terça-feira, 30 de julho de 2013

Edmond Jabès chega ao Brasil

Obra completa do poeta egípcio radicado na França começa a ser publicada no país em um projeto que só deve terminar em 2017

Um dos maiores poetas francófonos da segunda metade do século XX, Edmond Jabès começa, finalmente, a ter suas obras completas publicadas no Brasil. A edição será dividida em nove volumes, todos bilíngues, e com previsão de publicação até 2017. O primeiro, que traz os textos “Desejo de um começo, angústia de um só fim”, “A memória e a mão” e “Um olhar”, foi lançado em junho. O segundo volume, com previsão de lançamento para outubro, reunirá “Isso teve lugar” e “A memória das palavras — Como leio Paul Celan”.

O projeto ambicioso é da pequena Lumme Editor. Baseada em Bauru, no interior de São Paulo, a editora já publicou obras de importantes nomes da poesia em língua francesa no Brasil, como “Nioque antes da primavera”, de Francis Ponge (tradução de Solange Rebuzzi). Segundo o editor Francisco dos Santos, o projeto de publicar Jabès vinha desde o final dos anos 1990, mas por um motivo ou outro não deslanchava. Até que em janeiro deste ano surgiu a oportunidade de editar uma tradução feita por Eclair Antonio Almeida Filho e Amanda Mendes Casal, ambos da Universidade de Brasília (UnB), que se transformaria no primeiro volume da série.

A partir daí começaram as negociações com as editoras francesas e a família do autor para a cessão dos direitos. O editor conta que as conversas foram excepcionalmente rápidas: em apenas três meses houve o acordo com a Gallimard e a Fata Morgana, que publicaram Jabès na França, e com as herdeiras do autor. Santos ressalta que houve um grande esforço de todas as partes para a publicação dos livros.

— Esse extenso projeto de publicação foi muito bem recebido e se manteve alguns níveis acima dos interesses comerciais. Em nenhum momento valores financeiros foram colocados à frente do projeto de publicar Edmond Jabès no Brasil, quer seja pelas editoras francesas ou pela família do autor. A Gallimard e a Fata Morgana reduziram os valores dos adiantamentos para tornar possível a edição brasileira e a família cedeu os direitos dos títulos que detinha de graça. — explica o editor da Lumme.

Edmond Jabès nasceu no Cairo, capital do Egito, em 1912. Filho de pais judeus, ele recebeu uma tradicional educação francesa no país. Em uma viagem para a França, na década de 1930, travou contato com o grupo dos surrealistas, entre eles o poeta e pintor Max Jacob, a quem mostrou seus primeiros escritos. Segundo Marcel Cohen, que entrevistou Jabès para o livro “Du desert au livre” (“Do deserto ao livro”, inédito no Brasil), Jacob elogiou os textos do então jovem poeta para rasgá-los e jogá-los no lixo argumentando que “Isso não é você!”.

O poeta foi obrigado a deixar o Egito em 1957, contra sua vontade, após a decisão do governo de expulsar todos os judeus depois do início da Guerra de Suez, um ano antes. Ao se mudar para a França, formou uma espécie de comunidade literária com seus contemporâneos, como Maurice Blanchot e Emanuel Levinas. O professor Eclair Antonio Almeida Filho, tradutor de Jabès e coordenador da edição das suas obras completas, aponta para as relações entre o poeta e Blanchot:

— A amizade de Blanchot e Jabès se dava, segundo conta o próprio Jabès a Marcel Cohen, por meio do silêncio. No entanto, era imenso o respeito e a admiração que um nutria pelo outro. Em o “Livro das Margens” (que deve ser publicado no Brasil em agosto de 2014), dois escritos são dedicados a ele. Com Blanchot, Jabès escreve e pensa poeticamente pelo desvio, o fragmento, a escritura, a ausência de livro, o relato, o vazio, o incondicional, a amizade, o silêncio.

Enquadrar o escritor egípcio em um gênero é uma tarefa impossível, como fica claro nas três obras que compõem o primeiro volume lançado no Brasil. Para Almeida Filho, “Desejo de um começo, angústia de um só fim” e “A memória e a mão” assumem uma disposição gráfica próxima da poesia de linhagem “mallarmeana”, que privilegia o branco da página. Já “Um olhar”, livro que compila textos de Jabès dedicados a amigos artistas plásticos, “segue o caminho (quase sempre) linear da prosa”.

— Os três livros são marcados pela escritura fragmentária, pela presença de seus sábios, de Deus, pelo seu pensamento poético que segue sempre não o caminho reto do pensamento filosófico mas o desvio da poesia. Estão lá, lado a lado, o impensável e o pensável, o criável e o incriável, o visível e o invisível.

Almeida Filho também cita alguns temas caros a Jabès, como pensar o outro, o estrangeiro, o ser judeu (apesar de ele próprio ser ateu), além da admiração pelo deserto, pelos textos bíblicos e pelo passado imemorial, interesses que ele dividiu com Levinas e também com o crítico de origem libanesa Gabriel Bounoure.

Para Francisco dos Santos, publicar Jabès é uma alegria e uma forma de ampliar os pontos de contato entre as culturas brasileira e francesa, além de permitir que a obra do poeta não fique restrita a pequenos círculos: 

— A boa literatura sempre sobreviveu em editoras pequenas e modestas.

[Fonte: www.oglobo.globo.com]

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