Em Buenos Aires, eventos começaram ano passado, com a comemoração dos 50 anos da edição de 'O Jogo da Amarelinha'
Por ARIEL PALACIOS
BUENOS AIRES - 2014 é um ano cortazariano. Em fevereiro, os
argentinos e fãs de sua literatura em todo o planeta recordaram os 30 anos de
sua morte. Na terça-feira, ocorrerão as celebrações por seu centenário de
nascimento. Na realidade, é um biênio cortazariano, já que as celebrações
começaram no ano passado, cinquentenário do lançamento de sua obra mais famosa, O Jogo da
Amarelinha, obra revolucionária na época, que permitia uma leitura fora de
ordem.
Nos últimos meses, as casas editoriais argentinas atarefaram-se
em novas edições de seus livros. Entre as novidades, está o relato biográfico Cortázar
em Mendoza, de Jaime Correas, publicada pela editora Alfaguara, que
recupera poesias de Cortázar quando se tornou professor universitário. Outro
livro é Aulas de Literatura - Berkeley, 1980, da Alfaguara, que
reúne as conferências que o escritor deu na universidade americana. Meses
depois, o escritor admitiria que se havia divertido em dar as conferências por
ter "demolido" a hierarquia professor-aluno.
Fotos. Exposição de imagens vai retratar todo o cotidiano do escritor argentino
A mesma
editora lançou Cortázar da Letra A à Z, uma espécie de dicionário biográfico
ilustrado com material inédito, compilado por sua ex-mulher, Aurora Bernárdez,
e Carles Alvarez Garriga. A Biblioteca Nacional de Buenos Aires realiza, entre
segunda e quarta-feira, as jornadas "Leituras e Releituras de Julio
Cortázar", com a participação de 40 intelectuais argentinos e
estrangeiros. Simultanemente, no Museu do Bicentenário, será realizada uma
exposição de fotografias que mostram a vida do escritor.
A paixão
do autor de Livro de Manuel pelo tango será explicada no
encontro "Cortázar e o Tango", no Museu Casa Carlos Gardel, enquanto
a TV Pública apresenta Portenha Jazz Band tocando suas melodias jazzísticas
preferidas.
Durante as
cerimônias para festejar os 100 anos do nascimento do escritor, será lançado o
filme Histórias de Cronópios e Famas, feito com computação
gráfica e dirigida por Julio Ludueña.
Já o
Palais de Glace exibe uma mostra de histórias em quadrinhos sobre Cortázar, a
"Rompecortázar". Motivos para celebrar o autor por intermédio dos
comics existem de sobra, já que Cortázar era um fã do gênero.
Em 1973,
um jornalista perguntou o que pensava sobre a personagem criada pelo desenhista
argentino Quino, a menina-filósofa Mafalda, ícone internacional da
irreverência, que havia sido o foco de um ensaio de Umberto Eco anos antes. O
escritor olhou surpreso ao repórter e respondeu: "O que é que eu penso da
Mafalda? Isso não importa! O importante é o que é que a Mafalda pensa de
mim!"
E
Cortázar, que já teve especial destaque na Feira do Livro de Buenos Aires no
ano passado, também será o foco de homenagens na Feira do Livro de Guadalajara,
México, em novembro.
TRECHO
O Jogo da
Amarelinha (Ed. Civilização Brasileira, 2007, Tradução de Fernando de Castro
Ferro)
"Encontraria
a Maga? Tantas vezes, bastara-me chegar, vindo pela rue de Seine, ao arco que
dá para o Quai de Conti, e mal a luz cinza e esverdeada que flutua sobre o rio
deixava-me entrever as formas, já sua delgada silhueta se inscrevia no Pont des
Arts, por vezes andando de um lado para o outro da ponte, outras vezes imóvel,
debruçada sobre o parapeito de ferro, olhando a água. E, então, era muito
natural atravessar a rua, subir as escadas da ponte, dar mais alguns passos e
aproximar-me da Maga, que sorria sempre, sem supresa, convencida, como eu
também o estava, de que um encontro casual era o menos casual em nossas vidas e
de que as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de
papel com linhas para escrever ou aquelas que começam a apertar pela parte de
baixo o tubo de pasta dentifrícia.
[...]
Andávamos
por Paris sem nos procurarmos, mas sabendo sempre que andávamos para nos
encontrar.
[...]
Nesse
tempo, eu a seguia de má vontade, achando você petulante e malcriada, até que,
por fim, você se cansou de não estar cansada e entramos num café do boulevard
Saint Michel; e, de repente, entre dois croissants, você me contou uma grande
parte de sua vida.
[...]
Não
estávamos apaixonados, fazíamos amor com um virtuosismo desligado e crítico,
mas sempre caíamos, depois, em terríveis silêncios [...] Mais de uma vez, eu a
vi admirar seu corpo no espelho, segurar os seios com as mãos, como nas
estatuetas sírias, e passar os olhos pela sua pele numa lenta carícia. Nunca
consegui resistir ao desejo de pedir que se aproximasse, sentindo-a curvar-se
pouco a pouco sobre mim, desdobrar-se outra vez, depois de ter estado por um
momento tão só e tão apaixonada diante da eternidade de seu corpo."
[Fonte: www.estadao.com.br]

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