Ricos estão se inspirando na Itália para batizar filhos; outras classes
sociais devem seguir tendência, dizem especialistas
Nomes populares de hoje, como Lucas e Beatriz, estão em baixa nas listas das
escolas, aponta estudo da USP
Nas próximas décadas, Enrico, Lucca e Enzo se tornarão nomes bastante comuns
entre os jovens paulistas. Sofia, Luiza e Pietra também.
Devem se aproximar de Lucas, Gabriel, Jéssica e Beatriz, os mais comuns nas
escolas do Estado. Lucas, aliás, está em decadência: após ir de 0,5% dos garotos
em 1989 para quase 5% em 1994, é 2,5% agora.
Os nomes em ascensão foram adotados pelos pais das classes mais ricas na
década de 1990, indica estudo da USP.
É possível dizer que eles vão se popularizar porque o rico é, no longo prazo,
quem cria as tendências. Essa teoria está em dois livros americanos na última
década: "Freakonomics" (2005), de Steven Levitt e Stephen Dubner, e "Do Que É
Feito o Pensamento" (2007), de Steven Pinker.
É um círculo: as escolhas dos ricos ganham "status" até serem adotadas pelo
resto da sociedade. Aí tais nomes se banalizam, e os endinheirados procuram
novas opções. Nas palavras mais duras de Pinker, "a elite quer se diferenciar da
ralé, que sempre vai imitá-la. É interminável".
No Brasil, a lista de nomes que têm hoje maior correlação com alta renda
paterna foi feita pelo economista Lucas Scottini, em seu mestrado
recém-defendido na USP.
Ele usou dados do governo paulista com mais de 10 milhões de alunos. Scottini
ressalta que o objetivo não era indicar nomes que vão se popularizar, mas
usá-los como identificadores de classe e de raça.
O estudo mostra que nomes italianos caíram no gosto dos ricos. E se a lista
de presença das escolas de elite já parece a escalação da seleção da Itália,
isso logo se espalhará.
'RECICLAGEM'
Há ainda os nomes que ressurgem: Frederico (9º mais ligado à riqueza) ou
Catarina (12º entre as meninas). Pinker, com o exemplo americano, explica: nomes
são reciclados. "Se você está entre Max, Rose e Sam, está num asilo ou numa
creche."
Nesse sentido, veja o nome de alguns filhos de artistas que acabam sendo
parte dessa elite criadora de moda: Joaquim (Angélica e Luciano Huck), Theodoro,
Sebastião (Nando Reis), Antonia (Giovanna Antonelli), Francisco (Fernanda Lima)
e Bento (Caio Blat).
Há um fenômeno específico dos nossos pobres: imitar a elite de fora. "Nos
anos 1990, tivemos um boom de Daianas e Leidianas (com todas as grafias
imagináveis), de Maicon, de Deivid", afirma Scottini.
"A ideia de modismo é ampla. Escolhas de certa forma revelam o clube a que
pertencemos ou queremos pertencer", diz Marcos Rangel, orientador de Scottini.
Ele também acredita, porém, que mais dados e estudos são necessários nesta área.
Elabora agora um trabalho sobre os sobrenomes da escravidão.
E para quem diz que economistas deveriam se preocupar com coisas mais sérias?
"Eu já esperava que muitos colegas achariam meu trabalho patético e
irrelevante, que rissem. Mas a economia trata de pessoas e decisões. Ninguém
escolhe o nome do filho na roleta", diz Scottini.
RICARDO MIOTO
[Fonte: www.folha.com.br]
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