«Faça o curso sem abrir mão do seu trabalho no Brasil» – é uma
das promessas da Magna Estudantil. Uma estudante brasileira, que não se
quis identificar, contou ao SOL que lhe foi prometido que o mestrado na
UTAD seria feito até com menos de um mês de aulas em Portugal:
«Inicialmente, disseram que seria preciso ficar um mês em Vila Real, mas
consegui que me permitissem ficar apenas 20 dias e fazer o restante em
casa, à distância, voltando para apresentar a dissertação», relata a
aluna.
Por Graciano Coutinho
Há empresas brasileiras
que se dedicam a recrutar alunos para tirar cursos de mestrado e
doutoramento em universidades portuguesas. Prometem valorização
profissional e a possibilidade de compatibilizar o emprego no Brasil com
os estudos em Portugal, com as aulas todas concentradas num único mês.
Pelo menos nove empresas afirmam na internet ter convénios com várias
universidades portuguesas. Mas a realidade nem sempre corresponde ao
anunciado. Nos sites, estão bem visíveis os logotipos de instituições
como a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), a
Universidade da Beira Interior (UBI) ou a Universidade de Évora. No
entanto, se a UTAD confirma o acordo com estas empresas, nem a UBI nem a
Universidade de Évora tinham sequer conhecimento de que a sua imagem
estava a ser usada nas páginas destas empresas.
UBI e Évora vão processar empresas brasileiras
«A Universidade da Beira Interior desconhecia totalmente os sites da
Zandar e da Portal MKPRO. Confirmamos que houve um contacto entre uma
das empresas e a instituição, mas nunca foi assinado nenhum acordo»,
assegurou ao SOL fonte oficial da UBI, sublinhando que qualquer
referência à universidade nestes sites é «abusiva». De resto, a
universidade avança ter desencadeado «providências para que a informação
seja retirada» destes dois portais.
Carlos Brauman, reitor de Évora, também só soube pelo SOL que a
imagem da sua Universidade estava a ser usada por estas empresas. É que,
apesar de conhecer uma destas instituições, não assinou qualquer
convénio.
Brauman explica que «a empresa Zandar Educacional contactou em tempos
o departamento de Desporto da Universidade, com vista à eventual
frequência por estudantes brasileiros de mestrados nessa área, e propôs a
celebração de um protocolo». A Universidade de Évora acabou, no
entanto, por decidir não assinar o acordo por considerar que a empresa
não era credível.
«Essa nossa apreciação é agora reforçada pelo facto – de que tivemos
conhecimento pelo SOL – de o site dessa organização referir, falsa e
abusivamente, um convénio com a Universidade de Évora», afirma o reitor.
«O abuso vai ao ponto de a organização usar nesse site material
informativo de natureza genérica sobre Évora, certamente retirado do
portal da universidade».
O reitor adianta, aliás, que já deu ordens ao seu gabinete jurídico
«para proceder às diligências necessárias, no sentido de procurar que
essas informações e conteúdos, que constituem até publicidade enganosa e
uso indevido do bom nome da Universidade de Évora, sejam retirados do
site daquela organização».
Também a Universidade do Porto soube pelo SOL que constava de um
destes sites. «Não temos qualquer ligação à empresa Marques Ribeiro». E
foi só depois de tentar obter esclarecimentos junto da empresa que a
referência à Universidade foi retirada. «Segundo a directora da empresa,
Luciene Marques, o convénio é com o Instituto Politécnico do Porto. A
associação à U. Porto foi um erro que já foi corrigido no site»,
assegurou ao SOL fonte oficial da universidade.
O Instituto Politécnico do Porto confirma a existência de um acordo,
desde janeiro de 2013, mas assegura que o mesmo ainda não está em vigor –
nem trouxe quaisquer alunos à instituição –, por faltar ainda a
assinatura de adendas e protocolos.
Não é fácil, contudo, perceber ao certo qual o lucro destas empresas
na angariação dos estudantes. Contactadas nove empresas, apenas a Alumni
Educacional respondeu, afirmando que cobra entre 256 euros e 366 euros a
cada aluno pelo apoio logístico prestado, não esclarecendo se obtém
mais algum proveito com a prestação de serviços.
Houve ainda uma aluna brasileira, que se inscreveu na UTAD através da
empresa Magna Estudantil, que contou ao SOL ter pago uma inscrição de
200 reais (73 euros).
Mais de 15 mil euros por um doutoramento
Há uma disparidade grande entre os valores pedidos pelas empresas aos
alunos que pretendem inscrever-se e o que a UTAD – a única universidade
que confirmou ao SOL os acordos – diz custarem os seus mestrados e
doutoramentos para alunos estrangeiros.
Segundo os dados disponibilizados pelas empresas e pelos próprios
alunos inscritos, os custos – que não incluem viagens nem alojamento ou
alimentação – variam entre os 7.944 euros por mestrado (pagos em 24
mensalidades) e os 15.912 euros por doutoramento (pagos em 36
mensalidades).
No entanto, segundo a reitoria da UTAD, as propinas para estrangeiros
situam-se entre 4.500 a cinco mil euros nos mestrados e entre oito mil a
8.500 nos doutoramentos. A diferença entre estas propinas em vigor na
Universidade e o que é cobrado pelas empresas ronda os três mil euros,
no caso dos mestrados, e ultrapassa os sete mil euros no caso dos
doutoramentos.
Estes valores pedidos aos estudantes que vêm do Brasil são, aliás,
muito superiores aos cobrados aos alunos portugueses e da União
Europeia, que pagam, no máximo, 1.250 euros por ano pelos mestrados e
dois mil euros anuais pelos doutoramentos.
Tendo em conta que só no ano lectivo passado, segundo dados
fornecidos ao SOL pela UTAD, a universidade recebeu 150 estudantes
brasileiros ao abrigo destes convénios, é fácil perceber que esta é uma
fonte de rendimento importante.
Carlos Sequeira, reitor da UTAD, assume, de resto, que a instituição
decidiu associar-se àquelas empresas «para dar resposta à sua estratégia
de internacionalização». E assegura que essas entidades têm tarefas
importantes – como «organizar todo o processo documental dos alunos,
quer para a candidatura quer para a matrícula», ajudar na obtenção do
visto, «apoiar os alunos na parte não presencial do curso» e até
«organizar a concentração dos alunos para reuniões de trabalho com os
docentes da UTAD que se desloquem ao Brasil».
De resto, isto mesmo é anunciado nos sites, onde estão publicados
testemunhos de alunos. «A Magna Estudantil é uma empresa muito séria e
idónea», lê-se num desses depoimentos, onde uma estudante conta a
experiência que teve em Portugal. «Para minha surpresa, depois que já
estava em Portugal, descobri que fui pela melhor empresa de convénio
luso-brasileiro, uma vez que a UTAD descredenciou várias empresas por
desacordo contratual», escreve a brasileira.
Experiência diferente tem outro brasileiro, que não quis ser
identificado, mas garantiu ao SOL não estar satisfeito com o serviço.
«Estou accionando a Justiça brasileira para ressarcimento dos recursos
pagos a esta empresa», conta, queixando-se de não ter recebido «a
atenção devida do orientador».
Não há, além disso, garantia de que os cursos sejam reconhecidos no
Brasil. «Depende. Na maioria dos cursos, apenas após um processo de
reconhecimento são válidos no Brasil», reconhece Diogo de Oliveira – um
antigo aluno da UTAD que criou a Alumni Internacional para ajudar
compatriotas a virem estudar para Portugal. A funcionar há dois anos, a
empresa só tem acordo com a UTAD, mas já trouxe 30 brasileiros para
Trás-os-Montes.
sol
[Fonte: blog.opovo.com.br/portugalsempassaporte]

Sem comentários:
Enviar um comentário