Neste espaço, já
citei inúmeras vezes questões de importantes vestibulares que exigem dos
candidatos a percepção da ambiguidade, ou seja, do duplo sentido. Não raro as
questões pedem também que o candidato reescreva a frase "torta",
eliminando-lhe a anfibologia.
Antes que alguém
pergunte, "anfibologia" (sinônimo de "ambiguidade") é termo
que se usa com alguma frequência em textos filosóficos e linguísticos,
especialmente nos que tratam de lógica e/ou de duplo sentido decorrente da
estrutura sintática.
Posto isso, vamos a
(mais) um exemplo do que acabei de citar. O mote vem desta frase, que estava
num site de notícias: "Bósnio da Roma faz gol que Pelé não fez contra o
Manchester". Até tentei ajudar o redator do título esforçando-me para
encontrar na minha larga memória futebolística um jogo do glorioso Santos de
Pelé contra o Manchester United. Não encontrei. E não encontrei porque, salvo
engano, esse embate nunca ocorreu. Por via das dúvidas, fui para o Google. Nada
de nada. Santos x Manchester só aparece nos videogames da Fifa...
O caro leitor já se
deu conta da ambiguidade que há no título citado? Temos aí um clássico exemplo
de "ambiguidade estrutural", isto é, de duplo sentido decorrente da
"montagem" da frase. Quem acompanha de perto o futebol percebe
facilmente o tropeço na redação, já que é célebre o gol que Pelé não fez contra
a Tcheco-Eslováquia na copa de 1970. A partir daí, é fácil deduzir que foi o
"bósnio da Roma" que fez, contra o Manchester, um gol como o que Pelé
tentou em 70. O "conhecimento do mundo" permite que se entenda a
intenção do redator, ainda que a frase seja estruturalmente ambígua.
Para evitar a
lambança, bastaria ter feito o óbvio, que, no caso, equivale a dar outra ordem
aos termos da frase: "Contra o Manchester, bósnio da Roma faz gol que Pelé
não fez".
É bom lembrar que
nem sempre a ambiguidade decorre de derrapadas sintáticas, de mau ordenamento
dos termos etc. Há frases em que a ambiguidade é intencional, o que normalmente
decorre do talento de quem redige. Veja este exemplo, apropriadíssimo nos
tempos mais do que secos que estamos vivendo: "Vai lavar as mãos para o
abandono da Mata Atlântica? Aproveita enquanto tem água.". Trata-se de uma
peça publicitária da Fundação SOS Mata Atlântica. O texto foi adaptado pela
banca da Unicamp, que o incluiu no seu vestibular de 2013.
A primeira questão
sobre o texto era esta: "Há no texto uma expressão de duplo sentido sobre
a qual o apelo da propaganda é construído. Transcreva tal expressão e explique
os dois sentidos que ela pode ter".
Em tempos em que
pouca gente entende ironias e metáforas, em tempos em que muita gente não
entende uma linha do que lê, mas se vê no direito de destilar ódio visceral
contra tudo e todos, não causaria surpresa a notícia de que a maioria dos
candidatos não respondeu acertadamente à questão. Bem, quem sabe que o sentido
figurado de "lavar as mãos" é "eximir-se de qualquer
responsabilidade" entende de imediato a peça da Fundação SOS Mata
Atlântica e responde facilmente à questão da Unicamp.
Exigir que se saiba
de onde vem o sentido figurado dessa expressão talvez seja algo até cruel e/ou
impiedoso. Nem Pôncio Pilatos seria indiferente a tamanha ignorância...
É sempre bom
lembrar e relembrar que, como acabamos de ver, a ambiguidade não é, por si só,
sinal de texto mal construído. Em textos literários, publicitários etc., a
ambiguidade intencional muitas vezes é justamente a meta (e a glória). É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]

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