Escrito por Luiz Carlos Amorim
Já escrevi várias vezes sobre plágio, mas de vez em quando aparece
algum fato que traz o assunto novamente à tona. Todos sabemos – ou
deveríamos saber – que “arrumar” ou “melhorar” o texto dos outros não
existe. Não podemos modificar em nada um texto de ninguém, a não ser de
nós mesmos. Se eu for editor e achar que o texto que o autor me entregou
para publicar na nossa revista, por exemplo, não é bom, eu peço outro.
Ou, quem sabe, peço para o autor reescrever, se tiver intimidade para
isso. Não vou adaptar, acrescentar ou cortar trechos para melhorar, pois
estarei adulterando uma obra que não é minha. E isso é plágio. Se
alguém altera um texto de outra pessoa, esse alguém está se
transformando em coautor daquele texto, o que significa que a outra
pessoa não é mais a única autora. O referido texto não tem mais apenas
um autor, tem dois. Se os dois passarem a assinar o texto, ótimo. Mas
não é isso que acontece. Há quem altere o texto da gente, quer publicar o
texto adulterado e quer que a gente assuma sozinho o resultado. Isso é
crime.
Isso me volta à cabeça porque fui convidado para participar de
uma pequena antologia que seria publicada em alguns outros idiomas,
além do português. Havia um assunto específico e mandei um poema meu que
talvez se encaixasse no tema. A editora achou que precisava de uns
ajustes, que se suprimíssemos alguns versos ele ficaria perfeito.
Aceitei, ela me enviou a nova versão e, como apenas tivessem saído
algumas linhas, sem que quebrasse demais o sentido, eu aprovei.
No entanto, quando a editora me enviou o poema “editado”, como
ela mesma disse, com a tradução para o inglês, eu me apavorei. Havia
modificações no poema em português que eu não havia aprovado, a tradução
para o inglês estava um desastre: trechos incompreensíveis, trechos com
palavras que não traduziam o que estava no poema, etc. E eu me
reportei dizendo o que não aceitava na “adaptação” do poema original em
português e explicando o porquê. Ela me retornou dizendo que preferia
do jeito que havia ficado, que ela achava que estava “maravilhoso”
assim. Eu então pedi para sair da antologia, já que eu não podia opinar
sobre modificações no meu próprio poema. Ela insistiu para eu continuar,
pediu desculpas e eu propus começarmos tudo de novo.
Mandei a minha versão do poema, mandei uma outra tradução
feita por pessoa que fala fluentemente o inglês e também é poeta. A
editora agradeceu e eu achei que estava tudo bem.
Dias depois recebi a “edição” final, com o original e a
tradução para eu aprovar. Só que a tradução estava diferente do que eu
havia mandado. Palavras que foram usadas para manter o ritmo foram
substituídas por outras que não eram a exata tradução do original. O
resultado, afinal, não foi bom, sem contar que modificaram sem me
consultar.
O engraçado é que eu não concordei e a “editora” me respondeu
lamentando ter que me “tirar” da antologia. Mas o problema não é esse,
eu já havia manifestado interesse em não participar, mesmo. O caso é que
isso prova, mais uma vez, que algumas pessoas não sabem o que é
“edição”, que isso não quer dizer alterar o trabalho de outros autores
ao bel-prazer, que só o próprio autor tem o poder de modificar a sua
obra. E não há como confundir este ocorrido com revisão, que é a
correção do texto sem alterá-lo. Alterar o trabalho dos outros é outra
coisa, totalmente diferente. Não podemos alterar, sob hipótese alguma,
um texto que não seja o nosso próprio, repito. Só quem pode modificar um
texto é o próprio autor. Outra coisa: tradução de poema fica melhor se
feita por tradutor que também é poeta. Sob pena de transformar o poema
em prosa.
Não aceite que modifiquem o seu texto. Submeta-o a leitores,
para saber o que acham. Se alguns não gostarem, reescreva-o. Mas não
deixe que ninguém “ajude”, “arrume”, “conserte”. Isso não existe. A
história que contei parece meio absurda, mas sabemos que ela acontece.
Tenho toda a série de mensagens que provam o que houve. Não deixe que
ela aconteça com você. Se você tiver que escolher entre publicar um
texto seu adulterado, prefira não publicar. De que adianta publicar uma
coisa que não espelha a sua criação, o seu estilo?
[Fonte: www.dm.com.br]
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