Comentários sobre o filme dirigido por Fatih Akin, em cartaz nos cinemas
Fotograma de "Uma infância alemã", filme dirigido por Fatih Akin
Escrito por JOÃO LANARI BO*
1.
Uma infância alemã: título singelo escolhido pelo distribuidor brasileiro, provavelmente temeroso de que a audiência não entenderia o original, “Amrum”. Alguém viu o filme e concluiu que era um retrato da infância na Alemanha. De fato, é – mas num contexto particular, geográfica e historicamente. Uma infância retratada em um momento vertiginoso, poucos dias antes e depois do suicídio de Hitler e fim da Segunda Guerra Mundial, antes e depois do apocalipse, pequenos momentos em que a pulsão de morte da humanidade veio à tona.
Como fazer um filme sobre essa vertigem, adotando o ponto de vista de um garoto de 12 anos, em uma ilhota no norte da Alemanha? O diretor, o turco-alemão Fatih Akin, ostenta uma trajetória exitosa de trabalhos contundentes, para usar um eufemismo, como Em pedaços, de 2017, e O bar Luva Dourada, de 2019. O mundo a partir do olhar de uma criança não dispõe, em princípio, das obsessões de violência gráfica que habitam o imaginário adulto.
Em princípio porque o sadismo implícito em produções voltadas para o público infantil pode ser algo bastante real, mas isso é assunto para psicanalistas. Em Uma infância alemã a linguagem convencional reproduz os parâmetros de um garoto amadurecendo em um ambiente atordoante, a poucos quilômetros de uma catástrofe tectônica, mas isolado em uma ilha chamada Amrum, e a salvo de perigos imediatos.
Baseada no livro de memórias do ator e diretor Hark Bohm, que nasceu em Hamburgo e cresceu em Amrum, a história gira em torno dos dilemas e soluções que surgem no cotidiano plenos de imprevistos de Nanning Bohm (Jasper Billerbeck). Sua mãe é francamente nazista, em casa um retrato de Hitler adorna a parede. Na estante, vários livros do avô tratam de biologia, uma área de estudos perigosamente política naqueles tempos de pretensa superioridade racial ariana.
A família, apesar de raízes na ilha, é um corpo indesejado em boa parte da comunidade local, não apenas pelo nazismo ostensivo, mas também pelo choque com a cultura frísia local. Embora a beira do abismo, a arrogância da mãe espraia-se na atmosfera e afeta as relações de Nanning.
2.
Os ancestrais dos frísios migraram da Escandinávia para a região costeira alemã por volta da Idade do Ferro, e foram descritos por historiadores romanos como guerreiros independentes que habitavam áreas pantanosas. Possuem sua própria língua, o frísio, considerada o idioma moderno mais próximo do inglês. No filme, para sobrecarregar a situação, a mãe dá à luz exatamente no dia em que é anunciada a morte do Führer – e entra em depressão, recusando-se a comer, exceto pão com manteiga e mel.
Para cumprir esse desejo, Nanning atravessa imensas áreas de maré baixa, caça coelhos com o amigo (frísio) Herman, recita o juramento da Juventude Nazista e assiste a uma foca ser baleada à queima-roupa para ajudar um pescador local.
Tudo isso, todas as reviravoltas, Uma infância alemã narra em tom de fábula, como são as narrativas construídas a partir de narradores- mirins. Um antecedente é o extraordinário Alemanha ano zero, que Roberto Rossellini realizou em 1948 – um narrador que perambula pelos destroços de Munique no imediato pós-guerra, lutando para salvar o pai enfermo. A historicidade do filme de Roberto Rossellini retorna, décadas depois, no filme de Fatih Akin.
Ambos têm uma qualidade histórica rara nesse mundo de narrativas codificadas do cinema que trata da Segunda Guerra: como internalizar um conflito dessa proporção no cotidiano de famílias que viveram sob o jugo de uma opressão ideológica colossal, que levou a um projeto radical de autodestruição?
Hitler não era unanimidade na Alemanha, mas, por várias razões, desde ações cruéis de repressão ao populismo descarado que exibia – que incluiu experimentos como os documentários de Leni Riefenstahl – manteve-se no poder e fez o que fez. O microcosmo em que vive Nanning é um dos espaços em que se davam esses pequenos embates, desta feita, com o pano de fundo de um país em frangalhos.
Uma infância alemã é o trabalho mais reservado, porém extremamente cinematográfico, de Fatih Akin. Stand by me (Conta comigo na tradução brasileira), que Rob Reiner dirigiu em 1986, é citado por ele como uma inspiração pessoal. Em ambos, sobreviver como criança em um ambiente hostil implica em altos riscos – e às crianças resta a capacidade de aliarem-se umas às outras para driblar os males do mundo.
Ao longo desses poucos dias, Nanning constrói seu guia moral de sobrevivência, entre os limites mais ou menos opacos impostos pelos adultos e a vastidão dos horizontes e marés da ilha de Amrum. Oscilando entre a inocência e o amor pela mãe, entre os vícios da época e as relações imediatas de afeto, sua luta, em última análise, é a preservação do instinto de generosidade.
Embora se trate de um filme assertivo em seu posicionamento, a direção é delicada, suave, assim como a montagem, seca e objetiva: não há manipulações de trilhas sonoras ou momentos artificialmente aflitivos – a narrativa é tão direta quanto possível.
Hark Bohm faleceu dois meses após da exibição do filme no Festival de Toronto. Filho de oficial nazista – seu pai ingressou na SS em 1933 e alcançou o posto de SS-Obersturmführer – foi ator e diretor de destaque, tendo atuado em várias produções de Rainer Werner Fassbinder.
Hark Bohm adoeceu quando escrevia o roteiro, e Fatih Akin colaborou na escrita. Logo ficou claro que Fatih Akin teria de dirigir o filme que seria do amigo e mentor. Não seria despropositado dizer que o último filme de Fatih Akin não é de fato um filme de Fatih Akin: seria um filme de Hark Bohm dirigido por Fatih Akin.
*João Lanari Bo é professor de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Cinema para russos, cinema para soviéticos (Bazar do Tempo). [https://amzn.to/45rHa9F]
Referência
[Fonte: www.aterraeredonda.com.br]

















