SAMY
ADGHIRNI
de TEERÃ
A estudante Mitra, 19,
achava que seu nariz não combinava com seu rosto. Foi suficiente para convencer
os pais a pagar uma cirurgia plástica. "Ficou ótimo. Estou muito
contente", alegra-se a moça.
Ela
guarda fotos tiradas após a operação, nas quais faz todo tipo de pose para
mostrar com orgulho o curativo entre os olhos e a boca.
Mitra
é um típico exemplo de iraniana que cedeu à moda da plástica no nariz. A
prática, disseminada em larga escala, denota busca por status social e
autoestima num país obcecado pela aparência.
As
ruas das grandes cidades do Irã estão cheias de homens e mulheres que ostentam
marcas da cirurgia. É visível a satisfação quando notam ser observadas. São
comuns casos de gente que usa o curativo como enfeite, sem ter sido operada.
O
Irã se tornou um dos recordistas mundiais em operações do gênero, conhecidas
como rinoplastias.
Estatísticas oficiais
não são divulgadas. Mas o jornal "Etemad" calcula que a média de
operações chegue a 200 mil por ano, numa população de 75 milhões. O número de
rinoplastias per capita é sete vezes maior do que nos EUA, que têm 317 milhões
de habitantes, segundo estudo da Sociedade de Pesquisa Rinológica do Irã com a
Universidade Johns Hopkins, em 2012.
Antes
reservadas à elite, as cirurgias no nariz banalizaram-se nos últimos dez anos,
depois de hospitais públicos passarem a oferecer o procedimento a preços
menores.
Enquanto
instituições estatais cobram US$ 350 por rinoplastia, algo próximo do salário
mensal de uma secretária, a mesma operação pode sair por mais de US$ 1.500 em
clínicas privadas.
A
fartura de oferta, alardeada por anúncios na mídia, parece reforçar o fenômeno
de massa. Algumas justificativas para operação parecem descabidas ao olhar
externo.
A
vendedora Hanieh, 23, foi operada para tentar curar uma depressão por ruptura
amorosa. "Reduzi o nariz para melhorar meu astral", diz a moça, que
acha "chique" andar com curativo.
Já
a contadora Soad, 31, optou pela cirurgia ao saber que a sogra a achava
"horrorosa" por ter nariz avantajado. Soad gostou da nova aparência,
mas o namoro não durou.
Ambas
tiveram operações traumáticas. "Após a cirurgia, vomitei tanto sangue que
o chão da sala ficou vermelho. Acho que foi por causa da morfina que me deram
por cima da anestesia", recorda Hanieh. Já Soad diz ter ficado com
problemas respiratórios após a operação.
O chefe da Associação de Cirurgia Plástica do Irã, Abolhasan
Emami, disse ao jornal "Asre Iran" que metade das rinoplastias são
desnecessárias. Emami também alertou para a falta de regulamentação no setor.
Recente levantamento indicou que existem 5.000 médicos em Teerã que operam
nariz, enquanto apenas 157 têm diploma de cirurgião.
É
comum ver iranianas com o rosto deformado por cirurgias malfeitas, que deixam o
nariz tão pequeno e empinado a ponto de lembrar as feições do cantor Michael
Jackson no fim da vida.
VÉU ISLÂMICO
O
sucesso das plásticas no nariz é atribuído ao fato de o rosto ser a única parte
que as iranianas podem exibir em lugares públicos. Por lei, elas são obrigadas
a cobrir corpo e cabelo para sair na rua, como manda o regime islâmico no poder
desde 1979.
Para
além das rinoplastias, iranianas usam maquiagem em quantidades e tons berrantes
impensáveis para padrões ocidentais.
"[No
Ocidente], a mulher pode mostrar sua beleza de várias formas. Mas aqui o corpo
é coberto, e o rosto fica apertado entre contornos do véu, o que faz qualquer
defeito saltar aos olhos", diz a publicitária Sahar, 31.
Ela
diz lamentar a situação das funcionárias do Estado, impedidas até mesmo de se
maquiar para trabalhar.
À
importância da estética do rosto soma-se a suposta propensão das iranianas em
competir pela beleza, segundo Hossein Hojjat, famoso cirurgião plástico do
interior. "Uma quer ser mais bonita que a outra. Tenho clientes de todas
idades e meios, inclusive religiosas", afirma.
A
tendência também prolifera entre homens, que já respondem por um terço das
operações, segundo médicos.
O
vendedor Hossein, 27, diz ter sido socialmente pressionado a reduzir seu nariz,
que era "muito grande", segundo ele. "Nossa sociedade não é
muito evoluída. Ter um problema de aparência traz complicações no dia a
dia", diz.
O
engenheiro Ahmed, 32, discorda. Mesmo conhecido pelo nariz proeminente, ele se
recusa a acatar pedido da mãe para ser operado. "Me sinto bem como sou.
Além disso, essas cirurgias quase nunca dão bom resultado."
[Fonte: www.folha.com.br]
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