A situação em Brasileia, no Acre, piora e atinge novos auges a cada
dia. Segundo Damião Borges, administrador do abrigo na cidade, o total
de migrantes é estimado em quase 2.500 – sendo 2.000 deles vivendo no
abrigo, que comportaria no máximo 400 pessoas.
O estado calamitoso é agravado ainda mais pelas cheias históricas do rio Madeira (19 metros acima do nível normal), que atingem a vizinha Rondônia e alagam a BR-364, principal ligação por terra
do Acre com o restante do país. Com isso, o estado fica praticamente
isolado e com problemas de desabastecimento de combustível, alimentos e
outros gêneros. Além disso, o rio Acre também está 13 metros acima do
nível normal.
Borges diz que 50 migrantes chegam em média ao abrigo de Brasileia
por dia, sendo que apenas 20 deles conseguem deixar a cidade – muitos
destes são familiares de migrantes já estabelecidos em algum outro local
do Brasil. Para atenuar a situação, segundo o administrador, é esperado
para este fim de semana
o transporte de migrantes para outras regiões por meio das aeronaves da
Força Aérea Brasileira, que chegarão ao estado com mantimentos.
Já o professor Foster Brown, membro do movimento de direitos humanos
miniMAP, relata que a situação de alimentação no abrigo pode se tornar
crítica em poucos dias. ”Quem está responsável pela produção de comida
para os migrantes no abrigo está ficando sem arroz por causa dos
problemas na BR-364. Se continuar a aumentar a população de migrantes em
Brasileia, caos e tragédia são inevitáveis. Precisamos de ajuda federal e logo”, completa.
Esgotamento das entidades e mudanças de estratégia
Na última terça-feira (25), a ONG Conectas foi a Genebra (Suíça)
denunciar a situação no Acre ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.
Antes disso, a entidade já havia apelado para Corte de Direitos Humanos
da Organização dos Estados Americanos (OEA), além de já ter recorrido
seguidas vezes a outras instâncias e feito reuniões com autoridades em nível nacional.
“O problema é o fato de o governo federal
passar meses sem fazer as melhoras estruturais necessárias no abrigo,
enquanto o governo do estado do Acre repete seguidamente o mantra de
fechar o local e as fronteiras. O Brasil parece gostar do Haiti, mas não
tanto dos haitianos. A força que é empregada lá no Haiti, na missão de
paz, não é a mesma empregada em Brasileia, embora sejam duas pontas do
mesmo fenômeno humanitário”, afirma João Paulo Charleaux, coordenador de
comunicação da Conectas.
Apesar da mobilização a nível nacional e internacional, Charleaux
alerta que a entidade está esgotando as opções que têm disponíveis e
mostra que o cerne da questão é ainda mais complexo. “A Conectas está no
limite de seus esforços para dar visibilidade ao tema e cobrar ação dos
responsáveis, mas os entraves – deliberados – parecem muitas vezes
intransponíveis. Eles vão do simples preconceito até a existência de uma
política migratória herdada da ditadura. Estamos falando de mudar as
raízes”.
A falta de respostas efetivas também já leva o Ministério Público
Federal (MPF), outra voz atuante contra a situação dos migrantes no estado, a pensar em outras formas de lidar com o tema. “Tendo em vista
os últimos acontecimentos (e, principalmente, a falta de ações
efetivas), a Procuradoria da República no Acre está dialogando com a
Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PFDC) para decidir os
próximos passos do MPF no tratamento da questão”, explica Pedro Henrique
Kenne, procurador do PFDC.
Outro lado
Nilson Mourão, secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre, diz
que o governo estadual tem feito sua parte em relação aos migrantes,
apesar das condições atuais da região e do abrigo. “Continuamos
oferecendo os serviços. Eles [os migrantes] são acolhidos, cadastrados e
ajudamos ao acesso à documentação e alimentação. No entanto, o abrigo
não tem mais condições de recebê-los. Alguns já estão até alugando casas
nas redondezas”.
Mourão também diz que o governo federal tem dado apoio na medida do
possível, mas crê que a questão também deve ser tratada em conjunto com
os países vizinhos. “Temos de dividir com Peru, Bolívia e Equador a
organização desse processo migratório”.
Damião Borges, que administra o abrigo, diz que melhorias para as
instalações devem começar a ser feitas em abril, quando cessar o período
das chuvas. Mas frisa que o governo federal precisa tomar medidas para
evitar que os migrantes cheguem ao Brasil sem a documentação necessária.
“Além de recuperar o abrigo, o governo federal tem que fazer alguma
coisa para que os haitianos já venham para cá com o visto de trabalho,
assim eles evitam o constrangimento que passam na travessia via Peru e
Equador”.
[Fotos: Foster Brown - fonte: www.migramundo.com]
Sem comentários:
Enviar um comentário