No final de abril, surgiram notícias sobre um
escândalo envolvendo búlgaros que reivindicavam apoios sociais
holandeses, apesar de não viverem na Holanda. Mas serão esses emigrantes
pobres apenas vítimas de grupos criminosos turcos organizados,
residentes na Holanda?
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| A estação de autocarros de Shumen (Bulgária). Vários autores de fraudes à custa dos seus compatriotas na Holanda provêm desta cidade do nordeste do país. |
Por Marloes de Koning
Mitko Dimitrov Iliev pediu o seu primeiro passaporte aos 50
anos. É um homem pequeno com dentes tortos e um ar tímido. A sua casa em
Ivanski, uma aldeia no nordeste da Bulgária, está em mau estado, mas é
espaçosa. A estante alberga pouco mais do que um acordeão. Utilizou-o no
ano passado para tentar ganhar algum dinheiro, tocando na cidade
holandesa de Groningen.
Foi aí abordado por um grupo de turcos, quando tocava na rua.
Ofereceram-se para o ajudar a inscrever-se junto das autoridades
municipais. “Um dos turcos fazia a tradução, por isso não percebia nada
do que diziam entre eles.” O turco em questão prometeu-lhe um novo
telemóvel e disse: “Vamos lá dar início a um negócio.” Fez Mitko, que é
analfabeto, assinar uma resma de documentos. Mitko afasta o polegar do
indicador uns 15 centímetros. Era a espessura da resma.
Pedidos de subsídios fraudulentos
Os turcos desempenham um papel preponderante na organização de
pedidos de subsídios fraudulentos na Holanda, operando a partir do país,
mas também da Alemanha, Bélgica e Bulgária. Para não falar da
exploração de búlgaros analfabetos. A Bulgária tem uma grande comunidade
de língua turca. É composta por pessoas de etnia turca e cigana, que
começaram a considerar-se turcos depois de 1989. O facto de comungarem
da mesma língua e religião permitiu-lhes criar facilmente amizades nas
grandes comunidades turcas da Europa Ocidental.
Mitko recebeu €200, mas nunca viu o rasto do prometido telemóvel.
Contudo, algumas semanas mais tarde, o seu telemóvel antigo começou a
tocar sem parar. Era invariavelmente um holandês, que ele não conseguia
entender. Ao fim de algum tempo, percebeu que devia ser um funcionário
do banco. Mitko acha que era do banco holandês que tem um leão cor de
laranja no logótipo, porque viu o símbolo num cartão multibanco.
O banco continuou a ligar. Mitko começou então a desconfiar de que
tinha um negócio e dívidas consideráveis na Holanda. Era uma coisa que
já tinha acontecido a várias pessoas suas conhecidas. Não faz ideia dos
montantes envolvidos, visto que o único pedaço de papel que tem consigo é
o comprovativo da sua inscrição nos serviços municipais. Há poucos
dias, Mitko resolveu desligar o telefone e meter-se num minibus de
regresso à Bulgária. “Estou com medo que me venham penhorar a casa ou
prender-me por um delito que não cometi.”
Saídas constantes de minibus da Bulgária
Ivanski é apenas uma de muitas aldeias búlgaras de onde partem
constantemente minibus para a Holanda. Num levantamento de apenas uma
noite na capital do distrito, Shumen, obtivemos uma lista de sete locais
de partida, num raio de 30 quilómetros. Na maioria dessas aldeias, há
um ou dois homens que asseguram os contactos e organizam o transporte.
“A invasão dos sistemas sociais do Ocidente por minorias búlgaras,
ciganos e turcos, está já lamentavelmente institucionalizada e
profissionalizada”, diz Krastyo Petkov, professor de Sociologia da
Universidade de Economia Nacional e Internacional de Sófia. O professor
Petkov especializou-se em migração económica para a União Europeia e tem
realizado trabalho de campo na Bélgica.
Segundo ele, redes informais com laços familiares no sentido mais
amplo do termo têm vindo a tornar-se mais estáveis e cada vez mais
subtis com o passar dos anos. Um delegado do Ministério Público búlgaro
envolvido no caso holandês, põe a questão da seguinte forma:
“Surpreende-me que ainda não tenhamos recebido nenhuma queixa da
Alemanha. A Finlândia deportou três aviões apinhados de gente há cerca
de um ano. Deram-lhes presentes e um aviso sério para não voltarem.”
Sorri. “As pessoas que viajam para as nações mais ricas da Europa agem
desta maneira. Quando pretendem realmente trabalhar, vão para Espanha ou
Grécia.”
As redes desenvolvem-se em três níveis. Os “peões”, que são
responsáveis por recrutar pessoas na Bulgária, têm geralmente alguns
estudos e falam melhor línguas do que o cidadão médio. Estabelecem
contacto com as pessoas encarregues de organizar alojamento e registos
no país de destino. Acima deles, há os “chefões”, pessoas que garantem
proteção. Sabem como resolver problemas com a polícia e a lei, e têm os
contactos certos para serem bem sucedidos.
Turismo social
O professor Petkov baseia parcialmente as suas conclusões em
entrevistas realizadas com ciganos em Bruxelas. “A Bélgica está a braços
com o mesmo problema de ‘turismo social’ da Holanda”, defende. Uma das
razões para uma grande parte dos ciganos da Bulgária ter optado, nas
últimas duas décadas, por converter-se ao Islão e falar turco é isso
dar-lhes maior acesso às comunidades turcas. “Essas comunidades
ajudam-nos a arranjar residência, mas não a integrá-los.”
Na prática, a primeira e a segunda geração de turcos tornam-se
patrões e empregadores dos búlgaros recém-chegados. As mesmas redes que
organizam o “turismo social” estão também muitas vezes envolvidas em
prostituição e tráfico de seres humanos para trabalhos ilegais mal
pagos, através de subcontratantes no setor agrícola. “Exploram-nos.”
Gancho e Veneta Todorov, de Salmanovo, uma aldeia com 900 pessoas e
seis orquestras, regressaram de Zwolle há poucas semanas. Veneta vende
jornais de rua em frente ao supermercado Jumbo, e Gancho no Aldi. Têm
tulipas no jardim em frente da sua vivenda, e servem amendoins de uma
filial holandesa da cadeia Aldi, sentados à sombra das parreiras.
Quando vão trabalhar para a Holanda, os seus três filhos ficam ali
com os avós. Alugam um quarto a uma africana, em Zwolle, por €5 a noite.
“Os espaços apertados põem-me doido”, lastima-se Gancho. Está
evidentemente feliz por voltar ao seu jardim, que alberga também um
grande galinheiro. O facto de os búlgaros necessitarem de um visto de
trabalho na Holanda e na Bélgica torna-os particularmente vulneráveis.
“Os turcos prometem pão, mas só nos dão migalhas. São mentirosos, mas,
se alguém reclama, ameaçam denunciá-lo à polícia.”
Os Todorov estão ansiosos pelo próximo ano, quando os búlgaros vão deixar de precisar de autorizações de trabalho.
“Vou, finalmente, poder aceitar os empregos que me têm sido
oferecidos”, diz Gancho. “Por exemplo, nos correios, no setor agrícola
ou num matadouro de aves. Hoje, somos pouco mais que mendigos.”
[Foto: Feradz - artigo publicado originalmente no jornal belga De Standaard - fonte: www.presseurop.eu]

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