Questões de linguagem que movimentam o mundo do futebol
Por Luiz Costa Pereira Junior
As reações de entusiasmo ufânico e de protesto à Copa Fifa 2014 mostram
que o futebol nunca se restringe só ao gramado. Sua influência é sentida
na pele da linguagem. Em quase
todo país, o futebol se torna parte do inventário social, cultural – e
linguístico. No Brasil, por exemplo, ele traduz nosso desprezo pela
racionalidade: num país de tantas incertezas, de tanto obstáculo a
planejamentos duradouros, de amanhãs imprevisíveis, de promessas que
sabemos de antemão irrealizáveis, nosso imperativo é fazer pelota com as
garantias 100%. Há questões de linguagem que movimentam o futebol. Examiná-las pode mostrar como o jogo evoluiu no tempo e em outros campos da lusofonia.
Português europeu
Apostado em ganhar
Averbar uma derrota
Denunciar fome de bola
Denotar sentido de baliza
Direccionar (a bola)
Faltou objectividade atacante
Incidência(s) do jogo
Intenção de flanco
Milita nos escalões cimeiros
Prestação (em vez de atuação, exibição ou desempenho)
Recepcionar (em vez de “receber”: “o Sporting vai recepcionar em Alvalade o Benfica”)
Trabalho
Cruzamento largo e tenso
(Pontapé de) canto em mangas arregaçadas
Deu nas orelhas da bola
A linguagem do cartão
Um problema de tradução provocou a criação dos cartões amarelo e vermelho. No jogo Inglaterra
x Argentina, da Copa de 1966 em Wembley, o capitão argentino Ratin foi
expulso de campo por ofender o juiz alemão Kreitlen. Ocorre que Ratin,
para entender uma advertência de Kreitlen, pedia um intérprete, pois o
árbitro era ignaro em espanhol e ele, em alemão e inglês. O jogador saiu
de campo sem entender por que fora expulso. O episódio fez com que, na
Copa seguinte, no México, a Fifa adotasse pela primeira vez os cartões.
Ninguém mais precisaria falar o idioma
do juiz para ser repreendido ou entender que seria expulso.
Torcedor global
Em inglês, “torcedor” é supporter, aquele que dá sustentação ao time, assim como o italiano sostenere. Em espanhol, hincha é a figura que se entrega de corpo e alma
à equipe e “se infla”, cada poro tomado pela vibração do jogo. No
Brasil, o substantivo “torcedor” pode ser herança da República Velha,
que durou até a década de 30, quando o esporte ainda era entretenimento
de elite. A expressão teria vindo da discreta plateia dos estádios, que
torcia seus lenços nas arquibancadas, contida pela etiqueta de
manifestar grandes emoções. A história pode ser lenda, mas o termo
“torcedor” consagrou-se como expressão calorosa, bem distinta do
equivalente português europeu, “adepto”, aquele que se ajoelha em
respeito quase religioso por seu time.
A mãe do juiz
A
Copa de 1962 (Chile) é a recordista de punições por ofensa verbal de
jogadores a juízes: 6 expulsões em 32 jogos. Xingar o juiz é hábito
desde quando as regras do jogo não eram claras e as partidas de 1883, na
Universidade de Cambridge, tinham até 3 juízes no campo.
Nos primórdios, nem havia árbitros. Os capitães dos times assinalavam o
que era ou não falta. Na 2a metade do século 19 inglês, juízes
começaram a arbitrar, mas da tribuna. A falta de contato com os
jogadores impunha impessoalidade e respeito. Só depois eles foram
tirados da arquibancada para correr ao lado dos jogadores. Nunca mais
sua reputação seria a mesma.
[Fonte: www.revistalingua.uol.com.br]

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