segunda-feira, 9 de junho de 2014

Cristãos retomam 'língua de Jesus' em vila de Israel

Por DIOGO BERCITO
enviado especial a GUSH HALAV


O boato, não confirmado, diz que estudantes na vila de Gush Halav atualizaram a técnica milenar de trapacear nas provas escolares.

Um padre local diz à Folha que alguns alunos ali anotam informações na língua aramaica como se fossem preces cristãs. São trechos do conteúdo das aulas.

Os professores não entendem nada, já que o aramaico está em desuso há séculos, vivo apenas em uma versão moderna, falada em pequenas comunidades em países como a Síria e o Líbano.


A manobra é um dos efeitos colaterais dos esforços da teremcomunidade maronita (ramo do cristianismo) dessa vila no norte de Israel. Ela tenta tornar comum o idioma semítico que foi uma língua franca nos tempos de Jesus Cristo. 

Líderes comunitários introduziram, com apoio do governo israelense, os estudos de aramaico no currículo escolar local. Padres ensinam a língua também a seus seguidores e afirmam que até 10% dos 1.600 maronitas de Gush Halav já entendem esse idioma coloquialmente.

Diante de sua família, Carla Aisa, 11, prefere não conversar sobre a escola. Mas ela se diz entusiasta das aulas, em que aprende "a conversar na língua de Jesus".

Só que a questão do idioma aramaico não é, em Israel, apenas linguística. É também uma das maneiras de essa comunidade afirmar sua identidade, cercada pelo conflito entre o governo israelense e líderes palestinos.

"Meus amigos me dizem que, se eu falo árabe, sou árabe", diz Carla. "Mas não sou árabe, sou arameia."

Seu avô, Labib, 79, ainda se lembra de quando, nos anos 1940, funcionários do governo israelense vieram ao vilarejo de Gush Halav para registrar a população.

Os moradores, segundo Labib, se declararam "arameus". Na falta dessa opção na lista, porém, eles foram marcados como "árabes".

O episódio, contado com um quê de lenda pelo ancião da vila, resume uma ideia corrente na região, que faz fronteira com o Líbano– a de que os cristãos maronitas de Gush Halav têm sua etnia específica, a partir da tradição aramaica.

"Nós sempre sentimos que éramos diferentes dos árabes", afirma Carla Aisa.

A definição, ali, não é inofensiva. Ao definir sua identidade em oposição à cultura árabe, os maronitas de Gush Halav também se opõem ao movimento palestino e preferem, assim, aliar-se às autoridades israelenses.

Nacionalistas palestinos consideram os maronitas "traidores" de uma causa cultural maior.

Manuscrito em aramaico, escrito com alfabeto siríaco, na igreja de Gush Halav

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"Nacionalismo maronita" impulsionou estudo de aramaico

Os estudos de aramaico em Gush Halav começaram há cinco anos, depois que um padre maronita voltou do Líbano com ideias nacionalistas. A liderança local tomou a ideia a partir desse ponto e, olhando para a história do Estado de Israel, desenvolveu a sua própria versão.

"O Líbano foi criado para ser uma nação maronita", diz Shadi Khalul, morador de Gush Halav e porta-voz do que chama de "lobby cristão". "Mas o Líbano não deu certo, pois os maronitas não fizeram como os judeus."

Sionistas, afinal, trouxeram o hebraico para o uso diário, no início do século 20. De minoria, eles se tornaram maioria e se firmaram no poder. "Eles entenderam como têm de tratar a si próprios e aos outros", afirma Khalul.

Ele diz que aprendeu aramaico com um padre em três meses. Hoje fluente, passeia com orgulho pelos manuscritos centenários que mostra à Folha. "Estava bravo com os anciões por não nos terem transmitido essa cultura."

Para palestinos, os maronitas são, independentemente da religião, de cultura árabe. Os maronitas alegam descender da população que estava na região antes da chegada dos conquistadores árabes, no século 7.

Mas a língua aramaica, apesar das disputas, dá mais indícios de um núcleo comum para as populações locais. Tanto aramaico quanto hebraico e árabe são línguas de família semítica. Nesses idiomas, "paz" se diz, respectivamente, "shlomo", "shalom" e "salaam". (DB) 



[Ilustração: Editoria de Arte/ Folhapress – foto: do autor - fonte: www.folha.com.br]

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