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Nada mais normal nos dias de hoje do que trocar o
país de origem por outro. Quando escritores fazem isso, o resultado pode ser
uma literatura singular e maravilhosa.
O escritor Thomas Martini não gosta
de ser chamado de "literato imigrado". Ele considera o rótulo
limitante e, além disso, já está há muito tempo na Alemanha. Ele vive desde
1990 no país e há muitos anos em Berlim.
A cidade serve de cenário para o que
o autor chama de jeunesse dorée internacional, bem como para
seu romance Der Clown ohne Ort (O palhaço sem lugar). O livro
é um perfil sombrio e contundente da geração de Martini: a dos adultos em torno
dos 30, aparentemente felizes, mas que por dentro sentem um enorme vazio e
desamparo. Essas pessoas têm uma consciência acentuada da crise pela qual passa
o continente europeu, mas são incapazes de transformá-la em ações.
Falta uma utopia à sua geração, diz
Martini. E seu livro versa exatamente sobre isso. Em entrevista à DW, o
escritor afirma ter, graças à sua própria biografia, um olhar especial sobre o
assunto. E talvez também uma distância maior. Na região romena da Transilvânia,
de onde vem, Martini vivenciou não somente uma ditadura, mas também uma pobreza
extrema disseminada. Bem-estar é algo que ele conheceu somente depois de se
mudar, com a família, para o sul da Alemanha.
Fluência em mais de uma língua
Quantos escritores cuja língua
materna não é o alemão vivem na Alemanha? Embora não haja estatísticas oficiais,
Klaus Hübner – um dos responsáveis pelo Prêmio Chamisso, voltado para
escritores cuja língua materna não é o alemão, mas que escrevem no idioma –
arrisca uma estimativa: entre dois e três mil.
O Prêmio Chamisso é concedido pela
Fundação Robert Bosch desde 1985. O critério mais importante é a qualidade das
obras, diz Hübner. Além disso, acrescenta, elas devem contribuir para o
enriquecimento da literatura alemã contemporânea.
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| 'Quem é Martha?', de Marjana Gaponenko |
Entre os vencedores do prêmio estão
escritores conceituados como Zsuzsa Bánk, Aras Ören, Ilja Trojanow e Feridun
Zaimoglu. Além da recentemente agraciada Marjana Gaponenko, nascida em 1981 na
ucraniana Odessa. Em seu romance Wer ist Martha? (Quem é
Martha?), ela conta a história de um ornitólogo aposentado de 96 anos, que, nos
últimos dias que lhe restam, celebra a vida como uma festa. Ao mesmo tempo, a
autora evoca todas as chances perdidas do século 20. O romance, analisa Hübner,
é um exemplo a ser seguido de como escrever bem em alemão.
Uma literatura original
A Alemanha é, há muito, um país de
imigrantes. Eles chegam pelas mais diversas razões e trazem uma cultura
própria, bem como uma língua materna. Quando, como é o caso de Gaponenko, à
essa língua é acrescido o alemão, o resultado pode ser o surgimento de algo
maravilhoso. Cria-se uma literatura na qual a língua original do autor ressoa
naturalmente, com suas metáforas e estruturas linguísticas próprias, seus
neologismos, expressões e provérbios adaptados que não existem no alemão.
Textos como esse são, segundo Hübner, especiais para o leitor alemão por causa
de sua originalidade.
No decorrer das
últimas quatro décadas na Alemanha, a literatura produzida pelos autores com
trajetória de migração passou a abordar diversos temas, apesar de ainda
existirem as clássicas histórias de refugiados. Mas, no fim das contas, diz
Hübner, esses escritores produzem literatura alemã, na qual são tratadas
questões e temas europeus ou até globais.
E o universo da
experiência própria, que flui subliminarmente para o texto, faz da história
algo singular. Como por exemplo o romance Zuckerleben (Vida
doce, em tradução livre), de Pyotr Magnus Nedov [foto principal], um
escritor nascido na antiga União Soviética, que cresceu na Moldávia, Romênia e
Áustria e estudou em Paris, Moscou, Montreal, Viena e Colônia. Aos 31 anos, ele
já é um especialista em culturas celtas, diretor e pesquisador com tese
concluída sobre cinema.
Escritor e cosmopolita
Nedov tem um perfil
de amor à vida e curiosidade por ela. Ele mostra irritação diante da
insistência em se falar de crise, e opõe-se com veemência a isso através da
palavra. E reconhece que apenas queria falar sobre a realidade na Moldávia,
sobre os momentos de ruptura e decadência, sobre que efeito isso teve sobre as
pessoas no país, no início dos anos 1990. O autor confessa também que só
inseriu a história atual de um motorista de caminhão e de um jovem casal, que
anseia pela morte, mas acaba não sendo atropelado, para que seu livro
encontrasse espaço entre o público alemão.
Mas como Nedov
gosta de ironia e humor, não se sabe ao certo se ele está falando sério. Com
seriedade ele afirma outra coisa: que o mundo todo é como se fosse seu lar, ou
seja, que ele é um cosmopolita. Há um número cada vez maior de escritores
assim. E a literatura que eles produzem merece ser celebrada.
Autoria: Silke
Bartlick (sv)
Edição: Alexandre
Schossler
[Fonte: www.dw.de]



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