Por
RAPHAEL MINDER
do
'NEW YORK TIMES'
Ele pode ser hoje um dos heróis
literários da Espanha, mas, enquanto viveu, quatro séculos atrás,
Miguel de Cervantes podia ser considerado em certa medida "um
perdedor", disse o historiador espanhol Fernando de Prado. Autor do relato
das aventuras do cavaleiro errante Dom Quixote, Cervantes viveu na pobreza,
deixou de receber uma promoção
militar e passou cinco anos como prisioneiro de piratas, depois
de seu navio da Marinha
ser interceptado.
O reconhecimento e o sucesso de seus escritos chegaram tarde demais para lhe
proporcionar qualquer fortuna.
Uma das poucas coisas que aconteceram conforme a vontade de Cervantes foi seu
sepultamento, em 1616, no local onde ele queria: o convento das Trinitárias em
Madri. Mas o local exato de seu túmulo nunca ficou claro, e isso é algo que
Prado acredita que poderá descobrir, possivelmente já em abril, quando uma
equipe de pesquisadores equipados com tecnologia de radar deve entrar no
claustro na esperança de localizar e identificar os restos mortais do escritor.
Cervantes recebeu autorização especial para ser sepultado no convento porque a
ordem religiosa das Trinitárias tinha ajudado a conseguir sua libertação do
cativeiro.
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| Autoridades acreditam que o túmulo de Cervantes possa atrair turistas. |
Para historiadores e outros, a relativa obscuridade do local onde Cervantes
foi sepultado forma um contraste ignominioso com o lugar de destaque que ele
ocupa no panteão da literatura ocidental. "O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote
de La Mancha", publicado em dois volumes em 1605 e 1615, é visto
amplamente como o alicerce da ficção moderna. Seus principais personagens e
acontecimentos influenciaram a literatura e a linguagem, dando origem ao termo
"quixotesco".
Mesmo assim, Prado disse que, quando primeiro procurou as autoridades da
Prefeitura de Madri, em 2010, para pedir que financiassem seu projeto, foi
rejeitado.
Aos 21 anos, Cervantes deixou a Espanha rumo à Itália para evitar problemas legais,
depois de um duelo. Em Roma, colocou-se a serviço de um cardeal católico e
acabou combatendo na batalha naval de Lepanto, onde a esquadra católica da Liga
Santa barrou o controle do Mediterrâneo pelo Império Otomano.
Cervantes continuou sua carreira
militar na Itália até 1575, quando seu navio foi capturado. Foi
libertado após o pagamento de um resgate e retornou à Espanha, onde se esforçou
para reconstruir sua vida e pagar suas dívidas, dedicando-se a escrever.
Pedro Corral, o funcionário da Prefeitura de Madri que é responsável pelas
artes, sugeriu que encontrar o túmulo de Cervantes pode proporcionar a Madri o
mesmo tipo de incremento turístico que Stratford-upon-Avon recebe graças ao
túmulo de Shakespeare.
Indagado sobre a razão da rejeição inicial do projeto de Prado, Corral
recordou uma tentativa fracassada feita no final dos anos 1990 para identificar
os restos mortais do pintor Diego Velásquez, supostamente sepultado num lugar
onde a prefeitura decidiu construir um estacionamento.
"A busca por Velásquez foi um fiasco", explicou.
"Mas precisamos esquecer os erros do passado e reconhecer que é hora de
a Espanha encontrar seu gênio literário."
[Fonte:
www.folha.com.br]

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