Entre 4 e 7 de setembro de 2014, Moscou se tornará sede do III Congresso Internacional de Tradutores Literários, organizado pelo Instituto da Tradução com ajuda da Agência Federal de Imprensa e Comunicações da Rússia.
A Voz da Rússia já escreveu sobre este evento bianual. Em 2010, o congresso teve lugar na Casa Pashkov, primeira sede da Biblioteca Estatal da Rússia, e em 2012, no prédio principal da Biblioteca Estatal de Literatura Estrangeira da Rússia. Em ambas as vezes, o Brasil foi representado pela famosa tradutora Arlete Cavaliere, professora da Universidade de São Paulo. E é provável que ela venha nos visitar neste ano também.
A professora Arlete é a pessoa que traduziu para o português a obra dramática completa de Nikolai Gogol, um dos escritores mais importantes da Rússia do século XIX. E não só isso; na verdade, ela é uma dos responsáveis pela paixão do leitor brasileiro pela literatura russa.
A seguir apresentamos a entrevista íntegra que Arlete Cavaliere concedeu à Voz da Rússia no início deste ano.
– Como estima o interesse suscitado pelo público leitor brasileiro em relação à literatura russa?
– A literatura e a cultura russas estão muito difundidas hoje no Brasil, pois o interesse pelo universo cultural russo já está consolidado entre nós há muitas décadas. E como já existe um grupo consagrado de tradutores e especialistas brasileiros em literatura russa, a maioria deles oriundo da Universidade de São Paulo, as editoras brasileiras, interessadas em difundir a literatura russa, têm procurado regularmente esses tradutores e especialistas para efetivar projetos de tradução de textos de autores russos representativos. Penso que conjugar a pesquisa acadêmica produzida na Universidade com a divulgação dessa mesma pesquisa, por meio de editoras brasileiras representativas, constitui o melhor caminho de fazer chegar ao leitor brasileiro textos literários russos traduzidos com qualidade e rigor, o que, certamente, despertará em nossos leitores um interesse cada vez maior.
– Quais são os autores russos que mais precisam de serem traduzidos para o português e publicados no Brasil, agora?
– Temos já disponíveis em língua portuguesa do Brasil muitos textos fundamentais da literatura russa em traduções excelentes, muito bem editadas. Sem dúvida, a literatura russa clássica está mais difundida do que a contemporânea, embora tenhamos já projetos para a tradução de muitos dos textos dessa última em andamento. Muitos autores importantes, que marcam, por exemplo, o assim chamado pós-modernismo russo poderiam ser ainda mais traduzidos, como, por exemplo, Vladimir Sorokin, Viktor Pelevin, Ludmila Petrushevskaya, Tatiana Tolstaya e tantos outros.
– Como estima o contato com os editores que publicaram os seus livros? O nível de compreensão mútua, a definição dos objetivos comuns?
– Só posso elogiar os editores com os quais tenho trabalhado para a publicação de meus livros. Tenho tido muita felicidade em estabelecer e concretizar projetos com editores sensíveis, inteligentes, que não apenas editam, mas colaboram para o aprimoramento dos textos, dando sugestões e muitas vezes propondo notas e comentários, que só enriquecem o meu trabalho. Penso ser fundamental trabalhar com editores que, antes de mais nada, amam a literatura e a cultura russas.
– Entre os autores que a senhora traduziu, existe algum que prefira?
– Na verdade, tenho preferência por todos aqueles que traduzi, pois, certamente, são sempre escolhas de cunho muito pessoal. Traduzir Gogol foi uma ousadia, um risco, mas também uma grande aventura. Posso dizer o mesmo de Mayakovsky, Tchekhov, Bunin ... Enfim, é difícil estabelecer uma preferência. Até mesmo traduzir os textos teóricos do encenador russo de vanguarda Vsevolod Meyerhold levou-me a um contacto extraordinário com um universo cultural muito surpreendente, aquele das intempestivas vanguardas russas do início do século XX.
– Poderia partilhar alguns trechos especialmente interessantes para traduzir?
– Posso dizer que todos os textos de Gogol, contos, novelas e textos teatrais, oferecem muito interesse para um tradutor. O jogo que ele faz com a língua russa, por meio de trocadilhos, provérbios e expressões populares, constitui um grande desafio para qualquer tradutor. Basta examinar, por exemplo, o conto “O Nariz”. Quanto de inventividade e maestria aparece nessa pequena obra-prima da literatura russa! A responsabilidade do tradutor é, sem dúvida, muito grande para conseguir transpor para outra língua toda a genialidade desses gigantes da literatura russa.
– A USP e a sua Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) fizeram, a 25 de janeiro deste ano, 80 anos. Agora, na FFLCH existe, se não me equivoco, o único centro de estudos russos em toda a América Latina que tem mestrado e doutoramento. Só se pode elogiar o trabalho que fazem. Pode contar um pouco sobre o intercâmbio universitário e científico nacional e internacional? Que países latino-americanos mostram o maior interesse pelo tema? Como se desenvolve a parceria com as entidades russas?
– O curso de língua e literatura russa da USP vem formando ao longo dos últimos 50 anos um núcleo de especialistas, professores e tradutores de excelência. Esse núcleo, iniciado pelo professor Dr. Boris Schnaiderman nos anos de 1960, se dedica não apenas à tradução, mas também ao estudo crítico e teórico da língua, da literatura, da teoria literária e das artes russas, difundindo, sobretudo, a literatura e a crítica literária russa, clássica, moderna e contemporânea, em língua portuguesa do Brasil. O Programa de pós-graduação de literatura e cultura russas da FFLCH-USP é o único centro formador de mestres, doutores e pós-doutores nessa área de conhecimento em toda a América Latina, como você bem frisou. O intercâmbio científico com instituições acadêmicas russas de prestígio tem se intensificado muito nos últimos anos. Temos já assinados inúmeros convênios para intercâmbio de docentes e estudantes, o que tem propiciado estágios e pesquisas científicas de extremo interesse para ambos os países. Depois do convênio firmado com a Universidade Estatal de Moscou, a MGU, nos anos 2000, seguiram-se assinaturas de convênios de intercâmbio com outras importantes instituições russas, como a Universidade Russa de Humanidades, a RGGU, a Universidade Politécnica de São Petersburgo, o Instituto de Literatura Russa Pushkin de São Petersburgo e, mais recentemente, com a Universidade de Nizhny Novgorod. Sem dúvida, esse contacto acadêmico muito próximo com estudiosos russos e também com pesquisadores de outros centros europeus e norte-americanos, além de ser muito salutar para os nossos docentes e estudantes da USP, vem atraindo estudantes e pesquisadores de outros estados do Brasil e de outros países da América Latina, que vêm participar de nossos colóquios e congressos internacionais e complementar, assim, a sua formação na USP. Criamos também há pouco mais de 2 anos o LERUSS-Laboratório de Estudos Russos, resultado de um convênio firmado com a Fundação Russky Mir (Mundo Russo), que pretende incrementar ainda mais a difusão da literatura e da cultura russa no Brasil e na América Latina.
[Foto: Screenshot - fonte: www.portuguese.ruvr.ru]

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