurora me confiou os papéis de Cortázar,
entre os documentos encontrei uma pasta amarela em que ele escreveu: “Esta
carta deve ser entregue para minha mãe”. Ou seja, quando ele estivesse morto.
Eu abro, e ali está a carta do pai, de meados dos anos 1940. O pai conta que
leu em um jornal que ele assinava “Julio Cortázar” e acrescenta: “E te peço que
assine ‘Julio Florencio Cortázar’, porque não quero que as pessoas pensem que
sou eu que escrevo, por mais que seja excelente”. Encontramos o rascunho da
resposta, na qual ele diz: “Querido senhor, não sei nada do senhor, espero que
esteja muito feliz, mas eu vou continuar assinando Julio Cortázar, sem o
segundo sobrenome”.
Você ainda tem esperança de um dia encontrar o romance “Las
nubes y el arquero”, de 500 páginas, que Cortázar teria queimado, e que você
busca desde 1993?
Não. Como
está escrito na porta do Inferno, segundo Dante: “Tu que entras aqui, abandona
toda a esperança”. Eu já abandonei algumas. Creio que é quase impossível. Desde
a escrita deste texto já se passaram quase 70 anos. Na época não existia
fotocopiadora, nem escâner nem nada. E se ele queimou o original, não há cópia.
Apostaria dez contra um que esse texto não aparecerá mais.
E como você vê a crítica de hoje em relação a
Cortázar?
Cortázar é
um destes autores com quem se deve ter uma sintonia espiritual. Por exemplo, li
Dostoiévski aos 22 anos e fiquei fascinado. Hoje não posso mais ler, porque me
parece demasiado intenso, humano, agressivo, me dói. E um leitor que não tenha
o sentido do humor não pode ler Cortázar. Não poderá ler “Cronópios e famas”, e
não entenderá metade de “O jogo da amarelinha”. Há um congresso agora na
Argentina em que se tratará sobre até que ponto a crítica entendeu ou não
Cortázar. Fiz muitas palestras em bibliotecas, tive conversas com amigos, e uma
coisa que sempre me emociona muito é ver a reação dos jovens, que se maravilham
com Cortázar.
Você destaca o humor como uma da principais
características da literatura de Cortázar.
No romance “Apanhador no campo de centeio”, de Salinger,
o personagem Holden Caulfield diz que há dois tipos de escritores preferidos:
os clássicos, que se leem com grande atenção, mas com um pouco de distância; e
aqueles com os quais se gostaria de conversar por telefone. Borges e Bioy
Casares me parecem geniais, mas eu gostaria de conversar por telefone com
Cortázar.
Em 2013, você disse que neste ano do centenário a Argentina
pagaria sua “dívida” com Cortázar. Na sua opinião, o país não tratou bem o
escritor, muitos não o perdoaram por escrever da França, nem seu peronismo, seu
antiperonismo, seu esquerdismo. Para você, muitos argentinos consideram
Cortázar como um escritor de “segunda categoria”. Isso mudou?
A Argentina
teve uma relação ambivalente com Cortázar. O que sempre ocorre com um escritor
nacional, e isso já dizia Cortázar, é que a geração posterior tem um pouco o
sentimento de parricídio. Isso passou. As pessoas que estudam Cortázar hoje
poderiam ser seus netos, e já não há essa relação tão opressiva. Creio que a
Argentina quer recuperá-lo. Vou à Argentina a cada três ou quatro anos, e sinto
o entusiasmo dos leitores. “O jogo da amarelinha”, sem nenhuma publicidade
especial, segue sendo a cada ano o romance mais vendido da Alfaguara. E isso 51
anos depois de sua publicação, é extraordinário.
[Fonte: www.oglobo.globo.com]


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